Paleontologia

Sahitisuchus, de Itaboraí (RJ): o que um sebecídeo conta sobre os crocodiliformes depois do limite K-Pg

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

O Sahitisuchus fluminensis, sebecídeo do Paleoceno de Itaboraí (RJ), pertence a uma linhagem de crocodiliformes terrestres que atravessou o limite K-Pg, há cerca de 66 milhões de anos. Tem mais dentes que os baurusquídeos do Cretáceo, que tinham só cinco maxilares, e provavelmente convivia com um jacaré de linhagem que só se diversificou depois da crise. O caso ilustra uma recuperação desigual: alguns grupos persistem, outros se expandem.

O limite K-Pg (Cretáceo-Paleógeno) marca uma extinção em massa há cerca de 66 milhões de anos, que eliminou os vertebrados terrestres acima de uns 5 kg. Entre os crocodiliformes (crocodilianos atuais e parentes extintos), três linhagens aparecem antes e depois do limite: os dirosaurídeos marinhos, os crocodilianos semiaquáticos e os sebecossúquios terrestres. Na Bacia de São José de Itaboraí, fissuras de calcário preservaram fósseis do Paleoceno, entre eles o crânio do Sahitisuchus. O artigo de 2014 que o descreveu o liga ao grupo dos sebecídeos e o usa para discutir como os crocodiliformes se reorganizaram depois da crise. O impacto de Chicxulub, que costuma ser associado a esse limite, tem post próprio.

Um nome Xavante para um crocodiliforme fluminense

O gênero Sahitisuchus junta o termo Xavante sahi ti, ligado a ser bravo e a guerreiros, ao grego souchos, o deus-crocodilo egípcio. O epíteto fluminensis homenageia quem nasce no estado do Rio de Janeiro.

Como sabemos que é um sebecídeo: a árvore de parentesco

O parentesco não vem de uma semelhança geral, mas de uma análise filogenética: a equipe codificou 347 caracteres anatômicos em 89 táxons de crocodiliformes, usando a matriz publicada em 2012, e procurou a árvore mais parcimoniosa. Nos dois tipos de análise, o Sahitisuchus caiu entre os sebecídeos. O resultado vale enquanto a matriz e a codificação valerem: uma árvore é uma hipótese que novos exemplares podem mudar.

Sobreviver não é o mesmo que se diversificar

Os sebecossúquios atravessaram o limite K-Pg, mas perderam diversidade, enquanto os aligatoroides, já presentes no Cretáceo Superior, só se diversificaram depois da crise. A anatomia acompanha a diferença: os baurusquídeos cretáceos tinham só cinco dentes maxilares, contra 10 em sebecossúquios paleógenos. Por isso o artigo trata os sebecídeos do Paleoceno como menos especializados que seus parentes cretáceos.

O problema das fissuras: os fósseis são da mesma época?

O Sahitisuchus e o jacaré Eocaiman são, até 2014, os únicos representantes dessas duas linhagens num mesmo depósito paleoceno. Mas os fósseis de Itaboraí vieram de fissuras, sem registro detalhado de coleta, e a idade da bacia é debatida (de 61,8 a 56,5 milhões de anos, conforme a calibração). Os autores acham mais provável que tenham convivido, mas isso é uma inferência, não uma demonstração.

O que mudou desde 2014

Em 2025, outro estudo descreveu um notosúquio do Paleoceno inferior da Patagônia e resumiu que os sebecídeos são os únicos crocodiliformes terrestres que passaram pelo limite K-Pg. Esse estudo deixou o Sahitisuchus fora da análise, porque novos exemplares com informação anatômica importante estão em descrição. A posição do fóssil de Itaboraí na árvore pode, portanto, ser revista.

Como sabemos

As afirmações centrais vêm de um artigo de 2014 e de um de 2025, lidos na íntegra; a posição filogenética do fóssil pode mudar com novos exemplares.

Fontes

  1. PLoS ONE — A New Sebecid from the Paleogene of Brazil and the Crocodyliform Radiation after the K-Pg Boundary
    Kellner, A. W. A.; Pinheiro, A. E. P.; Campos, D. A. · 2014 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0081386
  2. Proceedings of the Royal Society B — A new notosuchian crocodyliform from the Early Palaeocene of Patagonia and the survival of a large-bodied terrestrial lineage across the K-Pg boundary
    Bravo, G. G.; Pol, D.; Leardi, J. M.; Krause, J. M.; Nicholl, C. S. C.; Rougier, G.; Mannion, P. D. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rspb.2024.1980
  3. Proceedings of the Royal Society B — New dyrosaurid crocodylomorph and evidences for faunal turnover at the K-P transition in Brazil
    Barbosa, J. A.; Kellner, A. W. A.; Viana, M. S. S. · 2008 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rspb.2008.0110
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 7; conferência de trechos automatizada)

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