Fenômenos naturais
Seca de 2023 na Amazônia: El Niño, Atlântico Norte quente e aquecimento global, e o que cada análise mede
Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026
A seca de 2023 na Amazônia teve mais de uma causa. A leitura climática aponta a passagem da La Niña para o El Niño e águas quentes no Atlântico Norte tropical; a análise de atribuição do World Weather Attribution estima que o El Niño reduziu a chuva em quantidade parecida com a do aquecimento global, mas que a tendência de secagem veio quase toda da temperatura. Em Manaus, o rio Negro chegou a 12,70 m em 26/10/2023, a menor cota desde 1902 até então.
A chuva na Amazônia responde ao Pacífico equatorial e ao Atlântico tropical. No El Niño, a circulação de Walker (leste–oeste, no equador) faz o ar descer sobre o norte da floresta e a chuva diminui; águas mais quentes no Atlântico Norte tropical também alteram a circulação de Hadley (norte–sul) e o ar desce sobre a bacia. Para medir seca, usam-se índices: o SPI compara só a chuva com o histórico; o SPEI soma a evaporação potencial, que sobe com o calor. Por isso dois estudos podem responder a perguntas diferentes: um descreve o que aconteceu na atmosfera, outro estima quanto cada fator pesa na probabilidade do evento.
Um recorde que durou um ano
A cota de 12,70 m em Manaus, a menor desde o início das medições diárias, em setembro de 1902, foi superada em outubro de 2024, segundo um estudo de 2025. A de 2023 passou a ser a segunda menor da série.
Duas secas em uma: sudoeste em La Niña, norte em El Niño
No verão de 2022–23, o sudoeste da Amazônia teve a chuva mais baixa da série (−41 mm/mês), com ar seco vindo do sul numa La Niña madura. De junho a setembro de 2023, o déficit passou para o norte (−25 mm/mês), com El Niño, e o ar descendente da circulação de Walker bateu recorde. Em agosto, setembro e outubro, a temperatura do ar na bacia teve as maiores anomalias desde 1980.
O Atlântico Norte quente: medido, mas pouco quantificado
Entre setembro e novembro de 2023, partes do Atlântico Norte tropical ficaram mais de 1 °C acima do normal, junto com o El Niño, e a circulação de Hadley indicou ar descendente sobre a Amazônia. O relatório do World Weather Attribution trata esse fator só em texto, como deslocamento da faixa de chuvas (ZCIT) para o norte, e não calcula quanto ele pesou. A pergunta sobre a parcela do Atlântico segue sem número neste material.
Atribuição: o aquecimento pesa mais no balanço de água
Pela chuva (SPI), o El Niño e o aquecimento global reduziram a precipitação em quantidade parecida. Pelo balanço com a evaporação (SPEI), o calor pesa muito mais, porque eleva a evaporação potencial, e o aquecimento global é apontado como principal fator da gravidade. O método de razão de probabilidade está no artigo sobre atribuição de eventos extremos; aqui ele indica 10 vezes mais provável pela chuva e cerca de 30 pelo balanço de água.
Como sabemos, e o que fica sem explicação
O nível do rio vem de réguas medidas diariamente desde 1902; chuva e temperatura vêm de bases que combinam pluviômetros, satélites e reanálises. O WWA ajusta um modelo estatístico com a temperatura global e o índice do El Niño, descarta uma base (ERA5) que exagerava a seca e informa que boa parte da intensidade de 2023 não é explicada por nenhum dos dois fatores. As razões de probabilidade têm intervalos de confiança muito largos.
Como sabemos
Registros e mecanismos descritos estão bem documentados; o peso relativo de El Niño, Atlântico e aquecimento global vem de modelos estatísticos com incerteza grande e sem quantificar o Atlântico.
