Ciências da Terra
O sal aptiano do Atlântico Sul: como uma bacia estreita e restrita evaporou entre o Brasil e Angola
Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026
A camada de sal aptiana das margens do Atlântico Sul se formou quando a abertura do oceano deixou uma bacia estreita e rasa entre o Brasil e Angola, isolada do mar aberto por altos submarinos. A evaporação superou a entrada de água, a salinidade subiu e os sais precipitaram. Biomarcadores indicam que a água marinha entrou pelo sul, cruzando a Cadeia de Walvis e a Elevação do Rio Grande.
Evaporito é uma rocha formada quando a água de um lago ou mar raso evapora e os sais dissolvidos precipitam, como a halita, o sal de cozinha. Aptiano é uma idade do Cretáceo Inferior, entre cerca de 121 e 113 milhões de anos atrás (Ma). Nessa época o rifte do Atlântico Sul, a faixa onde o continente era esticado, abrigava lagos; a água marinha entrou depois, e a salinidade passou a ser medida em psu, unidade prática de salinidade. A abertura do oceano em si está no post ligado abaixo; aqui o assunto é o sal.
Sal em três faixas de salinidade
Na mesma região, gipsita precipita em salmouras de 150 a 300 psu e halita de 300 a 370 psu; a taquidrita, um cloreto de cálcio raro, só acima de 370 psu, e aparece nas bacias do norte.
Como um mar raso vira sal
Água do mar só deixa sal para trás se evaporar mais depressa do que chega água nova, o que exige uma bacia isolada, com entradas estreitas. No Aptiano, a abertura do Atlântico Sul formou uma depressão alongada entre o Brasil e Angola, restrita por altos submarinos. Ali a salinidade subiu até a hipersalinidade: gipsita e halita precipitam entre 150 e 370 psu, e a taquidrita, bem mais rara, só acima disso. Em Santos, o sal passa hoje de 2.000 m de espessura em alguns pontos.
Como sabemos de onde veio a água
Nas bacias de rifte havia lagos antes do mar. Para achar a primeira água marinha, Cui e colegas analisaram biomarcadores (moléculas orgânicas fossilizadas) em dois testemunhos de sondagem da costa africana. Um composto produzido por algas marinhas falta nas camadas mais antigas e aparece a partir do Aptiano inicial, em proporção maior em Kwanza do que no Gabão, o que sugere influência mais forte perto da barreira sul. A janela proposta vai de cerca de 121,4 Ma a 114 Ma. Ressalva: são dois testemunhos, e as bacias do norte ainda não confirmam o resultado.
Um sal que o clima não explica sozinho
O sal se depositou perto do equador, onde um clima úmido seria esperado. Chaboureau e colegas simularam o Aptiano num modelo de clima e oceano: a parte sul do segmento central ficou muito salgada, a norte continuou úmida e pouco salina. Por isso propõem que o sal do sul veio de clima árido e o do norte, de fontes hidrotermais. Outro estudo discute a formação por serpentinização. São hipóteses, que não substituem a evaporação como modelo clássico.
O que continua em disputa
Falta consenso sobre a data e o ponto de entrada da primeira água marinha e sobre se o sal se depositou durante o rifte ou depois dele. As idades absolutas também dependem do modelo adotado: Cui e colegas escolheram um modelo de Aptiano tardio para conciliar controvérsias recentes. A origem da água, portanto, tem hoje uma resposta provável (o sul), mas não definitiva.
Como sabemos
O mecanismo de evaporação em bacia restrita é consolidado; a origem sul da água e a origem do sal do norte vêm de estudos isolados e estão marcadas como interpretação ou hipótese.
