Fenômenos naturais
Por que o Brasil treme mesmo no meio de uma placa: onde, quão forte e o que explica os sismos
Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026
Assuntos: Tectônica de placas
O Brasil fica no centro da Placa Sul-Americana e, ainda assim, registra sismos: falhas da crosta cedem de repente a tensões que atuam na placa inteira. Segundo um estudo de 2014, o maior registrado por instrumentos foi o de 1955, com magnitude mb 6,2; magnitudes acima de 4 ocorrem, em média, duas vezes por ano. Um tremor histórico de 1690, no Amazonas, é estimado em magnitude 7. Por que certas regiões tremem mais ainda é pergunta aberta.
Uma placa tectônica é um bloco rígido da litosfera, e os terremotos mais fortes se concentram onde as placas se encontram. O Brasil está no interior da Placa Sul-Americana, longe dessas bordas, mas a placa inteira acumula tensões, e uma falha (fratura da crosta) pode escorregar de repente: é isso que o sismógrafo registra. A localização e a magnitude dos eventos atuais vêm de estações da Rede Sismográfica Brasileira (RSBR). A magnitude mede o tamanho do evento; "mb" e "Mw" são dois modos de calculá-la e costumam diferir por décimos. A intensidade, em outra escala (Mercalli Modificada), descreve o que as pessoas sentiram e os danos.
Um terremoto reconstruído por diários
O sismo de 1690 só foi reavaliado em 2014. Relatos de missionários descrevem terra rachada, lagoas drenadas e árvores arrancadas ao longo de mais de 20 km do rio Amazonas. Desses danos saíram a intensidade IX e a magnitude estimada em 7.
Onde o Brasil treme
A sismicidade brasileira é desigual: há áreas de atividade mais alta e grandes áreas quase sem sismos. Os exemplos deste texto vêm de regiões distintas: Nordeste (a sequência de João Câmara, RN), costa equatorial (Maranhão, 2017), Amazônia (1690 e Codajás, AM) e o extremo norte (Roraima/Guiana, 2021). As rupturas raramente chegam à superfície e os epicentros em geral não coincidem com falhas antigas mapeadas, como no Maranhão, onde a falha está sob sedimentos da Bacia do Parnaíba.
De que tamanho: do que mal se sente ao que derruba casas
Magnitudes acima de 4 aparecem, em média, duas vezes por ano, e abalos de magnitude 4 são sentidos a cerca de 100 km. O maior sismo registrado por instrumentos é o de 1955 (mb 6,2); em 2021, Roraima/Guiana teve Mw 5,7 pelo USGS, o maior sentido no país desde 1955. João Câmara (RN) mostra o outro lado: dois sismos de 5,1 e 5,0 e outros vinte de magnitude 4 ou mais em cerca de sete anos, com milhares de edificações danificadas, sobretudo as de baixa qualidade construtiva.
De onde vêm as tensões
A causa imediata é sempre a mesma: uma falha cede a tensões presentes em toda a Placa Sul-Americana. A origem dessas tensões varia. Ao longo da costa equatorial, une-se uma compressão paralela à costa, ligada ao movimento da placa, a uma extensão perpendicular a ela, pois o continente tende a se espalhar para o oceano. Na Amazônia, a compressão é norte-sul e não se liga diretamente ao encontro com a Placa de Nazca; sua origem não é bem compreendida, e a convecção do manto é hipótese a testar.
Pontos fracos da crosta e da litosfera
Onde a tensão se concentra é a outra metade da pergunta. Em Roraima, o gráben do Takutu, vale que começou a se abrir no Mesozoico e parou, pode ser uma cicatriz que cede mais fácil; o epicentro de 2021 ficou a cerca de 60 km ao sul dele, então a influência é possível, não demonstrada. No Brasil central e no Sudeste, Assumpção e colegas (2004) viram mais sismos onde as ondas P são lentas entre 150 e 250 km de profundidade, lido como litosfera mais quente e fraca. É uma interpretação, e os autores dizem que nenhum modelo simples explica tudo.
Como sabemos
Sismos atuais são localizados com registros de várias estações da RSBR. No Maranhão, estações locais instaladas depois do abalo captaram réplicas e permitiram identificar a falha, a 12 km de profundidade e com cerca de 2 km rompidos. Antes dos instrumentos, usa-se relato: Veloso (2014) estimou o sismo de 1690 a partir de relatos de missionários, convertendo danos em intensidade IX e área sentida de cerca de 2 milhões de km² em magnitude 7. A incerteza é grande, porque depende da fidelidade dos relatos e de comparação com sismos recentes, como o de Codajás.