- Fato estabelecido: Em 26 de outubro de 2023 o rio Negro chegou a 12,70 m no Porto de Manaus, a menor cota desde 1902, abaixo de 13,63 m (2010), 13,64 m (1963), 14,37 m (1997) e 14,75 m (2005); o recorde foi superado em outubro de 2024. [2] Introduction [4] Introduction
Contexto: Porto de Manaus, rio Negro; medições diárias desde setembro de 1902. Os dados citados por Espinoza et al. vêm do Serviço Geológico do Brasil (SGB/CPRM) e da ANA (Hidroweb). · Limitações: Outra fonte (Pampuch et al. 2025) dá a mínima de 12,7 m em novembro, não em 26 de outubro; adotamos a data de Espinoza et al., que cita o SGB. O valor de 2024 não foi lido em fonte institucional acessível e por isso não é citado aqui. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A seca começou durante a La Niña de 2022–23 e continuou com o El Niño do inverno e da primavera austrais de 2023, ao contrário das secas extremas anteriores, que coincidiram com El Niño. [2] Introduction
Contexto: Bacia amazônica, de dezembro de 2022 a 2023. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: No sudoeste da Amazônia, o déficit de chuva de novembro de 2022 a fevereiro de 2023 chegou a −41 mm/mês, recorde só superado no El Niño de 1998 (−42 mm/mês), durante a fase madura da La Niña. [2] Conclusions
Contexto: Média regional em 8° S–15° S e 60° W–75° W, anomalia em relação a 1982–2020. · Limitações: Série de 1982 a 2023; um recorde nesse período não equivale a recorde de uma série mais longa. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: No norte da Amazônia, a anomalia de chuva de junho a setembro de 2023 foi de −25 mm/mês, só superada por 1997 (−34 mm/mês), e o Pacífico equatorial chegou a +2,3 °C na região Niño 3.4 em novembro. [2] Results, Regional rainfall patterns
Contexto: Norte da Amazônia, 8° S–2,5° N e 50° W–75° W; Niño 3.4 é a faixa do Pacífico equatorial usada para medir o El Niño. · Limitações: Série de 1982 a 2023. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Agosto, setembro e outubro de 2023 tiveram as maiores anomalias de temperatura do ar na bacia desde 1980: +1,8, +2,2 e +2,7 °C. [2] Results, Record-breaking warming
Contexto: Média da bacia amazônica, série de 1980 a 2023, em relação à climatologia do estudo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: No norte da Amazônia, o movimento descendente do ar em junho–agosto de 2023, típico de El Niño pela circulação de Walker, atingiu um recorde da série. [2] Results, Main features
Contexto: Ar descendente inibe a formação de nuvens de chuva; série de 1980 a 2023 sobre o norte da Amazônia. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Espinoza e colegas concluem que a transição da La Niña (chuva baixa no sudoeste) para o El Niño (chuva baixa no norte) foi o principal condicionante climático da seca e do calor de 2023. [2] Conclusions
Contexto: Análise descritiva de circulação e temperatura da superfície do mar; não é um estudo de atribuição. · Limitações: Os próprios autores ressalvam que o recorde não é totalmente explicado pela variabilidade do oceano (afirmação a8). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Segundo os autores, o fato de os dois mecanismos terem batido recordes em 2023 não é totalmente explicado pela variabilidade da temperatura do mar, e o papel do aquecimento global e do desmatamento pede análise de atribuição. [2] Conclusions
Contexto: Posição dos autores de Espinoza et al. (2024). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: A seca da primavera de 2023 combinou o El Niño (anomalias de temperatura do mar acima de 2 °C em partes do Pacífico equatorial) e águas do Atlântico Norte tropical mais de 1 °C acima do normal em partes da bacia; secas amazônicas anteriores também ocorreram quando as duas condições se somaram. [3] Drought in the Amazon region
Contexto: Setembro a novembro de 2023, anomalias em relação a 1991–2020 (reanálise ERA5). · Limitações: Análise de circulação e temperatura do mar, sem cálculo da parcela de cada fator. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: O WWA classifica a seca de 2023 como evento de 1 em 100 anos pela chuva (SPI) e de cerca de 1 em 50 anos pelo balanço entre chuva e evaporação (SPEI); o SPI considera só a chuva, o SPEI soma a evapotranspiração. [1] Introduction
