Ciências da Terra
São Pedro e São Paulo: rocha do manto empurrada por uma falha transformante, subindo cerca de 1,5 mm por ano
Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026
Assuntos: Tectônica de placas
O arquipélago de São Pedro e São Paulo não é vulcânico: é feito de peridotito, rocha do manto que normalmente fica sob a crosta oceânica. Ela chegou ao nível do mar porque a falha transformante de São Paulo tem curvas e degraus que comprimem o bloco em vez de só deslizar de lado, o que, segundo estudos, o empurra para cima há cerca de 10 milhões de anos. O soerguimento atual é estimado em cerca de 1,5 mm por ano.
O fundo do oceano é feito de crosta basáltica, formada nas dorsais, onde as placas se afastam; abaixo dela fica o manto, de rochas peridotíticas. Num lugar do Atlântico, a cerca de 100 km ao norte do equador e a 1.010 km da costa do Rio Grande do Norte, o manto aparece acima do mar: são 6 ilhotas e 4 rochedos, com cerca de 13 mil m² e no máximo 18 m de altura. Eles estão na zona de fratura de São Paulo, um conjunto de falhas transformantes, em que duas placas deslizam de lado (a Sul-Americana e a Africana), e que desloca a dorsal Meso-Atlântica em centenas de quilômetros. Aqui a pergunta é o que acontece quando uma falha dessas não é reta: a lateralidade vira compressão e levanta rocha profunda.
Darwin e as rochas que não eram de vulcão
Segundo o SIGEP, Charles Darwin foi o primeiro a defender que as rochas do arquipélago não eram vulcânicas. Em 1839, outro visitante, M'Cornick, disse o contrário; a tese do vulcão, informa o SIGEP, não se confirmou.
Transpressão: quando o deslizamento lateral vira empurrão
Numa transformante reta, as placas só deslizam de lado. Quando o trecho da falha não é paralelo ao movimento, o deslizamento gera compressão perpendicular, e a rocha é espremida para cima numa cadeia linear. No sistema de São Paulo, um segmento da dorsal ao norte avançou para o sul, a falha se partiu em degraus e a rocha ficou comprimida entre eles. Maia et al. (2016) datam o início disso em cerca de 10 milhões de anos, depois de uma mudança no movimento das placas, há cerca de 11 milhões de anos.
Por que a rocha é de manto e não de lava
Peridotito é a rocha do manto, escura e densa; lava de vulcão oceânico é basalto. Aqui a rocha foi também deformada em zona de cisalhamento, o que a torna um milonito, e reagiu com fluidos hidrotermais e água do mar, o que a torna serpentinizada. O SIGEP registra serpentinização por fluidos hidrotermais ou água do mar durante movimentos tardios que fraturaram a rocha, e o artigo de 2015 diz que as rochas da cadeia sob o arquipélago têm pouca serpentinização e muita deformação plástica.
Como sabemos que ainda sobe
Os autores de 2009 usaram plataformas de abrasão marinha, patamares de rocha aplainados pelas ondas, em dois níveis, de 4 a 5 m e de 7 a 9 m, os mesmos nas três ilhas maiores, o que indica soerguimento uniforme, sem inclinação. Também datam por carbono-14 fósseis de coral da ilha Belmonte: os mais velhos estão mais altos. Daí vem a taxa de cerca de 1,5 mm por ano. Para o mapa dos patamares usaram o seppômen, método japonês que simplifica o relevo, e para o fundo do mar usaram a batimetria predita por satélite. Os sismos de empurrão dão a evidência independente de compressão.
O que ainda é incerto
A taxa de 1,5 mm por ano é uma média de seis mil anos, não uma medida em tempo real; se as plataformas fossem de outras épocas, ela cairia a 0,03 a 0,04 mm por ano, e o SIGEP fala em soerguimento episódico. O total soerguido varia de 1.500 a 9.000 m conforme o modelo, e o papel do manto frio e da anomalia de Serra Leoa é hipótese. Cálculo nosso: 1,5 mm por ano mantidos por 10 milhões de anos dariam 15 km, mais que o relevo de 3.500 a 3.800 m, então o ritmo variou.
