Zoologia
Como se descobriu que o salmão volta ao rio pelo cheiro, e onde entra o campo magnético no mar aberto
Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026
Assuntos: Sentidos dos animais
A hipótese de que o salmão volta ao rio pelo cheiro, formulada por Arthur Hasler e colegas, foi testada com cheiros artificiais. Em 1976, coho jovens expostos à morfolina ou ao álcool feniletílico por um mês e meio e soltos no lago Michigan voltaram, 18 meses depois, em sua maioria ao riacho com a substância que conheciam. No mar aberto o cheiro provavelmente não chega, e 56 anos de dados de pesca sugerem que o campo magnético ajuda a escolher o caminho.
Impressão olfativa (imprinting) é um aprendizado fixado numa fase da vida: o salmão jovem grava o cheiro da água onde cresce e, adulto, usa essa memória para achar o rio. Em salmões do Pacífico há evidência forte de que isso ocorre na smoltificação (parr-smolt transformation), quando o jovem se prepara para descer ao mar. Para testar a ideia, os pesquisadores usaram cheiros que eles mesmos escolhiam, como a morfolina e o álcool feniletílico. Houve duas linhas de prova: o eletroencefalograma, que registra a atividade elétrica do cérebro, e a captura de peixes em riachos perfumados. O ciclo de vida do salmão já está explicado em outro artigo; aqui o foco é como se descobriu o papel do olfato e o que o magnetismo acrescenta.
A ideia veio de um cheiro numa trilha
Segundo o relato do próprio Hasler, a hipótese nasceu numa caminhada nas montanhas Wasatch, em Utah, onde um cheiro trouxe de volta lembranças da infância. Se um cheiro evoca memórias em humanos, raciocinou, deve evocar em salmões. É a origem contada por ele, não um resultado.
A lógica do teste de campo de 1976
Scholz e colegas expuseram coho jovens à morfolina ou ao álcool feniletílico por um mês e meio e os soltaram no lago Michigan. Dezoito meses depois, as duas substâncias foram dosadas em riachos separados e se contou quantos peixes de cada grupo voltaram a cada riacho; outros 17 locais também foram vigiados. Como os pesquisadores decidiram qual cheiro ia para qual riacho, a maioria de cada grupo aparecer onde sentiu o seu cheiro dificilmente se explica pelo odor natural do local. Os autores concluem que o coho grava e usa pistas químicas para voltar.
Duas provas para a mesma memória
Antes do teste de campo, Cooper e Hasler mediram a resposta elétrica do cérebro à morfolina em coho adultos. A resposta diferiu entre os expostos à morfolina quando jovens, um mês antes da smoltificação, e os não expostos; os autores concluem que a informação olfativa foi retida por 18 meses. Uma prova mostra memória no sistema nervoso, a outra, comportamento no rio. Foram lidos só os resumos: números de peixes, controles e estatística não foram verificados.
Quando o cheiro é gravado, e o que os testes artificiais deixam de mostrar
Em salmões do Pacífico, a evidência aponta a smoltificação como momento da impressão. Bett e colegas lembram, porém, que coho e Chinook fazem migrações extensas antes dessa fase, e que o pink passa pouco tempo em água doce. Em 2016, alevinos de pink expostos ao álcool feniletílico foram atraídos pela substância quando adultos, o que sugere impressão precoce. Os mesmos autores notam que, em muitos testes artificiais, o odorante gravado era a única pista familiar na água testada, o que limita a extrapolação à natureza.
A pista magnética: o que são dados e o que é hipótese
O sockeye do Fraser contorna a ilha de Vancouver por uma passagem ao norte ou ao sul. Em 56 anos de dados, quanto mais o campo na entrada da passagem divergia do da foz quando os peixes partiram, menos peixes passaram por ela: a deriva do campo explicou 16% da variação, a temperatura 22% e a interação 28%. É um padrão estatístico, não um experimento, e a revisão de 2022 o chama de evidência circunstancial forte. A ideia de que o salmão grava o campo magnético da entrada no mar continua sendo hipótese.
Como sabemos
O papel do cheiro vem de resumos dos estudos clássicos e de um artigo recente aberto; a parte magnética é indireta e vem de um resumo e de uma revisão.