Como sabemos
Os números de 1955, 2021 e da taxa anual vêm de documentos de centros de sismologia e de um artigo revisado; a magnitude de 1690 é estimativa histórica e as causas são interpretações e hipóteses.
- Estimativa: O maior sismo conhecido no território brasileiro desde o início da colonização seria o de 1690, no Amazonas, com epicentro provável na margem esquerda do rio Amazonas, cerca de 45 km a jusante da atual Manaus, e magnitude estimada em 7. [5] Abstract
Contexto: Evento anterior a qualquer sismógrafo, reconstruído a partir de relatos de missionários e comparação com sismos instrumentais. · Limitações: Epicentro e magnitude derivam de relatos escritos um e dois anos após o evento e de relações empíricas entre intensidade, área sentida e magnitude; a forma da área sentida foi desenhada tomando o sismo de Codajás (1983) como referência. · Estimativa de um único estudo (Veloso, 2014); não é medição instrumental. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A informação sobre o sismo de 1690 vem de dois missionários jesuítas, Samuel Fritz e João Felipe Betendorf, que recolheram, de forma independente, relatos de testemunhas. [5] Introduction
Contexto: Fonte histórica; os relatos foram colhidos um e dois anos depois do tremor. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: O sismo de 31 de janeiro de 1955 é o maior já registrado por instrumentos no Brasil, com magnitude mb 6,2. [5] Fig. 4, legenda
Contexto: Magnitude mb (de ondas de volume); a localização exata e outras estimativas de magnitude variam conforme o estudo. · Limitações: Outros trabalhos citam valores um pouco diferentes para a magnitude de 1955; aqui se usa o valor dado por Veloso (2014). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O tremor de 31 de janeiro de 2021 na divisa Roraima/Guiana teve magnitude mb 5,6 pelo Centro de Sismologia da USP e Mw 5,7 pelo Serviço Geológico dos EUA (USGS), com margem de erro de 0,1 a 0,2 em cada uma, e foi o maior sismo intraplaca sentido no Brasil desde 1955. [1] §1
Contexto: Epicentro na divisa entre Roraima e a Guiana, área de baixa densidade populacional; o tremor foi sentido em todo o estado de Roraima e até em Manaus. · Limitações: Escalas mb e Mw diferem por construção; a diferença de 0,1 está dentro da margem de erro informada. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O sismo de Codajás (AM), em 1983, teve magnitude mb 5,5. [1] §1
Contexto: Referência de tamanho para sismos amazônicos recentes. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Em média, ocorrem duas vezes por ano sismos de magnitude acima de 4 em algum lugar do Brasil, e tremores de magnitude 4,0 podem ser sentidos a cerca de 100 km ou um pouco mais. [3] §1
Contexto: Afirmação do Centro de Sismologia da USP ao comentar o tremor de magnitude 4,0 do Vale do Ribeira (SP), em 16 de junho de 2023. · Limitações: Média sem período de referência declarado na fonte. · Taxa média informada pelo centro de monitoramento, sem detalhar o período. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Evidência forte: Em João Câmara (RN), a falha de Samambaia produziu uma sequência de abalos que durou cerca de sete anos, com dois sismos de magnitude 5,1 e 5,0 e outros vinte de magnitude igual ou superior a 4,0. [6] §1.1
Contexto: Nordeste do Brasil, Rio Grande do Norte; sequência iniciada em 1986. · Limitações: A fonte é um artigo de congresso que resume trabalhos anteriores (cita as contagens de uma obra de referência); não é o estudo original da sequência. · Dados de segunda mão, por isso o grau não é "fato" pleno. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: No sismo de 1986 em João Câmara, de magnitude 5,1, 4.348 edificações tiveram de ser reconstruídas ou recuperadas e 26.200 pessoas ficaram desabrigadas; os danos concentraram-se em construções de baixa qualidade. [6] §1.2
Contexto: Tabela de efeitos em edificações brasileiras, linha de João Câmara (1986, magnitude 5,1). · Limitações: Números reproduzidos de uma tabela de segunda mão; a correspondência entre a linha dos efeitos e o evento depende da leitura da tabela extraída do PDF. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: O tremor de 3 de janeiro de 2017 no Maranhão foi causado por uma falha transcorrente a 12 km de profundidade, da qual apenas cerca de 2 km se romperam, sem nenhum sinal na superfície, porque a falha está coberta por sedimentos da Bacia do Parnaíba. [2] §1
