Ciências da Terra
Serra do Mar: como a abertura do Atlântico deixou uma escarpa, e o que ainda se discute sobre sua idade
Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026
Assuntos: Tectônica de placas
A Serra do Mar é uma escarpa de cerca de 1.000 km, do Rio de Janeiro ao norte de Santa Catarina, onde termina o Planalto Atlântico voltado à Bacia de Santos. Sua origem liga-se à abertura do Atlântico: falhas antigas foram reativadas em pulsos do Cretáceo ao Terciário e formaram um sistema de riftes. Quando e onde a escarpa se ergueu segue em debate; uma hipótese a faz recuar por erosão a partir de uma falha hoje submersa.
Margem passiva é a borda de um continente que, depois da separação, deixou de ser limite ativo de placas; a Serra do Mar fica numa dessas bordas, a sul-americana. Escarpa é um desnível longo e abrupto, aqui entre o planalto do interior e a faixa costeira. No Paraná os cimos chegam a 1.800 m; em São Paulo a serra é uma borda de planalto, em geral nivelada entre 800 e 1.200 m. As rochas são embasamento antigo, cortado por falhas anteriores ao Atlântico, que a separação do Gondwana reativou. O conjunto de bacias e falhas atrás da serra é o Rift Continental do Sudeste do Brasil. A abertura em si, do rifte lento à ruptura, já está explicada em outro texto.
Uma proto-Serra do Mar no Cretáceo
Os sedimentos grossos do Cretáceo Superior da Bacia de Santos indicam que um relevo destacado já existia perto da borda da bacia. Almeida e Carneiro (1998) o chamam de proto-Serra do Mar.
Falhas antigas acordadas pela separação do Gondwana
O embasamento da serra é um mosaico de rochas pré-cambrianas, cortado no Cambro-Ordoviciano por zonas de cisalhamento. Quando o Gondwana se partiu, essas descontinuidades foram reativadas em pulsos que, segundo Almeida e Carneiro, foram do Cretáceo ao Terciário. O magmatismo alcalino vizinho acompanha esse regime: na Ilha de São Sebastião ele se concentra entre 88 e 85 Ma, dentro de um ciclo regional que vai do Cretáceo Inferior ao Eoceno.
O sistema de riftes atrás da serra
Entre a serra e a Mantiqueira ficam bacias como Taubaté, Resende e Volta Redonda, parte do Rift Continental do Sudeste do Brasil. A de Volta Redonda se originou no Paleógeno, datada por K-Ar em vulcânicas; o assoalho da de Taubaté fica mais de 2.000 m abaixo da superfície Japi. Almeida (1976), citado em revisão de 2022, calcula mais de 11 km de desnível entre as montanhas mais altas e o embasamento sob a Bacia de Santos.
Recuo da escarpa ou subida no lugar? Duas leituras
Para Almeida e Carneiro, a serra não mostra importantes falhamentos neotectônicos no sítio atual e resulta de erosão diferencial regressiva: um evento tectônico iniciado no Paleoceno teria soerguido o bloco oeste da Falha de Santos, hoje sob a plataforma, e a erosão levou as encostas até onde estão. Outros autores, descritos por eles, veem falhamento vertical cenozoico no local. As duas leituras concordam que o relevo atual tem herança das falhas antigas.
Como sabemos: sedimentos, idades e taxas de erosão
Quatro tipos de evidência entram aqui. A estratigrafia da Bacia de Santos mostra detritos grossos do Cretáceo Superior vindos de um relevo vizinho. Datações K-Ar e 40Ar/39Ar fixam o magmatismo e a origem das bacias. A termocronologia de baixa temperatura, que registra quando as rochas esfriaram ao chegar perto da superfície, aparece só por citação nesta fonte. E o 10Be cosmogênico dá taxas atuais: em Santa Catarina, 46,8 m/Ma na escarpa contra 3,1 e 6,5 m/Ma nos planaltos. Taxas de hoje não provam o ritmo passado.
Como sabemos
O quadro geral (reativação de falhas antigas, riftes do Paleógeno, escarpa de borda de planalto) é firme, mas a idade e a posição original da escarpa dependem de uma hipótese de 1998, e a termocronologia só entra por citação.
