Corpo humano

O Sushruta Samhita, da Índia antiga, descreve como refazer um nariz com um retalho de pele da bochecha

Publicado em 05/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026

Primeiro, uma folha recortada do tamanho do nariz perdido. Depois, com a folha como molde, um retalho de pele da bochecha, ainda preso ao rosto por uma ponta, é virado sobre o ferimento, e dois tubinhos mantêm as narinas abertas. A receita está no Sushruta Samhita, o grande tratado de cirurgia da medicina indiana clássica, escrito em sânscrito. A data do texto é debatida: a tradição fala em cerca de 600 a.C., e pesquisadores do manuscrito situam a obra há cerca de dois mil anos.

Cortar o nariz era castigo comum na Índia antiga, e havia procura por quem soubesse refazê-lo. O Sushruta Samhita, atribuído ao médico Sushruta, de Kashi (a atual Varanasi), descreve o procedimento passo a passo. A datação divide os estudiosos: há autores que o situam entre 1000 e 500 a.C., enquanto a equipe da Universidade de Alberta que estuda os manuscritos fala em uma obra composta há cerca de dois mil anos. O texto original não sobreviveu: o que existe são cópias e revisões feitas ao longo dos séculos. A cópia mais antiga conhecida é um manuscrito em folha de palmeira do Nepal, datado de 878, guardado na Biblioteca Kaiser, em Katmandu.

Bochecha ou testa?

O tratado manda tirar a pele da bochecha. A técnica que chegou à Europa em 1794, com retalho da testa, é outra, praticada séculos depois. O cirurgião indiano Philip Puthumana atribui parte da confusão a duas palavras sânscritas de som parecido, uma para bochecha e outra para testa.

Uma folha como molde

O Sushruta Samhita começa a reconstrução por um molde: uma folha ou um pedaço de trepadeira recortado no tamanho exato da parte perdida. Com ele, o cirurgião marca e corta na bochecha um retalho de pele, que continua preso ao rosto por uma ponta, por onde segue recebendo sangue. O retalho é virado sobre o nariz e fixado, e tubos ocos ou caniços entram nas narinas para mantê-las abertas e deixar o paciente respirar. A ideia do retalho que não se solta do corpo continua no centro da reconstrução nasal.

Quando o tratado foi escrito

Não há resposta única. Muitos artigos médicos repetem que Sushruta viveu por volta de 600 a.C., e há autores que falam em 1000 a 500 a.C. A equipe de Dominik Wujastyk, na Universidade de Alberta, que estuda os manuscritos, descreve uma obra composta há cerca de dois mil anos. O que se sabe com segurança é que o texto original se perdeu e que o tratado mudou ao longo dos séculos. A cópia mais antiga conhecida, em folha de palmeira, é de 878 e está na Biblioteca Kaiser, em Katmandu.

Um nariz refeito perto de Poona

Cowasjee, um marata que conduzia carros de bois para o exército britânico, foi capturado pelas forças de Tipu Sultan, que lhe cortaram o nariz e uma das mãos. Perto de Poona, um homem da casta dos oleiros reconstruiu o nariz com um retalho da testa, técnica que já não vinha do Sushruta Samhita. Os cirurgiões britânicos James Findlay e Thomas Cruso viram a operação. Em outubro de 1794, uma carta assinada 'B.L.' contou o caso na Gentleman's Magazine, de Londres, com um retrato do paciente.

O método indiano na Europa

No Ocidente, a operação já não era praticada. Depois do relato de 1794, o cirurgião Joseph Constantine Carpue reconstruiu dois narizes com pele da testa, em 1814 e 1815, e publicou os resultados em 1816. Na Alemanha, Carl Ferdinand von Graefe mandou traduzir o livro e lançou Rhinoplastik em 1818, obra em que o termo 'plástica' aparece pela primeira vez ligado à cirurgia. O retalho de testa, chamado até hoje de método indiano, segue em uso na reconstrução do nariz.

Como sabemos

A técnica do retalho de bochecha e o relato de 1794 estão em vários artigos revisados por pares e no catálogo da Wellcome; a datação do tratado é controversa e aparece como tal, e a edição crítica de 2023 da passagem do nariz não pôde ser lida.

Em debate: Data do Sushruta Samhita: artigos médicos repetem 600 a.C., outros autores dão 1000 a 500 a.C., e a pesquisa filológica recente (Universidade de Alberta) fala em obra composta há cerca de dois mil anos, com camadas e revisões posteriores. A cópia mais antiga é de 878.

Em debate: Bochecha ou testa: o tratado descreve retalho da bochecha; o 'método indiano' do retalho da testa, que chegou à Europa em 1794, é posterior. Muitos textos de divulgação atribuem o retalho de testa ao próprio Sushruta, o que as fontes consultadas não sustentam.

Em debate: Autoria da carta de 1794: assinada 'B.L.', já foi atribuída a 'Colley Lucas'; van de Graaf (2009) a atribui ao gravador Barak Longmate.

Fontes

  1. University of Alberta (projeto dirigido por Dominik Wujastyk) — The Compendium of Suśruta (projeto Suśruta, página inicial)
    consultada em 05/10/2026
  2. Indian Journal of Plastic Surgery (PubMed Central, National Library of Medicine) — Through the mists of time: Sushrutha, an enigma revisited, Indian Journal of Plastic Surgery 42(2), 2009, pp. 219–223
    consultada em 05/10/2026
  3. Plastic and Reconstructive Surgery Global Open (PubMed Central, National Library of Medicine) — Sushruta: The Father of Indian Surgical History, Plastic and Reconstructive Surgery Global Open 12(4), 2024, e5715
    consultada em 05/10/2026
  4. Wellcome Collection — Cowasjee, a man who had his nose reconstructed with the aid of plastic surgery. Stipple engraving by W. Nutter, 1795, after J. Wales (registro de catálogo 23414i)
    consultada em 05/10/2026
  5. Acta Otorhinolaryngologica Italica (PubMed Central, National Library of Medicine) — Some remarks on the revival of rhinoplasty in Europe in the early nineteenth century, Acta Otorhinolaryngologica Italica 29(4), 2009, p. 226
    consultada em 05/10/2026
  6. Harvard Medical School / PubMed (National Library of Medicine) — The history of nasal reconstruction, Current Opinion in Otolaryngology & Head and Neck Surgery 29(4), 2021, pp. 259–264
    consultada em 05/10/2026
  7. Journal of Anatomy (PubMed Central, National Library of Medicine) — Anatomy in ancient India: a focus on the Susruta Samhita, Journal of Anatomy 217(6), 2010, pp. 646–650
    consultada em 05/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 2 · 06/10/2026 — Galeria ampliada: +4 imagem(ns)
  • Versão 1 · 05/10/2026 — primeira versão

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