- Fato estabelecido: Segundo a biografia da Academia Nacional de Ciências dos EUA, Hasler partiu do raciocínio de que, se cheiros evocam memórias em humanos, deveriam ser ao menos tão evocativos para salmões, e isso levou a uma série de experimentos e testes de campo. [6] Texto da biografia
Contexto: Relato biográfico, baseado na história que o próprio Hasler contava. · Limitações: É a origem narrada pelo pesquisador, não um resultado científico. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Fato estabelecido: Hasler é mais conhecido por suas pesquisas sobre a impressão olfativa em salmões. [6] Texto da biografia
Contexto: Avaliação da Academia Nacional de Ciências dos EUA, em memorial de 2003. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Fato estabelecido: Wisby e Hasler formularam a hipótese de que o salmão jovem grava (imprint) o cheiro único da água natal, e que o adulto que volta usa o olfato para detectar esse cheiro gravado. [3] Introdução
Contexto: Descrição da hipótese feita por Bett e colegas (2016), não pelo texto original dos autores. · Limitações: O trabalho original de Wisby e Hasler não foi aberto. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Wisby e Hasler publicaram em 1954 um estudo sobre o efeito da oclusão olfativa (bloqueio do olfato) em salmões-prateados em migração. O resultado desse estudo não foi lido para este artigo. [3] Lista de referências
Contexto: Só o título consta na lista de referências de um artigo aberto. · Limitações: Método e resultado do estudo de 1954 não foram verificados; nada aqui afirma o que ele encontrou. · Conferida em parte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Salmões do Pacífico navegam rumo às áreas de desova usando pistas olfativas que gravaram quando jovens; há evidência forte de que a impressão ocorre durante a smoltificação (parr-smolt transformation), quando o jovem se prepara para descer ao mar. [3] Introdução
Contexto: Salmões do gênero Oncorhynchus no Pacífico; o momento exato varia entre espécies. · Limitações: Os autores apontam que espécies que passam pouco tempo em água doce, como o pink, podem gravar o cheiro antes dessa fase. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Em 1974, Cooper e Hasler registraram respostas eletroencefalográficas diferentes à morfolina em coho que voltavam para desovar: as dos peixes expostos à morfolina quando jovens (um mês antes da smoltificação) diferiram das dos peixes não expostos. Os autores concluíram que a informação olfativa foi retida por 18 meses. [2] Resumo
Contexto: Salmão-coho (Oncorhynchus kisutch), resposta evocada a morfolina a 1 por cento. · Limitações: Só o resumo foi lido: número de peixes, estatística e controles não foram verificados. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Fato estabelecido: No estudo de campo de Scholz e colegas (1976), coho jovens foram expostos à morfolina ou ao álcool feniletílico por um mês e meio e soltos no lago Michigan; na migração de desova, 18 meses depois, as duas substâncias foram dosadas em riachos separados e se contou quantos peixes de cada grupo voltaram a cada riacho. [1] Resumo
Contexto: Coho (Oncorhynchus kisutch) no lago Michigan, EUA. · Limitações: Só o resumo foi lido: número de peixes soltos e recapturados, percentuais e locais exatos não foram verificados. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Evidência forte: Nesse estudo de 1976, a maioria dos peixes expostos à morfolina foi capturada no riacho com morfolina, e a maioria dos expostos ao álcool feniletílico, no riacho com essa substância; 17 outros locais também foram monitorados. Os autores concluem que o coho grava pistas químicas e as usa para voltar. [1] Resumo
Contexto: Resultado de um estudo de campo com coho; a conclusão é a dos autores. · Limitações: Só o resumo foi lido: o resumo diz 'maioria', sem dar proporções. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Evidência forte: Em 2016, pink salmon expostos como alevinos ao álcool feniletílico (PEA), criados até a idade adulta, foram atraídos pela substância, o que sugere que a impressão pode ocorrer antes da smoltificação nessa espécie. [3] Resumo
Contexto: Pink salmon (Oncorhynchus gorbuscha) em experimento de criação. · Limitações: Os próprios autores falam em 'sugerindo'; é um estudo com uma espécie, em condições de criação. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Em muitos experimentos anteriores de impressão artificial, os adultos foram testados em água diferente da de criação, de modo que o odorante gravado era a única pista familiar; os autores de 2016 apontam isso como limite para extrapolar à natureza. [3] Discussão
