Ciências da Terra

Como sabemos o que há no centro da Terra se ninguém passou de 12 quilômetros?

Publicado em 06/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026

O furo mais fundo já feito, na Rússia, chegou a 12.262 metros em 1989: cerca de 0,19% do caminho até o centro. Mesmo assim, sabemos que o núcleo externo é líquido e o interno é sólido. A pista vem dos terremotos: as ondas P atravessam sólidos e líquidos, as ondas S não atravessam líquido, e os sismógrafos do mundo todo registram o que sobra.

Ondas sísmicas de grandes terremotos atravessam o planeta e saem do outro lado com a marca do caminho que fizeram. Em cada ponto da superfície, sismógrafos registram quais ondas chegam e quando. As ondas S somem a partir de cerca de 104° de distância do epicentro. As ondas P deixam de aparecer entre cerca de 104° e 140°, a chamada zona de sombra. Esse padrão indica uma fronteira a cerca de 2.900 km de profundidade, onde começa um núcleo líquido. Em 1936, a sismóloga dinamarquesa Inge Lehmann explicou ondas P que apareciam dentro da zona de sombra com a existência de um núcleo interno sólido.

O furo parou por causa do calor

No poço de Kola, a rocha a 12.262 m estava a 180 °C, quase o dobro dos 100 °C esperados. Nessa temperatura a rocha se deformava como massa plástica e fechava o furo, e a perfuração não avançou mais.

Duas ondas, dois comportamentos

Um terremoto emite ondas P, de compressão, e ondas S, de cisalhamento. As P atravessam sólidos e líquidos. As S só atravessam sólidos, porque líquidos não resistem a esforço de cisalhamento. Essa diferença simples funciona como um teste: onde a onda S passa, o meio é sólido; onde ela some, há líquido no caminho.

A zona de sombra

Do lado oposto ao terremoto, existe uma faixa em que as ondas S não chegam e as ondas P não chegam diretamente. Ela fica entre cerca de 104° e 140° do epicentro, segundo o IRIS. A faixa nasce da refração das ondas P ao entrar no núcleo líquido, que as desvia. Medir onde a sombra começa e termina permite estimar o tamanho do núcleo.

O núcleo dentro do núcleo

Em 1936, Inge Lehmann notou ondas P onde, pelo modelo da época, não deveria haver nenhuma. Usando registros do terremoto de 1929 na Nova Zelândia, propôs que um núcleo interno sólido as refletia. A confirmação de que ele desvia ondas veio num estudo de 1970, quando os sismômetros já eram bem melhores.

Por que furar não resolve

O poço de Kola, na Rússia, chegou a 12.262 m em 1989 e atravessou cerca de um terço da crosta local. A 180 °C, a rocha começou a se deformar e a fechar o furo. O centro está a milhares de quilômetros dali, então o interior do planeta só pode ser estudado por métodos indiretos, como a sismologia.

Como sabemos

Os fatos centrais vêm de IRIS, USGS, BGS, EARTH Magazine e EarthDate; só os limites angulares exatos variam entre fontes.

Fontes

  1. IRIS (EarthScope) — Seismic Shadow Zones: basic introduction
    consultada em 06/10/2026
  2. IRIS (EarthScope) — What's Inside The Earth? Northridge Earthquake 1994
    consultada em 06/10/2026
  3. USGS — P-wave and S-wave paths through Earth
    consultada em 06/10/2026
  4. EARTH Magazine (American Geosciences Institute) — March 29, 1936: Notes on Earth's Inner Core
    consultada em 06/10/2026
  5. EarthDate (Universidade do Texas) — Kola Superdeep
    consultada em 06/10/2026
  6. British Geological Survey — What causes earthquakes?
    consultada em 06/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 06/10/2026 — primeira versão

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