Contexto: Bacia amazônica inteira, acumulado de seis meses (junho a novembro de 2023), conjuntos de dados MSWEP/MSWX. · Limitações: Períodos de retorno estimados de séries curtas, com intervalos de confiança largos no estudo completo. · Estimativa estatística do WWA; períodos de retorno dependem do conjunto de dados. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Estimativa: Segundo o WWA, o aquecimento global tornou a seca meteorológica cerca de 10 vezes mais provável e a seca agrícola cerca de 30 vezes mais provável. [1] Main findings [5] Section 3.1.3
Contexto: Comparação entre o clima de 2023 e um clima 1,2 °C mais frio (média global); bacia amazônica inteira. · Limitações: Os intervalos de confiança das razões de probabilidade são muito largos no estudo completo; o fator 30 vale para o índice que inclui a evaporação. · Razão de probabilidade com incerteza grande, publicada como análise rápida; não é uma medição direta. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: O WWA estima que o El Niño reduziu a chuva em quantidade parecida com a do aquecimento global, mas a forte tendência de secagem veio quase toda da temperatura global; por isso a gravidade da seca é atribuída principalmente à mudança do clima. [1] Main findings
Contexto: Bacia amazônica, junho a novembro de 2023; índice Niño 3.4 sem a tendência de aquecimento. · Limitações: Conclusão do relatório do WWA; o Atlântico Norte não entra no cálculo (afirmação a15). · Resultado de um modelo estatístico linear com duas variáveis (temperatura global e índice Niño 3.4). · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Interpretação: No estudo completo do WWA, o El Niño atua sobretudo reduzindo a chuva, com pouco efeito na evaporação potencial; o aquecimento global reduz a chuva e também eleva fortemente a temperatura e a evaporação, o que pesa mais no balanço hídrico (SPEI). [5] Section 3.3
Contexto: Bacia amazônica, junho a novembro de 2023; PET é a evapotranspiração potencial, GMST a temperatura média global. · Limitações: Explicação dos autores para a diferença entre SPI e SPEI, em modelo estatístico, não em simulação física da atmosfera. · Interpretação dos autores sobre o resultado do modelo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: No estudo completo do WWA, boa parte da intensidade da seca de 2023 permanece sem explicação nem pelo El Niño nem pelo aquecimento global, e o conjunto de dados ERA5, que mostrava a seca ainda mais extrema, ficou fora da síntese final. [5] Section 2.1
Contexto: Seca de seis meses, junho a novembro de 2023, no índice SPI. · Limitações: Para o SPEI os autores falam em variabilidade natural e processos não modelados. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O relatório do WWA quantifica só o papel do aquecimento global (e testa o El Niño); o Atlântico Norte quente aparece apenas em discussão qualitativa, como fator que desloca para o norte a faixa de chuvas (ZCIT) e afasta as nuvens da Amazônia. [5] Section 1
Contexto: Texto do relatório; a afirmação sobre a ZCIT é a que o relatório faz, citando outro estudo. · Limitações: Não há no WWA uma estimativa de quanto o Atlântico contribuiu. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- World Weather Attribution (Imperial College London, KNMI, Red Cross Red Crescent Climate Centre) — Climate change, not El Niño, main driver of exceptional drought in highly vulnerable Amazon River Basin
World Weather Attribution · 2024-01-24 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 - Scientific Reports — The new record of drought and warmth in the Amazon in 2023 related to regional and global climatic features
Espinoza, J. C.; Jimenez, J. C.; Marengo, J. A.; Schongart, J.; Ronchail, J.; Lavado-Casimiro, W.; Ribeiro, J. V. M. · 2024-04-06 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/s41598-024-58782-5 - Annals of the New York Academy of Sciences — Brazil climate highlights 2023
Pampuch, L. A.; Bueno, P. G.; Reboita, M. S. et al. · 2025-06-15 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1111/nyas.15394 - Scientific Reports — Unprecedented social-ecological impacts of the 2023 extreme drought in the central Amazon
Fleischmann, A. et al. · 2025-11-21 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/s41598-025-25125-x - Imperial College London (repositório SPIRAL) — Climate change, not El Niño, main driver of exceptional drought in highly vulnerable Amazon River Basin (estudo completo, 43 páginas)
Clarke, B.; Barnes, C.; Rodrigues, R. et al. · 2024-01-24 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 19; conferência de trechos automatizada)