Evolução

Sapo-cururu na Austrália: a frente da invasão acelerou e passou a reunir sapos de pernas mais longas

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Desde que o sapo-cururu (Rhinella marina) foi solto em Queensland, em 1935, a frente de invasão no norte da Austrália passou a avançar cerca de cinco vezes mais depressa. Os sapos da vanguarda têm pernas mais longas que os de populações antigas e se deslocam mais por dia. A explicação mais discutida é a seleção espacial, mas ela ainda é interpretação: as medidas não a separam da seleção natural.

O sapo-cururu é nativo das Américas Central e do Sul. Cerca de 100 indivíduos foram levados do Havaí ao nordeste de Queensland em 1935, para combater pragas da cana-de-açúcar; não controlaram as pragas, mas se espalharam. A dispersão é o movimento dos indivíduos para longe do local de nascimento, e o que se mede aqui é o ritmo desse movimento e o comprimento das pernas em relação ao corpo (distância focinho-cloaca). A frente de invasão é a faixa onde a população chega a áreas ainda não ocupadas. Como a invasão tem data conhecida e é recente, dá para comparar sapos de populações com idades de colonização diferentes.

De menos de 10 m a mais de 200 m por dia

Em rastreamento por rádio, a média diária de deslocamento foi menor que 10 m em alguns locais da área nativa e do Havaí e passou de 200 m na frente de invasão do norte tropical da Austrália.

Seleção espacial: ganhar a corrida não é o mesmo que deixar mais descendentes

Na seleção natural, o gene se espalha porque quem o porta sobrevive e se reproduz mais. Na seleção espacial, genes de dispersão rápida se acumulam na borda da população porque os portadores chegam primeiro e só encontram parceiros entre si, mesmo que isso não aumente a sobrevivência. Shine e colegas (2011) descrevem o processo, mas lembram que a ideia não é original deles. O efeito exige variação hereditária na dispersão, e a herdabilidade medida nas pernas é baixa (a9).

Como sabemos: pernas medidas, sapos rastreados e filhotes criados juntos

Três tipos de evidência se somam. Medir os membros de milhares de sapos de idades de colonização diferentes mostra o padrão geográfico (a8). Rastrear sapos com rádio mostra quem se desloca mais (a5). Criar filhotes de pais da frente e de populações antigas no mesmo ambiente mostra que a diferença persiste sem o efeito do local de desenvolvimento (a9). O limite: nada disso separa seleção espacial de seleção natural, e a herdabilidade é baixa.

Pernas longas são só parte da história

Nas medidas de 2016 a relação com a idade da população tem forma de U: os membros relativos foram menores em populações com 11 a 20 anos de colonização que na área antiga ou na vanguarda (a8). Além disso, a diferença de membros entre machos e fêmeas encolheu nas áreas invadidas há pouco (a12). A dispersão rápida pode ter custo: lesões na coluna e mortalidade maior em sapos muito dispersivos (a11). Por isso a frase 'a invasão selecionou pernas mais longas' resume bem a frente, mas não toda a invasão.

Como sabemos

Aceleração, deslocamento diário e padrão das pernas estão bem medidos; a causa evolutiva (seleção espacial) é interpretação, e o resumo de 2006 foi lido sem o texto completo.

Em debate: Os autores das medidas de pernas dizem que não conseguem distinguir o efeito da seleção espacial do da seleção natural, e que provar seleção exigiria comparar caracteres quantitativos com marcadores neutros (análise Qst–Fst).

Fontes

  1. Nature 439: 803 — Invasion and the evolution of speed in toads
    Phillips, B. L.; Brown, G. P.; Webb, J. K.; Shine, R. · 2006 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/439803a
  2. Royal Society Open Science 3: 160687 — It is lonely at the front: contrasting evolutionary trajectories in male and female invaders
    Hudson, C. M.; Brown, G. P.; Shine, R. · 2016 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rsos.160687
  3. Proceedings of the National Academy of Sciences 108: 5708-5711 — An evolutionary process that assembles phenotypes through space rather than through time
    Shine, R.; Brown, G. P.; Phillips, B. L. · 2011 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1073/pnas.1018989108
  4. Scientific Reports 11: 23574 — Increased rates of dispersal of free-ranging cane toads (Rhinella marina) during their global invasion
    Shine, R.; Alford, R. A.; Blennerhasset, R.; Brown, G. P.; DeVore, J. L. et al. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41598-021-02828-5
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 5; conferência de trechos automatizada)

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