Em debate: Onde a Serra do Mar nasceu e quando
- Fato estabelecido: A Serra do Mar é um conjunto de escarpas festonadas com cerca de 1.000 km de extensão, em que termina o Planalto Atlântico no trecho voltado para a Bacia de Santos, do Rio de Janeiro ao norte de Santa Catarina. [1] Introdução
Contexto: Descrição de 1998; o comprimento é aproximado e depende de onde se fecha a serra nos extremos. · Limitações: Segundo os autores, ao sul a serra deixa de existir como unidade de borda escarpada de planalto. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: No Paraná a serra tem cimos até 1.800 m de altitude; em São Paulo é uma borda de planalto frequentemente nivelada pelo topo entre 800 e 1.200 m. [1] Introdução
Contexto: Altitudes citadas por Almeida e Carneiro (1998) para trechos da serra. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Falhas e zonas de cisalhamento do embasamento, formadas no Cambro-Ordoviciano, foram reativadas durante a separação mesozoica do Gondwana, em pulsos descontínuos que duraram do Cretáceo ao Terciário. [1] Estrutura geológica
Contexto: Sudeste do Brasil, entre a Bacia de Santos e o Planalto Atlântico. · Limitações: Síntese de 1998; as idades das reativações foram refinadas por trabalhos posteriores que não foram lidos aqui. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: O magmatismo alcalino da Ilha de São Sebastião, no setor norte da Província Alcalina da Serra do Mar, ocorreu em um intervalo estreito, de cerca de 88 a 85 milhões de anos atrás. [2] Abstract
Contexto: Datação 40Ar/39Ar de gabros, diques e traquito de uma ilha; outras ocorrências próximas e do interior têm idades semelhantes, segundo os autores. · Limitações: Vale para a ilha; a serra como relevo não tem essa idade (o magmatismo é anterior à escarpa atual). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Na região, o magmatismo ligado à ruptura do Gondwana teve três fases: Cretáceo Inferior (cerca de 134 a 130 Ma, antes da separação), meio do Cretáceo (cerca de 110 a 80 Ma) e Paleoceno–Eoceno (cerca de 65 a 45 Ma). [2] Introduction
Contexto: Sudeste da Plataforma Sul-Americana; a fase intermediária (110 a 80 Ma) é descrita no mesmo parágrafo do artigo. · Limitações: Resumo de literatura feito pelos autores do artigo, não uma datação nova. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: A Bacia de Volta Redonda, parte do Rift Continental do Sudeste do Brasil, originou-se no Paleógeno, segundo datações K-Ar de rochas vulcânicas. [3] Introduction
Contexto: Bacia de Volta Redonda (RJ), atrás da Serra do Mar; a datação é de Riccomini e colaboradores (1983), citada no artigo. · Limitações: Fonte de segunda mão para a datação (o artigo de 2020 a cita); vale para essa bacia. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O assoalho da Bacia de Taubaté está rebaixado a mais de 2.000 m em relação à superfície de aplainamento Japi no topo da Mantiqueira. [1] Estrutura geológica
Contexto: Superfície Japi: antiga superfície de erosão, hoje deformada, usada como nível de referência. · Limitações: Número de 1998. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Movimentos verticais opostos na região desde o Jurássico Superior produziram um desnível que, segundo Almeida (1976), citado numa revisão de 2022, ultrapassa 11 km entre as montanhas mais altas e o embasamento da Bacia de Santos. [4] Rift System in Southeastern Brazil
Contexto: Soma de soerguimento do continente e abatimento do embasamento sob a bacia; não é a altura da serra. · Limitações: O valor é de Almeida (1976), lido apenas na citação de f4. · Estimativa de 1976 repetida em 2022; o número depende do embasamento sob a bacia, que não é observado diretamente. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: Almeida e Carneiro (1998) propõem que a Serra do Mar surgiu, por soerguimento do bloco oeste da Falha de Santos, na área da atual plataforma continental, e que em três a quatro dezenas de milhões de anos a erosão fez as encostas recuarem até a posição atual. [1] Conclusões
Contexto: Trecho paulista e fluminense da serra, entre a Bacia de Santos e o Planalto Atlântico. · Limitações: Os próprios autores escrevem 'sugerimos' e 'supomos'; apontam como limite o pequeno volume de levantamentos de detalhe e a datação ainda incerta das superfícies de erosão. · Hipótese de 1998, baseada em geologia de campo, estratigrafia e geomorfologia; não é medição direta do recuo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Sedimentos grossos do Cretáceo Superior da Bacia de Santos indicam, segundo a estratigrafia obtida pela Petrobras, que existiu um relevo destacado perto da borda da bacia, uma proto-Serra do Mar. [1] Introdução