Em debate: Por onde e quando o mar entrou, e se o sal precede ou acompanha o rifte
- Evidência forte: As camadas de sal aptianas ocorrem ao longo das margens brasileira e africana do Atlântico Sul, formando uma sequência evaporítica de 1 a 2 km de espessura, depositada na fase final da separação entre a América do Sul e a África. [3] Introduction
Contexto: Segmento central do Atlântico Sul, entre as zonas de fratura de Walvis–Rio Grande e de Ascensão. · Limitações: A espessura de 1 a 2 km é um valor geral citado pelos autores; localmente o sal é mais espesso (ver a14). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Na idade de referência adotada por Cui e colegas (2023), as evaporitas aptianas têm base por volta de 114 Ma e topo por volta de 113 Ma, isto é, o sal se acumulou em cerca de 1 milhão de anos nesse modelo de idades. [1] Methods, Geological settings and samples
Contexto: Bacias de rifte do Atlântico Sul; idade de referência do estudo. · Limitações: Os autores adotaram o modelo de idade do Aptiano tardio para conciliar controvérsias recentes; a conta de 1 milhão de anos (114 menos 113 Ma) é nossa. Outros trabalhos citados por Chaboureau e colegas falam em 1 a 5 milhões de anos. · Estimativa de idade dependente do modelo adotado. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: Um sal evaporítico se forma quando a água perdida por evaporação supera a água que entra na bacia (do mar ou de rios): a salinidade sobe até a hipersalinidade e minerais diferentes precipitam, um após o outro. [3] Introduction
Contexto: Princípio geral de bacias evaporíticas, aplicado ao Atlântico Sul pelos autores. · Limitações: A expressão "um após o outro" é nossa; o artigo diz apenas que minerais diferentes precipitam, conforme a salinidade. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: A bacia do sal era estreita e rasa, aberta entre o Brasil e Angola e restrita por altos submarinos (Platô das Malvinas, Elevação do Rio Grande e Cadeia de Walvis), que limitavam a circulação de água e favoreciam a deposição de sal em águas rasas. [2] Discussion
Contexto: Reconstrução paleobatimétrica (modelo) do Atlântico Sul desde o Cretáceo Inferior. · Limitações: As profundidades vêm de um modelo, com faixas de incerteza; os próprios autores dizem que as controvérsias sobre época, extensão e profundidade do sal se sobrepõem a essas incertezas. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Análises de biomarcadores em dois testemunhos de sondagem na costa da África Ocidental indicam que a entrada inicial de água do mar nas bacias de rifte ocorreu pelo sul, cruzando a Elevação do Rio Grande e a Cadeia de Walvis, no início do Aptiano. [1] Discussion [2] Discussion
Contexto: Bacias de Kwanza (Angola) e Gabão, a partir de dois testemunhos; extrapolada ao conjunto das bacias de rifte pelos autores. · Limitações: Dois testemunhos na margem africana; os próprios autores dizem que são necessárias evidências das bacias do norte (como Sergipe–Alagoas) para confirmar e descartar a entrada por um portal equatorial. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Esse resultado vem de biomarcadores: moléculas orgânicas fossilizadas, produzidas por grupos específicos de organismos, que informam sobre o ambiente. Um deles, associado a algas marinhas, não aparece nos sedimentos mais antigos, do Berriasiano–Barremiano, e surge no Aptiano e no Albiano. [1] Discussion
Contexto: Dois testemunhos da margem africana (bacias de Kwanza e do Gabão). · Limitações: O biomarcador em questão (24-n-propilcolestano) já foi identificado de forma errada em estudos anteriores, por interferência de outros compostos; os autores revisam esses casos. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Os autores estimam que a água do mar começou a entrar antes de 114 Ma, mas não antes do fim do Barremiano (cerca de 121,4 Ma): a entrada de água marinha, portanto, precede a deposição do sal aptiano. [1] Discussion
Contexto: Bacias de rifte do Atlântico Sul. · Limitações: Janela de idade que depende do modelo de idades adotado e de dois testemunhos. · Janela estimada a partir de dois testemunhos e do modelo de idade escolhido. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: Antes da entrada do mar, as bacias de rifte do Atlântico Sul eram, em geral, ambientes lacustres, isto é, de lagos, no Berriasiano–Barremiano. [1] Introduction
Contexto: Bacias de rifte do Atlântico Sul (SARBs, no estudo). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Em debate: Não há consenso sobre por onde a água marinha entrou primeiro (pelo sul, atravessando a Cadeia de Walvis, ou pelo norte, por um portal equatorial), e a data da primeira incursão marinha também continua em discussão. [1] Introduction
