Zoologia

Sépias esperam por alimento melhor: o que um teste do tipo marshmallow mostrou em seis Sepia officinalis

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Inteligência animal

Num teste de adiamento da recompensa, parente do marshmallow, seis sépias (Sepia officinalis) podiam comer na hora um pedaço de camarão menos preferido ou esperar por um camarão vivo, o preferido. Cada animal sustentou a espera por um máximo de 50 a 130 s, e os que esperaram mais aprenderam mais depressa uma tarefa de discriminação e reversão. A amostra tem só seis indivíduos.

Autocontrole, nos estudos de comportamento animal, é a capacidade de abrir mão de uma recompensa imediata por outra melhor e adiada. No teste clássico do marshmallow, aplicado a crianças, escolhe-se entre uma recompensa menor agora e outra maior depois. Schnell et al. (2021, Cambridge e Woods Hole) usaram uma versão em que o animal pode desistir a qualquer momento, o que mede a escolha e também a manutenção da espera. A sépia-comum é um molusco cefalópode, parente de polvos e lulas, de vida curta (em geral menos de 2 anos) e metabolismo rápido, bem diferente dos vertebrados de cérebro grande já testados.

Um controle em que a espera não compensa

Numa das condições, o camarão preferido ficava visível atrás de uma película de acrílico transparente e nunca podia ser alcançado. Nela, as sépias desistiam logo e comiam o alimento menos preferido: esperar só aparecia quando a espera podia valer a pena.

O desenho: duas câmaras, um símbolo para cada atraso

As sépias passaram por quatro etapas: aprender que cada símbolo (de forma distinta) indica um tipo de acesso, treinar a escolha única, subir atrasos de 2 em 2 s até 20 s, e só então o teste, com atrasos de 10 em 10 s a partir de 10 s. Em todas as tentativas, o alimento menos preferido ficava à vista e a espera podia ser interrompida. Cada dia trazia uma sessão de seis tentativas, em blocos de três de cada condição, para limitar a saciedade.

Como sabemos: o que o controle mostra

A condição de controle, com a presa preferida visível mas inacessível, mostra que as sépias não esperavam por hábito: quando a espera não levava a nada, desistiam. A comparação entre as duas condições, com tempo de consumo e proporção de tentativas em que a espera foi mantida, sustenta que o atraso mudou o comportamento de forma ligada à recompensa. O limite é o tamanho da amostra: seis animais, cada um com seu máximo, e uma análise feita no desenho de medidas repetidas.

O elo com a aprendizagem é uma correlação

O tempo médio de espera de cada animal se correlacionou com o número de tentativas para aprender a discriminar o brilho e, depois, a reverter a associação. Os autores calcularam fatores de Bayes (3,27 e 8,83), que descrevem como evidência moderada. Mas ambas as tarefas se apoiam em aprendizagem associativa e o estudo não tem como testar se uma capacidade causa a outra. Quem espera mais pode simplesmente aprender melhor associações de qualquer tipo.

O que o marshmallow humano ensina e o que não transfere

O teste do marshmallow vem de pesquisas com crianças, e a ligação entre paciência na infância e resultados na vida adulta foi reavaliada: uma replicação maior encontrou correlações mais fracas, que somem após controle por fatores sociais e demográficos. Para animais, o ponto útil é o método, uma tarefa em que se pode medir quanto tempo se espera. A comparação entre espécies e com humanos exige cuidado, e o estudo de sépias não permite falar em planejamento do futuro.

Como sabemos

O resultado é bem descrito em um único estudo de seis animais; a ligação com aprendizagem é correlação, e as explicações evolutivas são hipóteses.

Em debate: Os autores concluem que a espera reflete autocontrole, mas admitem que ambas as tarefas envolvem aprendizagem associativa e que o desenho pode ter ajudado; com seis animais o estudo não separa as explicações.

Fontes

  1. Proceedings of the Royal Society B (Universidade de Cambridge; Marine Biological Laboratory) — Cuttlefish exert self-control in a delay of gratification task
    Schnell, A. K.; Boeckle, M.; Rivera, M.; Clayton, N. S.; Hanlon, R. T. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1098/rspb.2020.3161
  2. Philosophical Transactions of the Royal Society B (Universidade de Cambridge) — Waiting for a better possibility: delay of gratification in corvids and its relationship to other cognitive capacities
    Schnell, A. K.; Boeckle, M.; Clayton, N. S. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1098/rstb.2021.0348
  3. Frontiers in Psychology — Commentary: Revisiting the Marshmallow Test: A Conceptual Replication Investigating Links Between Early Delay of Gratification and Later Outcomes
    Barragan-Jason, G.; Atance, C. M.; Hopfensitz, A.; Stieglitz, J.; Cauchoix, M. · 2018 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3389/fpsyg.2018.02719
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 12; conferência de trechos automatizada)

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