Ecologia

Na Serra do Mar, a floresta muda com a altitude: frio, neblina e pico de espécies de árvores a 300–400 m em SP

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Os seis biomas do Brasil

Subindo a Serra do Mar, a Mata Atlântica passa por faixas de altitude que o IBGE chama de terras baixas, submontana, montana e alto-montana. Numa encosta paulista, a temperatura média anual cai de 22 °C no nível do mar para 17 °C a 1.100 m, a chuva não diminui, a neblina é quase diária acima de 400 m e a riqueza de árvores tem pico entre 300 e 400 m.

A Serra do Mar é a serra costeira coberta pela Floresta Ombrófila Densa, floresta de clima úmido, quase sem estação seca. O IBGE divide essa floresta em formações de altitude (terras baixas, submontana, montana e alto-montana), e os limites de cada uma mudam com a latitude. Subir a encosta também muda o ambiente: o ar esfria, a neblina cobre as partes altas e, no trecho paulista medido, a chuva continua alta até o topo. Os dados mais detalhados vêm de parcelas de 1 hectare (10.000 m²) do programa BIOTA/FAPESP, instaladas do nível do mar a 1.100 m no litoral norte de São Paulo. Para a floresta úmida no alto de serras do semiárido, veja os brejos de altitude, tratados em outro texto.

A floresta do alto guardou mais biomassa que a da baixada

Em 13 parcelas de 1 ha, a biomassa viva acima do solo foi de 166,3 Mg/ha na restinga e 283,2 Mg/ha na floresta montana. Em muitas montanhas tropicais o padrão é o oposto.

Quatro faixas, com limites que dependem da latitude

Entre 16° e 24° de latitude sul, o IBGE define as terras baixas até cerca de 50 m, a formação submontana de 50 a 500 m, a montana de 500 a 1.500 m e a alto-montana acima disso. Mais ao sul, as faixas ficam mais baixas: a montana vai de 400 a 1.000 m. O próprio manual admite variação de até 500 m como margem de erro regional. No cume, a formação alto-montana tem cerca de 20 m de altura, solos rasos e é chamada de mata nebular onde há neblina. [a1 a2 a3]

O que muda com a altitude: frio e neblina, não falta de chuva

Na encosta paulista medida, a temperatura média anual cai de 22 °C no litoral para 17 °C a 1.100 m (queda de 5 °C, cálculo nosso), a chuva passa de 2.200 mm por ano na base e não diminui, e a neblina cobre as partes altas quase todo dia a partir de 400 m. O frio reduz a decomposição da matéria orgânica no solo. Em gradientes curtos como esse, a zonação pode ficar comprimida e florestas de neblina podem aparecer em altitudes relativamente baixas. [a4 a5 a11 a14]

Como sabemos: parcelas de um hectare do nível do mar a 1.100 m

O programa BIOTA/FAPESP marcou e mediu 21.733 árvores, palmeiras e fetos arborescentes com diâmetro de 4,8 cm ou mais em 14 parcelas de 1 ha; 11 delas tiveram levantamento florístico. Outro grupo mediu 13 parcelas e estimou a biomassa por equação, com intervalos de confiança por reamostragem (bootstrap). Limites: é uma só encosta, a lacuna entre 400 e 1.000 m tinha parcelas ainda por levantar e a altitude se mistura com solo, relevo e perturbação. Uma análise de 125 listas florísticas de escala maior também liga altitude e temperatura à composição das florestas. [a6 a8 a12 a15]

Meio da encosta com mais espécies, topo com mais biomassa

Nas parcelas paulistas, a riqueza de árvores tem pico a 300–400 m, com 562 espécies nas 11 parcelas, e cai na floresta montana, onde a família Monimiaceae é típica e as palmeiras sobem de 10% para 25% dos indivíduos. A biomassa vai no sentido oposto: aumenta com a altitude, o contrário do padrão em muitas montanhas tropicais. Os autores ligam isso a relevo, luz e perturbação, e o pico de riqueza a mudanças climáticas do Pleistoceno, uma hipótese ainda em debate. [a6 a7 a8 a9 a10 a12 a13]

Como sabemos

Faixas de altitude e números de parcelas foram lidos em fontes institucionais e artigos abertos, mas os dados quantitativos vêm de uma única encosta paulista.

Em debate: Os autores do levantamento paulista citam a história climática do Pleistoceno, mas também listam hipóteses ligadas à produtividade, à temperatura, à teoria metabólica, ao efeito geométrico (mid-domain) e ao efeito Massenerhebung. Há debate na literatura e o estudo não testou nenhuma delas.

Fontes

  1. IBGE — Manual Técnico da Vegetação Brasileira (2ª edição revista e ampliada)
    IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística · 2012 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  2. Biota Neotropica 12(1) (programa BIOTA/FAPESP) — Floristic and phytosociology in permanent plots of the Atlantic Rainforest along an altitudinal gradient in southeastern Brazil
    Joly, C. A.; Assis, M. A.; Bernacci, L. C.; Tamashiro, J. Y. et al. · 2012 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  3. Forest Ecology and Management (cópia de autor, versão in press) — Forest structure and live aboveground biomass variation along an elevational gradient of tropical Atlantic moist forest (Brazil)
    Alves, L. F.; Vieira, S. A.; Scaranello, M. A.; Camargo, P. B.; Santos, F. A. M.; Joly, C. A.; Martinelli, L. A. · 2010 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1016/j.foreco.2010.05.023
  4. Biotropica 32(4b) — Patterns of Floristic Differentiation among Atlantic Forests in Southeastern Brazil and the Influence of Climate
    Oliveira-Filho, A. T.; Fontes, M. A. L. · 2000 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1111/j.1744-7429.2000.tb00619.x
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 9; conferência de trechos automatizada)

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