Astronomia
SETI: como se busca sinal de civilizações e o que 1.327 estrelas já mostraram
Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026
Assuntos: Astrobiologia
A busca por sinais de rádio procura emissões de banda estreita, com largura da ordem de hertz, que a astrofísica conhecida não produz, e com deriva de frequência compatível com um transmissor fora da Terra. O Breakthrough Listen examinou 1.327 estrelas entre 2016 e 2019 e, descartada a interferência terrestre, ficou com zero candidatos. O resultado nulo limita transmissores fortes e contínuos, não exclui os fracos.
SETI é a sigla em inglês para a busca de inteligência extraterrestre. Em rádio, procura-se uma tecnoassinatura: sinal que só uma tecnologia produziria. O que se espera é uma linha muito fina em frequência, ao contrário do ruído largo de estrelas e galáxias. Como o transmissor e a Terra aceleram um em relação ao outro, a frequência recebida vai mudando (deriva Doppler). O maior obstáculo é a interferência de radiofrequência (RFI): satélites, celulares, radares. O Breakthrough Listen, programa de dez anos iniciado em 2016, usa os telescópios de Green Bank (100 m, EUA) e Parkes (64 m, Austrália) e publica os dados abertos.
Em 40 anos, a faixa dos instrumentos cresceu 100 milhões de vezes
Price e colegas contam que a largura de banda que os receptores SETI registram de uma vez passou de centenas de hertz, no início da busca, para dezenas de gigahertz hoje. O salto, de cerca de 10^8, permite vasculhar muito mais frequências por observação.
O que a busca procura: linha fina e deriva
Um transmissor fora da superfície da Terra tem a frequência deslocada pelo efeito Doppler, porque acelera em relação ao receptor. Price e colegas varrem derivas de -4 a +4 Hz/s, intervalo largo o bastante para planetas de raios, rotações e órbitas muito variados. O que se procura é uma linha de largura da ordem de hertz, que, segundo Sheikh e colegas, nenhum sistema astrofísico conhecido ou previsível cria, só a tecnologia. Interferência humana também pode ter essa forma, e é o principal problema.
Como sabemos que um sinal não é interferência
O filtro é geométrico. Cada alvo é observado em três ciclos de 5 minutos apontando para a estrela (ON) e 5 minutos para outro ponto do céu (OFF). Sinal que aparece nos dois conta como RFI, e o verdadeiro tem de estar nos três ON. No levantamento, 51,71 milhões de detecções caíram a 21.117 eventos e a 6.154 grupos; todos foram vistos por olhos humanos e nenhum sobrou. O BLC1 mostra que um sinal pode passar por esse filtro e ainda assim ser interferência.
O que um resultado nulo mede
Ausência de detecção é dado, com escopo. O levantamento não achou transmissores acima de 2,1 trilhões de watts em Green Bank e 9,1 trilhões em Parkes, para estrelas até 50 pc. Os autores estimam, sob a suposição de transmissores raros, que menos de 0,45% das estrelas observadas na faixa L teriam algum, com 95% de confiança, mas chamam o limite de grosseiro. Smith e colegas lembram que uma busca assim não refuta a vida tecnológica em Proxima b. O post sobre o paradoxo de Fermi mostra quanto do espaço de busca já foi vasculhado.
Sinais candidatos: BLC1 e Wow!
O BLC1, a 982 MHz, foi o único dos 5.160 eventos da campanha de Proxima Centauri a passar por tudo. A equipe o investigou e concluiu que era intermodulação de interferências locais; reobservações em 2020 e 2021 não o acharam. A campanha usava cadência fora do padrão, e o resultado mostrou o limite do filtro ON-OFF. O Wow! (1977, Big Ear) nunca se repetiu, e a busca de 2022 numa estrela candidata não achou nada.
Como sabemos
Números e procedimentos vêm de artigos abertos lidos na íntegra, mas dois deles são pré-publicações no arXiv e o limite estatístico de 0,45% não foi reproduzido por nós.
