Zoologia

Por que os olhos de gatos e outros animais brilham no escuro: o tapetum lucidum

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Sentidos dos animais

O brilho vem do tapetum lucidum, uma camada refletora logo atrás da retina. A luz que atravessa a retina sem ser absorvida bate nessa camada e volta, o que dá aos fotorreceptores uma segunda chance de capturá-la. O ganho é de sensibilidade com pouca luz; o preço é alguma perda de nitidez. Parte da luz refletida sai pela pupila, e é isso que vemos como brilho.

A retina é o tecido do fundo do olho que contém os fotorreceptores, as células que convertem luz em sinal nervoso. Em muitos vertebrados, atrás dela há um espelho biológico, o tapetum lucidum ("tapete brilhante", em latim). Ele existe em formas diferentes: em carnívoros como o gato, é uma camada de células com minúsculos bastonetes refletores; em ungulados, como os cervídeos, é feito de fibras de colágeno empilhadas fora das células; em peixes, aves e répteis, fica dentro da própria retina. Todos funcionam como espelhos de escala nanométrica, que refletem melhor certos comprimentos de onda. Algumas espécies, sobretudo diurnas, não têm essa estrutura.

Olhos de rena que mudam de cor com a estação

Na rena, o tapetum é dourado no verão e azul-escuro no inverno ártico. A mudança acompanha o espaçamento das fibras de colágeno que formam o espelho, e vem com maior sensibilidade da retina e menor nitidez.

Três maneiras de fazer um espelho

O tapetum não é uma estrutura única: aparece em formas distintas em grupos distintos. O cellulosum, de carnívoros e focas, é uma camada de células com bastonetes refletores. O fibrosum, dos ungulados, é feito de fibras de colágeno empilhadas fora das células. O tipo retiniano, de aves, répteis, anfíbios e peixes, fica em células ao redor dos fotorreceptores. Em todos, a revisão descreve estruturas periódicas de escala nanométrica, e é essa periodicidade que reflete melhor certas cores.

Segunda chance para a luz, menos nitidez

Quando um fóton atravessa a retina sem ser absorvido, o tapetum o devolve e ele passa de novo pelos fotorreceptores. Isso aumenta a chance de captura quando há pouca luz. O preço, segundo Fosbury e Jeffery, é alguma perda de acuidade. Uma razão plausível é que a luz refletida volta por um caminho levemente diferente e se espalha, borrando a imagem; essa explicação geométrica é nossa leitura do princípio, não uma medida feita nesses estudos. Em penumbra, esses animais dependem mais de contraste e movimento do que de detalhe.

Como sabemos: o caso da rena

Stokkan e colegas compararam renas perto do solstício de verão e do de inverno. Mediram a reflexão do tapetum, o espaçamento do colágeno em microscopia eletrônica, a resposta da retina por eletrorretinograma, a pressão intraocular e o tamanho da pupila. O resultado: reflexo dourado no verão, azul no inverno, com sensibilidade maior no inverno. Em 2022, Fosbury e Jeffery propuseram um modelo, o líquido entre as fibras mudaria o espaçamento, e o testaram secando amostras de tapetum. É um modelo de laboratório; não foi visto acontecendo no animal vivo.

Por que a retina precisa de um espelho?

Na retina dos vertebrados, os fotorreceptores ficam voltados para trás, longe da luz que chega. Vee e colegas formulam a hipótese de que o tapetum compensa esse "desenho invertido", e lembram que ele não foi observado em cefalópodes, cujos fotorreceptores apontam para a frente. É uma proposta, não um resultado estabelecido. Também não é universal entre os vertebrados: a revisão de 2022 lembra que muitas espécies diurnas não têm tapetum.

Como sabemos

Mecanismo geral e tipos vêm de revisão aberta; os dados de rena vêm de dois estudos da mesma equipe, com hipóteses marcadas como tais.

Fontes

  1. Journal of Biophotonics — Multilayer subwavelength gratings or sandwiches with periodic structure shape light reflection in the tapetum lucidum of taxonomically diverse vertebrate animals
    Zueva, L. et al. · 2022 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1002/jbio.202200002
  2. Proceedings of the Royal Society B — Reindeer eyes seasonally adapt to ozone-blue Arctic twilight by tuning a photonic tapetum lucidum
    Fosbury, R. A. E.; Jeffery, G. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rspb.2022.1002
  3. Proceedings of the Royal Society B — Shifting mirrors: adaptive changes in retinal reflections to winter darkness in Arctic reindeer
    Stokkan, K.-A. et al. · 2013 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rspb.2013.2451
  4. BioEssays — The glow of the night: The tapetum lucidum as a co-adaptation for the inverted retina
    Vee, S.; Barclay, G.; Lents, N. H. · 2022 · Revisão ou síntese científica · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1002/bies.202200003
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 3; conferência de trechos automatizada)

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