Paleontologia

Spinosaurus: por que o dinossauro de Stromer foi reconstruído de novo, e o que ainda divide os especialistas

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

O Spinosaurus foi reinterpretado porque os ossos descritos por Stromer em 1915 foram destruídos na Segunda Guerra Mundial e porque novos achados no Marrocos permitiram montagens mais completas. Em 2014 e 2020, um grupo o descreveu como adaptado à água, com cauda de nadador; em 2021 e 2022, outros autores contestaram. Os dois lados o veem ligado a presas aquáticas, mas divergem sobre quanto tempo passava nadando.

O Spinosaurus aegyptiacus é um espinossaurídeo, grupo de terópodes de crânio longo e estreito, parecido com o de um crocodilo. Os ossos que Stromer descreveu no Egito foram destruídos na Segunda Guerra Mundial, e por décadas a espécie ficou conhecida por descrições e desenhos. Ossos achados no Marrocos, entre eles um esqueleto parcial designado neótipo (exemplar escolhido para servir de referência no lugar do original perdido), permitiram novas montagens. Duas expressões aparecem na disputa: o modelo de predador de perseguição, que caçaria presas ágeis na água, e o modelo de vadeador, que pescaria da margem ou em águas rasas, como uma garça.

Quando o tamanho muda com o método

Em 2022, uma montagem digital feita com tomografias dos ossos deu ao Spinosaurus pouco menos de 14 m, mais de 1 m a menos que o valor publicado em 2014. Esses autores dizem que o desenho em 2D usado em 2020 exagerava tronco, costelas e braços.

O que Stromer descreveu e o que se perdeu

Em 1915, Ernst von Stromer anunciou no Egito as mandíbulas alongadas e um esqueleto parcial do Spinosaurus. Sua reconstrução inicial mostrava um bípede com vela nas costas que se alimentava de peixes. Pouco depois, os ossos foram destruídos na Segunda Guerra Mundial. Hone e Holtz lembram que o registro do grupo é fragmentário, o que pesa em qualquer reconstrução: espécimes de quatro continentes, mas muitos feitos de poucos ossos ou só de dentes.

Duas reconstruções, em 2014 e 2020

Ossos do Marrocos permitiram a Ibrahim e colegas descrever, em 2014, um animal semiaquático: narinas recuadas, membros posteriores curtos e ossos maciços, sem cavidade medular aberta. Em 2020, o grupo voltou à cauda, de espinhos neurais muito altos, e mediu em aparato robótico que seu formato gera mais empuxo na água que o de caudas terrestres. O próprio artigo de 2020 reconhece que a ideia já era contestada e seguia controversa.

Como sabemos: três modos de testar um nado extinto

Nenhum teste observa o animal nadando. O de 2020 usou modelos físicos de cauda movidos por um robô. O de 2022, na Nature, comparou densidade óssea de amniotas atuais e extintos para inferir hábitos. O de Sereno e colegas montou um esqueleto digital por tomografia, acrescentou ar e músculo inferidos de animais atuais e calculou centro de massa e flutuação. Cada método depende de premissas, e cada um foi criticado: o primeiro por usar recortes de plástico, o segundo por dados e estatística, o terceiro por inferir partes moles.

Onde está a divergência hoje

Hone e Holtz sustentam que um pescador de margem, parecido com garças e cegonhas, explica as evidências sem contradição. Sereno e colegas veem um bípede ágil em terra, instável e flutuante demais na água funda. Fabbri e colegas leem a densidade óssea como sinal de forrageio submerso, e Myhrvold e colegas contestam essa análise. Há acordo em que comia peixes; falta acordo sobre o grau de adaptação. Parte da disputa vem do próprio termo semiaquático.

Como sabemos

Os fatos históricos e as posições de cada lado estão em artigos revisados por pares, mas 2014, 2020 e 2022 (Fabbri) foram lidos só no resumo e a resposta dos autores criticados não foi lida.

Em debate: Ibrahim e colegas (2014, 2020) e Fabbri e colegas (2022) defendem adaptações aquáticas marcantes, incluindo cauda propulsora e forrageio submerso. Hone e Holtz (2021), Sereno e colegas (2022) e Myhrvold e colegas (2024) contestam o hábito aquático pleno, argumentando por uma cauda de exibição, um animal bípede de flutuação instável e problemas nos dados e no método da análise de densidade óssea. Todos os lados admitem uma dieta com peixes e afinidade pela água; a disputa é sobre o grau.

Fontes

  1. Science — Semiaquatic adaptations in a giant predatory dinosaur
    Ibrahim, N.; Sereno, P. C.; Dal Sasso, C.; Maganuco, S.; Fabbri, M.; Martill, D. M.; Zouhri, S.; Myhrvold, N.; Iurino, D. A. · 2014 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1126/science.1258750
  2. Nature — Tail-propelled aquatic locomotion in a theropod dinosaur
    Ibrahim, N.; Maganuco, S.; Dal Sasso, C.; Fabbri, M.; Auditore, M.; Bindellini, G. et al. · 2020 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/s41586-020-2190-3
  3. Nature — Subaqueous foraging among carnivorous dinosaurs
    Fabbri, M.; Navalón, G.; Benson, R. B. J.; Pol, D.; O'Connor, J. et al. · 2022 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/s41586-022-04528-0
  4. eLife — Spinosaurus is not an aquatic dinosaur
    Sereno, P. C.; Myhrvold, N.; Henderson, D. M.; Fish, F. E.; Vidal, D.; Baumgart, S. L.; Keillor, T. M.; Formoso, K. K.; Conroy, L. L. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.7554/eLife.80092
  5. Palaeontologia Electronica — Evaluating the ecology of Spinosaurus: Shoreline generalist or aquatic pursuit specialist?
    Hone, D. W. E.; Holtz, T. R., Jr. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.26879/1110
  6. PLOS ONE — Diving dinosaurs? Caveats on the use of bone compactness and pFDA for inferring lifestyle
    Myhrvold, N. P.; Baumgart, S. L.; Vidal, D.; Fish, F. E.; Henderson, D. M.; Saitta, E. T.; Sereno, P. C. · 2024 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0298957
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 18; conferência de trechos automatizada)

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