Contexto: Tremor de magnitude da ordem de 4 no interior do Maranhão, sentido até em São Luís e Teresina; falha identificada por pesquisadores da RSBR com estações locais instaladas depois do evento. · Limitações: O informe da USP indica magnitude 4 no texto; outro informe do mesmo centro registra 4,6 para o mesmo dia, de modo que o texto evita citar um valor único. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: Os sismos brasileiros resultam do deslocamento repentino em falhas da crosta, causado por tensões geológicas presentes em toda a Placa Sul-Americana. [1] §3
Contexto: Explicação geral do Centro de Sismologia da USP para os sismos de Roraima e da Amazônia. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Ao longo da costa equatorial do Brasil, os sismos parecem ocorrer por uma combinação de compressão paralela à costa, ligada ao movimento da Placa Sul-Americana, com extensão perpendicular à costa, porque o continente tende a se espalhar em direção ao oceano. [2] §2
Contexto: Margem equatorial, do Amapá ao Rio Grande do Norte, passando pelo Ceará. · Limitações: O informe resume resultado publicado no periódico Geophysical Journal International; o estudo original não foi lido por inteiro. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: Na Amazônia central e em Roraima a causa é uma compressão de direção norte-sul que não está ligada diretamente ao encontro das placas de Nazca e Sul-Americana; a origem dessa compressão ainda não é bem compreendida, e a convecção do manto é uma hipótese a testar. [1] §3
Contexto: Sismos de falha inversa na parte central do Amazonas e em Roraima. · Limitações: A própria fonte marca a convecção do manto como hipótese ainda a ser testada. · Origem das tensões compressivas é questão aberta segundo o informe. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: Na divisa Roraima/Guiana existe o gráben do Takutu, um vale que começou a se abrir no Mesozoico e teve a abertura abortada; ele pode ser uma região de fraqueza da crosta, e o epicentro de 2021 ficou cerca de 60 km ao sul dele. [1] §4
Contexto: Gráben é um vale alongado limitado por falhas. · Limitações: A influência do gráben no sismo de 2021 é possível, não demonstrada. · A fonte usa "pode ser". · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: No Brasil central e Sudeste, a atividade sísmica maior ocorre preferencialmente onde as ondas P são lentas a 150–250 km de profundidade, o que Assumpção e colegas interpretam como astenosfera mais rasa: uma litosfera mais quente e fraca concentraria as forças na crosta rígida. [4] Summary
Contexto: Brasil central e Sudeste, com dados de tomografia de ondas P (cerca de 8.500 chegadas de ondas P). · Limitações: Estudo de 2004; os autores afirmam que outros fatores também importam. · Interpretação de um estudo, não consenso. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: A sismicidade brasileira é desigual, as rupturas raramente chegam à superfície e nenhum modelo simples explica todos os aspectos da sismicidade intraplaca. [4] §1
Contexto: Afirmação de revisão de literatura na introdução de um estudo de 2004. · Limitações: Escrita em 2004; o conhecimento avançou desde então, mas a ideia de que cada província exige explicação própria segue nos informes recentes da USP. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Centro de Sismologia da Universidade de São Paulo (IAG/USP) — O sismo de Roraima/Guiana de 31 de janeiro 2021
Centro de Sismologia da USP · 2021-02 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 - Centro de Sismologia da Universidade de São Paulo (IAG/USP) — As causas do tremor do Maranhão de 2017
Centro de Sismologia da USP · 2018-01 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 - Centro de Sismologia da Universidade de São Paulo (IAG/USP) — Tremor de Terra do Vale do Ribeira, magnitude 4.0, 16 de junho de 2023
Centro de Sismologia da USP · 2023-06-16 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 - Geophysical Journal International — Intraplate seismicity in SE Brazil: stress concentration in lithospheric thin spots
Assumpção, M.; Schimmel, M.; Escalante, C.; Barbosa, J. R.; Rocha, M.; Barros, L. V. · 2004 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1111/j.1365-246X.2004.02357.x - Anais da Academia Brasileira de Ciências — On the footprints of a major Brazilian Amazon earthquake
Veloso, A. V. · 2014 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1590/0001-3765201420130340 - Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (11º Congresso Nacional de Sismologia e Engenharia Sísmica) — Reflexões sobre o risco sísmico no Brasil
Miranda, P. S. T.; Varum, H. S. A.; Vila Pouca, N. S. · s.d. · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 7; conferência de trechos automatizada)