Biologia

Tardígrados no espaço: o experimento de 2007 mostrou sobrevivência ao vácuo, mas eles não são indestrutíveis

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Astrobiologia

Sim, com ressalvas. Em 2007, tardígrados secos passaram 10 dias em órbita, expostos ao vácuo e à radiação cósmica, e as amostras protegidas do sol não sofreram efeito significativo. O ultravioleta solar foi o que mais os matou: com o espectro completo, nenhum sobreviveu; com a faixa de 280 a 400 nm, 12% de uma das espécies. A tolerância depende do estado seco e de proteínas protetoras, e tem limites.

Tardígrados são animais microscópicos, em geral de 0,25 a 0,50 mm, que precisam de água ao redor do corpo para funcionar. Quando secam por completo, entram em criptobiose, uma parada do metabolismo, e há registros de até cerca de uma década nesse estado antes de voltarem à atividade. É esse estado seco que importa no espaço, onde o vácuo remove a água. O experimento TARDIS (Tardigrades in Space) levou cerca de 3 mil animais na missão Foton-M3 da ESA, em setembro de 2007. Parte das amostras ficou exposta ao vácuo e à radiação cósmica; parte, também ao ultravioleta solar.

A radiação cósmica foi a menor das ameaças

Nos 10 dias em órbita, a radiação cósmica somou 100 mGy. A dose que mata metade dos adultos em laboratório fica entre 3 e 5 kGy (3.000 a 5.000 Gy). A diferença é de 30 mil a 50 mil vezes (cálculo nosso, com 1 kGy = 1000 Gy).

Como sabemos: o que o TARDIS fez e mediu

Segundo a revisão de Jönsson (f1), que resume o estudo original de 2008, os animais foram levados secos e divididos em grupos: um protegido da luz solar (só vácuo e radiação cósmica) e outros sob dois espectros de ultravioleta. Depois do retorno, mediu-se a sobrevivência dos adultos, a postura de ovos e a eclosão. O desenho separa os fatores, e foi isso que mostrou o ultravioleta como o agente mais letal. O limite é a duração: foram 10 dias, e a ESA lembrava em 2008 que esses testes duravam uma ou duas semanas.

Por que secar ajuda a sobreviver ao vácuo

No vácuo, a água evapora. Um animal que depende de água ao redor do corpo só atravessa essa situação se antes entrar em criptobiose. Nesse estado, segundo Boothby e colegas (f5), proteínas desordenadas exclusivas de tardígrados são necessárias para a tolerância à dessecação e, secas, formam um vidro que protege o conteúdo das células. A trealose, açúcar protetor em outros animais, é pouco abundante nos tardígrados (f1). Nenhum desses estudos foi feito no espaço; explicam como o grupo resiste a secar, não o voo em si.

Dsup: o que a proteína mostrou e o que não mostrou

O Dsup (damage suppressor) foi descrito em Ramazzottius varieornatus. Em células humanas, uma proteína de tardígrado ligada ao DNA reduziu em cerca de 40% o dano por raios X (f3), e o Dsup protege a cromatina de radicais hidroxila em ensaio bioquímico (f4). Mas as espécies do TARDIS foram outras (R. cf. coronifer e M. tardigradum), e nos estudos lidos o Dsup não foi testado nelas. É uma pista promissora sobre radiação ionizante, não a explicação comprovada do voo de 2007. Contra o ultravioleta, que foi a maior causa de morte, o Dsup não foi avaliado.

Onde a lenda do "indestrutível" termina

O experimento mostra tolerância, não invulnerabilidade. O espectro completo de ultravioleta matou todos os animais das duas espécies, e nenhum ovo eclodiu com vácuo, radiação e UV somados (f1). Ovos e fertilidade são mais sensíveis à radiação que os adultos. A tolerância também varia: a dose que mata metade dos adultos fica entre 3 e 5 kGy em espécies semiterrestres e de água doce, e é menor numa espécie marinha. A sobrevivência vale para animais secos, por dias, em órbita baixa; não para qualquer tardígrado, em qualquer condição, por tempo indefinido.

Como sabemos

O experimento vem de uma revisão que descreve o estudo original, que não conseguimos abrir; mecanismos (Dsup, proteínas desordenadas) foram lidos em resumos.

Fontes

  1. Cancers (Basel), via PubMed Central — Radiation Tolerance in Tardigrades: Current Knowledge and Potential Applications in Medicine
    Jönsson, K. I. · 2019 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3390/cancers11091333
  2. Agência Espacial Europeia (ESA) — Tiny animals survive exposure to space
    ESA · 2008-11-10 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  3. Nature Communications, via PubMed Central — Extremotolerant tardigrade genome and improved radiotolerance of human cultured cells by tardigrade-unique protein
    Hashimoto, T. et al. · 2016 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/ncomms12808
  4. eLife, via PubMed Central — The tardigrade damage suppressor protein binds to nucleosomes and protects DNA from hydroxyl radicals
    Chavez, C. et al. · 2019 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.7554/eLife.47682
  5. Molecular Cell, via PubMed Central — Tardigrades Use Intrinsically Disordered Proteins to Survive Desiccation
    Boothby, T. C. et al. · 2017 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1016/j.molcel.2017.02.018
Histórico de alterações
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