Contexto: Observação de Bett e colegas sobre o desenho de experimentos anteriores. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Em muitas populações, o salmão precisa primeiro navegar do mar aberto até a vizinhança do rio, um trecho em que as pistas olfativas provavelmente não chegam por causa da distância; como o salmão chega à costa certa foi descrito como um enigma. [4] Resumo [5] Seção sobre homing em salmões
Contexto: Salmões do Pacífico que viajam longas distâncias no mar. · Limitações: 'Improvável' é a avaliação dos autores da revisão, sem medição direta do alcance do cheiro neste artigo. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Evidência forte: Num conjunto de 56 anos de dados de pesca do sockeye do rio Fraser, que precisa contornar a ilha de Vancouver por uma passagem ao norte ou ao sul, quanto mais o campo magnético na entrada de uma passagem divergia do campo da foz do rio, menos peixes a usaram. A deriva do campo explicou 16% da variação na rota, a temperatura do mar 22% e a interação entre as duas 28%. [4] Resumo [5] Seção sobre homing em salmões
Contexto: Sockeye (Oncorhynchus nerka) do Fraser, Canadá; dados históricos de pesca, sem manipulação experimental. · Limitações: Análise de dados observacionais: correlação entre a deriva do campo e a rota, não prova de causa. A temperatura explicou mais variação (22%) do que a deriva do campo (16%). · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Hipótese: A hipótese da impressão geomagnética propõe que o salmão grava o campo magnético da área onde entra no mar e depois busca o mesmo campo na volta, chegando perto o bastante do rio para que as pistas químicas assumam. Uma revisão de 2022 considera os dados do Fraser uma evidência circunstancial forte dessa hipótese. [4] Resumo [5] Seção sobre homing em salmões
Contexto: Salmões do Pacífico; hipótese proposta como explicação para o trecho de mar aberto. · Limitações: Os autores de f4 chamam o resultado de 'primeira evidência empírica' de impressão geomagnética; não há replicação independente nas fontes lidas. · Há evidência estatística indireta, sem teste experimental em adultos que voltam ao rio; a própria revisão chama as provas de circunstanciais. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Segundo a mesma revisão, juvenis de salmão-real (Chinook) criados em hatchery e que nunca estiveram no oceano orientaram-se para o sul-sudoeste sob o campo magnético do limite norte da área da espécie e, aproximadamente, para o norte sob o campo do limite sul, o que indica que respondem a campos magnéticos do mar aberto antes de entrar no mar. [5] Seção sobre mapas magnéticos em peixes
Contexto: Experimento de deslocamento magnético com Chinook (Oncorhynchus tshawytscha) no estágio parr, descrito pela revisão de 2022 (estudo de Putman e colegas, 2014). · Limitações: Descrito de segunda mão, pela revisão; o artigo original não foi lido. Mostra que o peixe responde ao campo, não que o use para voltar ao rio natal. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Science — Imprinting to chemical cues: the basis for home stream selection in salmon
Scholz, A. T.; Horrall, R. M.; Cooper, J. C.; Hasler, A. D. · 1976 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1126/science.1273590 - Science — Electroencephalographic evidence for retention of olfactory cues in homing coho salmon
Cooper, J. C.; Hasler, A. D. · 1974 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1126/science.183.4122.336 - Scientific Reports — Evidence of Olfactory Imprinting at an Early Life Stage in Pink Salmon (Oncorhynchus gorbuscha)
Bett, N. N.; Hinch, S. G.; Dittman, A. H.; Yun, S.-S. · 2016 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/srep36393 - Current Biology — Evidence for geomagnetic imprinting as a homing mechanism in Pacific salmon
Putman, N. F.; Lohmann, K. J.; Putman, E. M.; Quinn, T. P.; Klimley, A. P.; Noakes, D. L. · 2013 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1016/j.cub.2012.12.041 - Journal of Comparative Physiology A — Magnetic maps in animal navigation
Lohmann, K. J.; Goforth, K. M.; Mackiewicz, A. G.; Lim, D. S.; Lohmann, C. M. F. · 2022 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1007/s00359-021-01529-8 - National Academy of Sciences (National Academies Press) — Arthur Davis Hasler, January 5, 1908-March 23, 2001 (Biographical Memoirs, vol. 82)
Likens, G. E. · 2003 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.17226/10683
Histórico de alterações
- Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 18; conferência de trechos automatizada)