Contexto: Bacia de Santos; a estratigrafia é de Pereira e colaboradores (1986, 1994), citada por Almeida e Carneiro. · Limitações: Fonte de segunda mão para a estratigrafia; o nome 'proto-Serra do Mar' é dos autores. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Em debate: Há leitura diferente da de Almeida e Carneiro: sobretudo geógrafos, mas também muitos geólogos, atribuem a serra a movimentos tectônicos verticais do Cenozoico no próprio local, um grande front de falhas dissecado. [1] Conclusões
Contexto: Debate descrito em 1998; o segundo trecho é a posição dos autores contra essa leitura. · Limitações: A descrição do debate vem de um dos lados; a literatura posterior de termocronologia, que testa o assunto, não foi lida. · Divergência publicada em 1998; não se sabe a partir desta fonte como ela se encontra hoje. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Segundo uma revisão de 2022, as idades de resfriamento obtidas por termocronologia de baixa temperatura na costa sudeste do Brasil são compatíveis com as idades dos eventos de deformação do Rift Continental do Sudeste. [4] Regional tectonic structure
Contexto: Termocronologia mede quando as rochas esfriaram ao se aproximar da superfície; a revisão cita Franco-Magalhães e outros (2010), entre vários trabalhos. · Limitações: Fonte de segunda mão: os estudos de termocronologia não foram lidos. Não dá idades nem taxas de exumação da Serra do Mar. · Afirmação geral de uma revisão sobre outro tema (falhas do Escudo Catarinense). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Em Santa Catarina, taxas de denudação por 10Be cosmogênico (De Sordi e colaboradores, 2018, citados em revisão de 2022) são de 3,1 e 6,5 m/Ma nos planaltos e 46,8 m/Ma na escarpa da Serra Geral, oito vezes maior. [4] Regional tectonic structure
Contexto: Escarpa da Serra Geral e planaltos de Caçador e Araucárias, no sul do Brasil; não é o trecho paulista da Serra do Mar. · Limitações: Fonte de segunda mão. A revisão diz que os autores concluem que a escarpa recua para oeste bem mais devagar do que previam modelos evolutivos. Taxas atuais não provam o ritmo de dezenas de milhões de anos. · Valores com incerteza de medição (± 0,2 a 3,6 m/Ma); vêm de um trecho do sul, usado aqui como contraponto. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Estimativas de pressão de cristalização das intrusões alcalinas da região indicam taxas de exumação (erosão) posteriores de 20 a 60 m/Ma. [2] Discussion
Contexto: Região das intrusões alcalinas da Província Serra do Mar; o artigo cita Giraldo-Arroyave (2020). · Limitações: Fonte de segunda mão para a estimativa; vale como média regional pós-intrusão, não para a escarpa em si. Por cálculo nosso, 20 a 60 m/Ma equivalem a 0,02 a 0,06 mm por ano. · Estimativa derivada de pressões de cristalização, com incerteza não informada no trecho lido. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Revista Brasileira de Geociências (Sociedade Brasileira de Geologia) — Origem e evolução da Serra do Mar
Almeida, F. F. M. de; Carneiro, C. D. R. · 1998 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.25249/0375-7536.1998135150 - Brazilian Journal of Geology (Sociedade Brasileira de Geologia) — New high-precision 40Ar/39Ar ages for the Serra do Mar alkaline magmatism in the São Sebastião Island, SE Brazil, and implications
Giraldo-Arroyave, M. I.; Vlach, S. R. F.; Vasconcelos, P. M. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1590/2317-4889202120210046 - Brazilian Journal of Geology (Sociedade Brasileira de Geologia) — Physical modelling of superimposed tectonic events in the Volta Redonda Basin, Southeastern Brazil
Ribeiro, A. K.; Santos, M. A. C.; Silva, A. T.; Lourenço, F. S.; Negrão, S. C. B. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1590/2317-4889202020190129 - Anais da Academia Brasileira de Ciências — Mesozoic/cenozoic strike-slip tectonics in the catarinense shield and its correlation with structures associated with the continental rift in southeastern Brazil
Machado, R.; Jacques, P. D.; Nummer, A. R. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1590/0001-3765202220211033
Histórico de alterações
- Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 9; conferência de trechos automatizada)