Como sabemos
O mecanismo (transpressão) e as medidas vêm de artigos lidos por inteiro, mas a taxa de 1,5 mm por ano é uma média de milhares de anos de 2009 e a cronologia varia entre estudos.
Em debate: As fontes lidas divergem sobre a constância do soerguimento (2 paleoníveis em 2009; 4 no SIGEP de 2005, com soerguimento episódico) e sobre o total (1.500 a 3.000 m ou cerca de 9.000 m em 2009) e o início (de 1 a 6 milhões de anos em 2009; cerca de 10 milhões de anos em 2016).
- Consenso científico: As rochas do arquipélago são peridotitos serpentinizados e milonitizados do manto, e não lavas de um vulcão. [2] 1. Introdução [5] Seção 2, contexto geológico [4] Resumo
Contexto: Parte emersa do arquipélago de São Pedro e São Paulo (6 ilhotas e 4 rochedos). · Limitações: O SIGEP (2005) chama as rochas de plutônicas e o artigo de 2009 diz que não são magmáticas; a nomenclatura varia entre as fontes. Há ainda um milonito kaersutítico de origem incerta. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O arquipélago fica a cerca de 1.010 km da costa brasileira e a cerca de 1.824 km da costa africana; a área emersa é de cerca de 13 mil m² e a altitude máxima, de 18 m. [4] Resumo [2] 1. Introdução
Contexto: Posição aproximada 0°55' N, 29°20' W, no Atlântico equatorial. · Limitações: Medidas de 2005 e 2009; a área emersa pode mudar com o soerguimento e a erosão. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O arquipélago está na zona de falha transformante de São Paulo, de direção leste-oeste, com 630 km de comprimento total e movimento transcorrente dextral; o sistema tem quatro falhas transformantes (A a D), e a falha A, que passa pelo arquipélago, desloca o eixo da dorsal Meso-Atlântica em 303 km. [2] 1. Introdução [5] Seção 2, contexto geológico
Contexto: Equador do Atlântico, entre as placas Sul-Americana e Africana (Núbia). · Limitações: Os 630 km são o comprimento total da zona citado por um artigo de 2009; a soma dos quatro deslocamentos do artigo de 2025 dá 586 km (cálculo nosso), e as fontes não explicam a diferença, que deve vir do modo de medir. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Nas falhas do sistema de São Paulo, as placas deslizam uma contra a outra a cerca de 27,7 mm por ano, ou cerca de 3 cm por ano. [5] Seção 2, contexto geológico [2] 1. Introdução
Contexto: Taxa de movimento relativo entre as placas, que o artigo de 2025 toma de um modelo global de movimentos de placas. · Limitações: É velocidade modelada de movimento lateral, não medida direta nas falhas. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: Quando um trecho de uma falha transcorrente não é paralelo ao movimento relativo dos blocos, o deslizamento lateral gera compressão perpendicular à falha, que levanta uma cadeia linear, a cadeia de transpressão; se o desvio é no sentido oposto, gera-se distensão e uma bacia. [3] 4 Exumação do Manto por Transpressão
Contexto: Falhas transcorrentes em geral; o exemplo do texto é uma falha dextral de direção leste-oeste. · Limitações: O artigo cita exemplos de falhas ativas em continentes, que não entram aqui. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Segundo Maia et al. (2016), dados de batimetria de alta resolução, sísmica e gravimetria mostram que a transformante norte do sistema de São Paulo é controlada por deformação compressiva há cerca de 10 milhões de anos; o soerguimento que formou o arquipélago veio dessa transpressão. Um artigo de 2025 chama a cadeia de Atobá, que chega ao nível do mar no arquipélago, de maior exemplo conhecido de cadeia de empurrão (push-up) na litosfera oceânica e único caso estudado até agora. [1] Resumo [5] Seção 2, contexto geológico
Contexto: Transformante norte (falha A) do sistema de São Paulo. · Limitações: É um modelo apoiado em dados geofísicos e em amostras dragadas; o superlativo é do artigo de 2025 e vale como 'conhecido até agora'. Estudos anteriores propunham outras origens (crista flexural distensiva, manto frio). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Antes da compressão houve extensão: uma mudança anti-horária no movimento das placas, há cerca de 11 milhões de anos, favoreceu extensão no trecho esquerdo-escalonado da falha e a formação de uma crista transversal, que depois foi soerguida por transpressão. [1] Resumo