- Fato estabelecido: O levantamento do Breakthrough Listen publicado por Price e colegas observou 1.327 estrelas: 1.138 com o telescópio de Green Bank (EUA), de 2016 a 2019, e 189 com o de Parkes (Austrália), em faixas de 1,10 a 3,45 GHz. [1] Seção 1.1
Contexto: Estrelas próximas escolhidas da amostra de 1.702 estrelas de Isaacson et al. (2017): todas até 5 pc e uma amostra de estrelas da sequência principal entre 5 e 50 pc. · Limitações: 1.138 + 189 = 1.327 é soma nossa; alguns alvos foram observados em mais de uma faixa. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Um transmissor que não esteja na superfície da Terra (nem em órbita geoestacionária) tem a frequência do sinal deslocada ao longo do tempo pelo efeito Doppler, porque acelera em relação ao receptor; por isso a busca procura sinais de banda estreita com essa deriva, de -4 a +4 Hz/s. [1] Seção 3 [3] Seção 1
Contexto: Deriva de frequência em hertz por segundo, medida em janelas de 5 minutos. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Cada estrela é observada em três pares de 5 minutos apontando para ela (ON) e para um ponto de referência no céu (OFF); sinal que aparece também nos pontos de referência conta como interferência de radiofrequência (RFI) e é descartado, e o sinal tem de estar nas três observações ON. [1] Seção 2.2
Contexto: Estratégia usada em Green Bank e Parkes; o esquema exato dos pontos OFF difere entre os dois. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Nos dados de 1.327 estrelas, o programa de busca registrou 51,71 milhões de detecções acima do limiar; só 21.117 apareceram apenas nas observações ON, e elas se agruparam em 6.154 grupos de eventos, todos inspecionados. [1] Seção 3.4
Contexto: “Hit” é qualquer sinal de banda estreita acima da razão sinal-ruído 10; “evento”, um hit presente só nas observações ON. · Limitações: Contagens do artigo; não refizemos a análise. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A maior parte das detecções vem de transmissões humanas: as faixas com mais ocorrências coincidem com satélites de navegação (GPS) e telefonia celular, e o viés para deriva negativa é atribuído a satélites em órbitas não geoestacionárias. [1] Seção 4.1.2
Limitações: O artigo usa “is likely” e “may be” nas atribuições mais específicas. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Depois de excluir os eventos com características de interferência terrestre, o levantamento ficou com zero candidatos: sem evidência de transmissores de banda estreita acima de 2,1 trilhões de watts (Green Bank) e 9,1 trilhões de watts (Parkes), potência isotrópica equivalente calculada para uma estrela a 50 pc. [1] Seção 5.2
Contexto: 2,1 × 10^12 W e 9,1 × 10^12 W: o artigo escreve “2.1 × 1012 W” porque o expoente se perdeu na extração do texto. · Limitações: Vale para sinais contínuos de banda estreita, dentro das faixas e do limiar de sensibilidade; estrelas mais próximas permitem detectar potências menores (a potência mínima cresce com o quadrado da distância). Conversão de 10^12 W em “trilhões” é nossa. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Os autores estimam, sob a hipótese de que transmissores desse tipo sejam raros, que menos de 0,45% das estrelas observadas na faixa L de Green Bank teriam transmissor de banda estreita acima do limiar, com 95% de confiança; eles próprios chamam esses limites de grosseiros. [1] Seção 5.3
Contexto: Faixa L de Green Bank, que cobre 1,10 a 1,90 GHz; os autores supõem probabilidade de 50% de detectar um sinal se ele existir. · Limitações: Depende da suposição de transmissores raros e contínuos e da probabilidade de 0,5 assumida pelos autores. Não conseguimos reproduzir o 0,45% com uma conta simples a partir dos 882 alvos citados; o valor é o do artigo. · Estimativa dos autores, não medição; os próprios autores a chamam de grosseira. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: A observação de Proxima Centauri com o telescópio de Parkes alcançou potência mínima detectável de 1,9 GW, mas, segundo os autores, uma busca assim não pode refutar a existência de uma sociedade tecnológica em Proxima b. [2] Texto principal
