Fenômenos naturais

Terremotos provocados por gente: como a pressão da água nos poros reativa falhas, de represas a Oklahoma

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Reservatórios, injeção de água residual e estimulação geotérmica podem provocar terremotos ao aumentar a pressão da água nos poros da rocha, o que reduz o atrito de falhas que já estavam perto de romper. Em Oklahoma, a sismicidade cresceu 900 vezes desde 2008; em Pohang (Coreia do Sul), um evento de Mw 5,5 em 2017 ocorreu junto a um projeto geotérmico.

Uma falha é uma fratura da crosta onde os blocos podem deslizar. O que a mantém travada é o atrito, que depende da tensão que aperta os blocos um contra o outro (tensão normal efetiva). A rocha profunda tem poros e fraturas cheios de água, e a pressão desse fluido (pressão de poros) empurra os blocos para longe: se ela sobe, o aperto efetivo diminui e a falha pode escorregar. O mecanismo só age em falhas já tensionadas, que estavam perto do limite. Há dois caminhos principais: a pressão se espalha pela rocha até a falha (difusão de pressão), ou a carga e a deformação mudam as tensões à distância (efeito poroelástico, ou o peso da água de um reservatório). Isso vale para barragens, poços de descarte, fraturamento hidráulico e geotermia. Os sismos naturais do interior da placa brasileira estão em outro texto.

O maior veio depois do fim

Em Pohang, o terremoto de Mw 5,5 ocorreu dois meses depois da última das cinco estimulações hidráulicas. Segundo os autores do estudo, a interação entre terremotos menores ajudou a levar a eventos maiores mais tarde.

Como a pressão dos poros destrava uma falha

A teoria clássica (critério de Mohr-Coulomb) diz que a tensão normal efetiva sobre a falha cai na mesma proporção que a pressão do fluido sobe, descontado o relaxamento poroelástico. Quando cai abaixo do limite, a falha escorrega. Há dois caminhos descritos na literatura: a pressão que se difunde em torno do poço e a mudança de tensão da rocha, que alcança falhas além da pressão. Em ambos, a falha já estava tensionada.

Reservatórios de barragens: peso, infiltração e atraso

Um reservatório age de dois modos: o peso da água muda as tensões de imediato e a água infiltrada leva pressão a falhas profundas com o tempo. Por isso o tremor pode vir cedo ou após anos. Em Nova Ponte, o enchimento começou em 1993, houve um evento de magnitude 3,5 em 1995 e outro de 4,0 em 1998. Os autores do estudo dizem que mudanças de poucas décimas de megapascal bastam para reativar falhas profundas.

Água residual, fraturamento e geotermia: três atividades distintas

Em Oklahoma, a água salgada da produção de petróleo e gás é injetada em poços profundos, e a sismicidade subiu 900 vezes. No fraturamento hidráulico, que injeta fluido para abrir a rocha, os terremotos variam entre bacias: comuns em Montney, raros em Marcellus. Na geotermia estimulada, Basel (2006) foi encerrada após um evento de ML 3,4, e Pohang (2017) teve Mw 5,5. São casos com geologia e volumes diferentes: não se somam em uma regra única.

Como sabemos que foi induzido, e o que ainda não sabemos

A pressão no foco quase nunca é medida, pois os tremores ocorrem a 4–8 km, então se usam modelos de difusão de pressão que reproduzem a posição e o tempo dos tremores em relação aos poços. Em Oklahoma, um modelo reproduziu o padrão de 2008 a 2017. Isso sustenta a causa física, mas vale para uma região. Em Pohang, o mecanismo proposto vem de um único caso bem instrumentado, e muitos estudos ainda mostram só correlação.

O que se faz para reduzir o risco

Em Oklahoma, a redução de 2016 deixou o volume de salmoura em menos de 40% do de 2014; o modelo estima queda de 22% na probabilidade de M 5,0 no oeste, sem mudança no centro, e Pawnee e Cushing ocorreram em 2016. Em Basel, simulações sugerem que reduzir a injeção aos poucos ameniza os eventos depois do bombeio. Os autores de Pohang defendem avaliar pressão e transferência de tensão em tempo real, e os de Nova Ponte, caracterizar o subsolo antes do enchimento.

Como sabemos

O mecanismo da pressão de poros e os números de Oklahoma e Pohang vêm de artigos revisados lidos na íntegra; os mecanismos de casos específicos e as estratégias de mitigação ainda são modelos e hipóteses.

Fontes

  1. Scientific Reports — Reservoir impoundment-triggered seismicity in Brazil: the case of M4.0 Nova Ponte earthquake
    Raza, H.; Kivi, I. R.; França, G. S.; Vilarrasa, V. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41598-023-48924-6
  2. Nature Communications — Causal mechanism of injection-induced earthquakes through the Mw 5.5 Pohang earthquake case study
    Yeo, I. W.; Brown, M. R. M.; Ge, S.; Lee, K. K. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41467-020-16408-0
  3. Proceedings of the National Academy of Sciences — Pore-pressure diffusion, enhanced by poroelastic stresses, controls induced seismicity in Oklahoma
    Zhai, G.; Shirzaei, M.; Manga, M.; Chen, X. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1073/pnas.1819225116
  4. Nature Communications — High density oilfield wastewater disposal causes deeper, stronger, and more persistent earthquakes
    Pollyea, R. M.; Chapman, M. C.; Jayne, R. S.; Wu, H. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41467-019-11029-8
  5. Journal of Seismology — Investigation of hydraulic fracturing-induced seismicity in the Haynesville Shale
    Verdon, J. P.; Harris, A. D. G. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1007/s10950-025-10296-x
  6. Philosophical Transactions of the Royal Society A — Forecasting fluid-injection induced seismicity to choose the best injection strategy for safety and efficiency
    Boyet, A.; Vilarrasa, V.; Rutqvist, J.; De Simone, S. · 2024 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1098/rsta.2023.0179
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 14; conferência de trechos automatizada)

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