Contexto: Cenário evolutivo do artigo de 2016 para a transformante norte do sistema de São Paulo. · Limitações: É uma reconstrução (modelo cinemático), não uma observação direta; a datação do início da compressão difere entre estudos (ver a10). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Perto das ilhas, a maioria dos terremotos tem mecanismo transcorrente dextral, o esperado numa transformante, mas alguns têm mecanismo de falha de empurrão, indicando compressão local. [5] Seção 2.2, sismotectônica [3] 5 Evidências da Compressão Tectônica
Contexto: Soluções de mecanismo focal do catálogo GCMT e dados de 1971 a 1988. · Limitações: Poucos eventos compressivos; as localizações dos epicentros do catálogo GCMT têm incerteza que pode chegar a cerca de 70 km (artigo de 2025). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: A taxa atual de soerguimento do arquipélago é estimada em cerca de 1,5 mm por ano, por duas linhas de evidência: as plataformas de abrasão marinha (1,2 a 1,5 mm por ano nos últimos 6 mil anos) e a datação por carbono-14 de fósseis de coral da ilha Belmonte (1,5 a 1,8 mm por ano nos últimos 6.600 anos). [2] 8. Estimativas das taxas de soerguimento tectônico
Contexto: Ilhas Belmonte, Sudeste e Nordeste; média dos últimos 6 mil anos, não medida instantânea. · Limitações: Depende de ligar a plataforma superior à Transgressão Flandriana e a inferior a erosão recente; com outra correlação a taxa cai (ver a10). Nenhuma fonte lida mede o soerguimento atual por GPS. · Estimativa geomorfológica e radiométrica de 2009, sobre milhares de anos; a mesma fonte chama o valor de 'razoável', não de medido. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Em debate: O ritmo do soerguimento não deve ser tratado como constante: se as duas plataformas datassem das transgressões de 6 mil e de 125 mil anos, a taxa seria de 0,03 a 0,04 mm por ano, valor que os autores de 2009 julgam baixo demais, e o SIGEP conclui que o soerguimento foi episódico, não constante. [2] 9. Conclusões [4] Resumo
Contexto: Duas leituras publicadas das plataformas e terraços marinhos do arquipélago (2005 e 2009). · Limitações: SIGEP (2005) descreve quatro paleoníveis marinhos; o artigo de 2009 usa dois. Cálculo nosso: 1,5 mm/ano mantidos por 10 milhões de anos somariam 15 km (1 mm/ano = 1 km por milhão de anos), muito mais que os 3.500 a 3.800 m de relevo medidos, o que também indica ritmo variável. · Há divergência publicada entre as fontes sobre o número de paleoníveis e a constância do soerguimento. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: O soerguimento total depende do modelo: de 1.500 a 3.000 m, com início há 1 a 2 milhões de anos, se a cadeia peridotítica for um megamullion deformado, ou cerca de 9.000 m, com início há cerca de 6 milhões de anos, se a rocha vier do manto oceânico subcrustal. [2] Resumo
Contexto: Cenários de 2009 para a Cadeia Peridotítica de São Pedro e São Paulo (90 km de comprimento, 25 km de largura, 3.800 m de altura no artigo de 2009). · Limitações: As dimensões da cadeia variam entre estudos (90 km por 25 km por 3.800 m em 2009; 200 km por 30 km no artigo de 2025 para a cadeia de Atobá), conforme onde se traça o limite. O início da transpressão em cerca de 10 milhões de anos (a6) difere dos cenários de 1 a 6 milhões de anos de 2009. · Dois cenários alternativos numa única fonte de 2009; o artigo de 2016 propõe uma cronologia mais longa. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: O manto do Atlântico equatorial é considerado mais frio que o padrão: modelos térmicos com manto a 1.150 °C, em vez de 1.300 °C, ajustam melhor a profundidade dos terremotos do sistema de São Paulo. [5] Seção 6, profundidade focal