Contexto: Campanha de 2019 com o receptor de banda ultralarga (0,7 a 4,0 GHz) de Parkes; Proxima Centauri está a 1,301 pc. · Limitações: O argumento vale para qualquer busca limitada em banda e em alvos; “most sensitive search on a stellar target” é afirmação dos autores. · Afirmação lógica sustentada pelos autores; a conclusão sobre “refutar” é leitura deles. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Na campanha de Proxima Centauri, dos 5.160 eventos só um passou por todas as rodadas de filtragem e inspeção visual: o sinal BLC1, a 982 MHz, que persistiu por cerca de 5 horas, apareceu só nas observações da estrela e tinha deriva de frequência não nula. [2] Texto principal [3] Seção 1
Contexto: Parkes, 29 de abril de 2019. · Limitações: “Cerca de 5 horas” vem da tabela 1 do artigo de Sheikh et al. (5,03 h). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: A análise posterior concluiu que o BLC1 não é tecnoassinatura: é um produto de intermodulação (mistura de sinais) de interferências locais variáveis, alinhadas com o ritmo das observações, e a equipe achou dezenas de casos de interferência com forma semelhante. [2] Texto principal [3] Resumo
Contexto: Conclusão dos autores da própria equipe do Breakthrough Listen, em dois artigos. · Limitações: A origem exata do equipamento que gerou a interferência não foi identificada: a conclusão se apoia em dezenas de sinais semelhantes e em testes de correlação. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A campanha de Proxima Centauri usou uma cadência diferente do padrão da equipe: 30 minutos na estrela alternados com 5 minutos em calibradores, e pontos de referência muito mais afastados da estrela, o que complicou a comparação entre os pontos ON e OFF. [3] Seção 2
Limitações: O projeto original media explosões estelares, e a configuração visava esse objetivo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Reobservações de Proxima Centauri em novembro de 2020 e em abril-maio de 2021, no mesmo horário e com a mesma cadência da detecção original, não encontraram sinal algum na frequência do BLC1. [3] Seção 2.2
Contexto: Três sessões de 3 a 4 horas em novembro de 2020 e 12 horas por dia em 29 de abril a 3 de maio de 2021. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O Breakthrough Listen é um programa de dez anos, com observações iniciadas em 2016, que usa o telescópio de 100 m de Green Bank e o de 64 m de Parkes; os produtos de dados do levantamento de 1.327 estrelas, 219 TB, estão disponíveis para download. [1] Resumo
Limitações: “Dez anos” é a duração planejada do programa, segundo o artigo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O sinal Wow!, registrado em 15 de agosto de 1977 pelo telescópio Big Ear (Ohio State), perto da linha do hidrogênio em 1420 MHz, nunca foi detectado de novo; uma busca do Breakthrough Listen em 2022 numa estrela candidata a origem não achou candidatos a tecnoassinatura. [4] Resumo
Contexto: Busca de 2022 em 2MASS 19281982-2640123 com Green Bank e Allen Telescope Array, em observações de 30 e 5 minutos. · Limitações: Página institucional de resumo, sem revisão por pares; o Wow! tem pauta própria. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Em cerca de 40 anos, a largura de banda que os instrumentos de rádio SETI registram de uma vez cresceu de centenas de hertz a dezenas de gigahertz, segundo Price e colegas. [1] Seção 1
Limitações: Descrição dos autores da evolução da instrumentação; o fator 10^8 que eles citam equivale a cem milhões de vezes. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Universidade da Califórnia, Berkeley, e colaboradores (versão no arXiv) — The Breakthrough Listen Search for Intelligent Life: Observations of 1327 Nearby Stars over 1.10–3.45 GHz
Price, D. C. et al. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 - Universidade da Califórnia, Berkeley, e colaboradores (versão no arXiv) — A radio technosignature search towards Proxima Centauri resulting in a signal-of-interest
Smith, S. et al. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 - Universidade da Califórnia, Berkeley, e colaboradores (versão no arXiv) — Analysis of the Breakthrough Listen signal of interest blc1 with a technosignature verification framework
Sheikh, S. Z. et al. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 - Berkeley SETI Research Center, Universidade da Califórnia, Berkeley — Breakthrough Listen Search for the WOW! Signal
Berkeley SETI Research Center · 2022 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 16; conferência de trechos automatizada)