Contexto: Bacias de rifte do Atlântico Sul. · Divergência real publicada: sinais marinhos já foram relatados no Berriasiano, no Barremiano final e no Aptiano, segundo o artigo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Num modelo climático acoplado oceano–atmosfera do Aptiano, a parte sul do segmento central do Atlântico Sul tem salinidade muito alta quando a drenagem retira água da bacia, ao passo que a parte norte permanece úmida e com salinidade muito baixa, quaisquer que sejam as condições de contorno testadas. [3] Abstract
Contexto: Segmento central do Atlântico Sul no Aptiano tardio, simulado com o modelo FOAM. · Limitações: Resultado de simulação com paleogeografia e topografia incertas; os autores testam várias alturas de ombros do rifte, profundidades e padrões de drenagem. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: Os autores concluem que o sal da parte sul pode ter sido controlado por um clima árido; já o sal do norte, perto do equador, dificilmente se concilia com o clima simulado ali e pode ter fonte hidrotermal (soluções quentes que circulam em rochas). [3] Abstract
Contexto: Segmento central do Atlântico Sul no Aptiano tardio. · Hipótese dos autores a partir de simulação climática e da composição mineral; não é consenso. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: O sal aptiano não é só halita (o sal de cozinha): no sul predominam gipsita e halita, que precipitam em salmouras de cerca de 150 a 300 e de 300 a 370 psu, enquanto a taquidrita, um cloreto de cálcio raro, só precipita acima de 370 psu e se concentra nas bacias mais ao norte, como Sergipe, Alagoas, Gabão e Congo. [3] Introduction
Contexto: Segmento central; mineralogia do conjunto salino segundo reconstrução de Moulin e colegas (2010). · Limitações: psu (unidade prática de salinidade) é a unidade usada pelos autores; a explicação de que ela mede a salinidade é nossa. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: Uma proposta alternativa ao modelo clássico de evaporação sustenta que sais muito solúveis, como a taquidrita do Aptiano sul-atlântico, podem ter se formado por serpentinização (reação da água com rochas ultramáficas, como as do manto), e não só por evaporação de água do mar; o debate está aberto. [4] Abstract
Contexto: Sais do Aptiano do Atlântico Sul e da crise de salinidade do Messiniano; o artigo é um estudo termodinâmico da hipótese. · Limitações: Estudo de cálculos termodinâmicos, não uma observação do sal do Atlântico Sul; a explicação entre parênteses sobre serpentinização é nossa; a hipótese não é consenso. · Hipótese em debate; o artigo a avalia por cálculo termodinâmico. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Fato estabelecido: Na bacia de Santos, a camada de sal é espessa: o máximo atual passa de 2.000 m nas áreas elevadas a leste e chega a 2.500 m em alguns pontos. [5] Introduction
Contexto: Bacia de Santos, margem sudeste do Brasil; o sal pertence à Formação Ariri. · Limitações: Espessura atual, não necessariamente a do depósito original. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Em debate: Seguem em debate se o sal se depositou durante o rifteamento ou depois dele, bem como sua extensão e continuidade; evidências paleontológicas e sedimentológicas indicam profundidades de no máximo cerca de 500 m na deposição. [2] Discussion
Contexto: Sal do Atlântico Sul, segundo a revisão dos autores. · Debate real descrito no artigo: ainda há divergência sobre momento e extensão do depósito. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Communications Earth & Environment (Nature Portfolio) — Early Cretaceous marine incursions into South Atlantic rift basins originated from the south
Cui, X.; Wignall, B.; Freeman, K. H.; Summons, R. E. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s43247-022-00668-3 - Scientific Reports (Nature Portfolio) — South Atlantic paleobathymetry since early Cretaceous
Pérez-Díaz, L.; Eagles, G. · 2017 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41598-017-11959-7 - Climate of the Past (European Geosciences Union) — The Aptian evaporites of the South Atlantic: a climatic paradox?
Chaboureau, A.-C.; Donnadieu, Y.; Sepulchre, P.; Robin, C.; Guillocheau, F.; Rohais, S. · 2012 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.5194/cp-8-1047-2012 - Scientific Reports (Nature Portfolio) — Thermodynamic evidence of giant salt deposit formation by serpentinization: an alternative mechanism to solar evaporation
Debure, M.; Lassin, A.; Marty, N. C.; Claret, F.; Virgone, A.; Calassou, S.; Gaucher, E. C. · 2019 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41598-019-48138-9 - Scientific Reports (Nature Portfolio) — Present geothermal field of the Santos Basin, Brazil
Zuo, G.; Wang, H.; Lan, L.; Zhang, Y.; Zuo, Y. et al. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41598-023-39702-5
Histórico de alterações
- Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 8; conferência de trechos automatizada)