Contexto: Transformantes A, B e C do sistema de São Paulo. · Limitações: É um ajuste de modelo à profundidade dos sismos, não medida direta da temperatura do manto; a ligação do manto frio com a exposição do manto é discutida em estudos anteriores. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: Maia et al. (2016) atribuem a resposta vigorosa do segmento da dorsal ao norte do sistema de São Paulo a um maior suprimento de magma, ligado à anomalia termoquímica de Serra Leoa; é uma hipótese, e o próprio artigo a trata no texto como causa plausível. [1] Resumo
Contexto: Segmento norte da dorsal Meso-Atlântica junto ao sistema de São Paulo. · Limitações: No resumo o texto é assertivo; no corpo do artigo os autores escrevem 'A plausible cause', por isso o post trata como hipótese. Não foi encontrado teste independente. · Hipótese de um estudo; o corpo do artigo usa 'causa plausível' e 'pode ter'. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Incerto: Em 2005, o SIGEP descrevia como incertas a origem e a idade do arquipélago: poderia ser relíquia de manto litosférico subcontinental ou protrusão de manto oceânico soerguido pela fratura transformante de São Paulo, com formação estimada entre 100 e 35 milhões de anos. [4] Resumo
Contexto: Estado do conhecimento até 2005; o modelo de soerguimento por transpressão (a6) é posterior. · Limitações: A faixa de 100 a 35 milhões de anos refere-se à formação das rochas e não ao soerguimento atual; não foi lida uma fonte posterior que fixe a idade das rochas. · Questão apresentada como aberta em 2005; estudos posteriores favorecem o soerguimento de manto oceânico, mas a idade das rochas segue incerta nas fontes lidas. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Segundo o SIGEP, Charles Darwin, em visita do Beagle ao arquipélago, foi o primeiro a defender que as rochas não eram de origem vulcânica; em 1839 outro visitante, M'Cornick, afirmou o contrário, o que não se confirmou. [4] Aspectos históricos
Contexto: História das pesquisas no arquipélago, século XIX. · Limitações: O SIGEP data a visita de Darwin em 1831; o post não cita ano. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Nature Geoscience (versão do autor no repositório Archimer, Ifremer) — Extreme mantle uplift and exhumation along a transpressive transform fault
Maia, M.; Sichel, S.; Briais, A.; Brunelli, D.; Ligi, M.; Ferreira, N.; Campos, T. et al. · 2016 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/ngeo2759 - REM: Revista Escola de Minas (SciELO Brasil) — Taxa de soerguimento atual do arquipélago de São Pedro e São Paulo, Oceano Atlântico Equatorial
Motoki, A.; Sichel, S. E.; Campos, T. F. C.; Srivastava, N. K.; Soares, R. · 2009 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1590/S0370-44672009000300011 - Anuário do Instituto de Geociências, UFRJ — Exumação das Rochas Mantélicas no Arquipélago de São Pedro e São Paulo, Oceano Atlântico Equatorial, e sua Implicação na Possível Geração de Hidrocarbonetos Abiogenéticos por Serpentinização
Motoki, A.; Sichel, S. E.; Vargas, T.; Szatmari, P.; Sial, A. N. et al. · 2015 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.11137/2015_1_05_20 - Comissão Brasileira de Sítios Geológicos e Paleobiológicos (SIGEP), com o Serviço Geológico do Brasil (CPRM/SGB) — Arquipélago de São Pedro e São Paulo: soerguimento tectônico de rochas infracrustais no Oceano Atlântico (SIGEP 002)
Campos, T. F. C.; Virgens Neto, J.; Srivastava, N. K.; Petta, R. A.; Hartmann, L. A.; Moraes, J. F. S.; Mendes, L.; Silveira, S. R. M. · 2005 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 - Solid Earth (European Geosciences Union) — Seismicity and thermal structure of the St. Paul Transform System, equatorial Atlantic: insights from focal depth analysis
de Melo, G. W. S.; Grevemeyer, I.; Liu, S.; Maia, M.; Rüpke, L. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.5194/se-16-1059-2025
Histórico de alterações
- Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 18; conferência de trechos automatizada)