Astronomia

Ryugu e a água da Terra: D/H compatível com o dos oceanos e estimativa de ~3% do hidrogênio da superfície

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

A água dos minerais hidratados de Ryugu tem D/H de (165 ± 19) × 10⁻⁶, compatível, dentro da incerteza, com o dos oceanos (155,76 × 10⁻⁶) e com o do condrito CI Orgueil. Com esse valor, Piani e colegas (2023) estimaram que material tipo CI contribuiu com cerca de 3% do hidrogênio dos reservatórios superficiais da Terra. É uma estimativa de incerteza grande (±121‰ no δD), não uma medida.

D/H é a proporção entre átomos de deutério, o hidrogênio pesado, e de hidrogênio comum. Costuma ser dada como δD, o desvio em partes por mil em relação à água do oceano (D/H de 155,76 × 10⁻⁶). Ryugu é um asteroide carbonáceo, e seus fragmentos foram trazidos à Terra pela missão Hayabusa2, da agência japonesa JAXA. São parecidos com os condritos CI, meteoritos carbonáceos ricos em minerais formados em contato com água líquida no corpo de origem. Meteoritos que caem na Terra se contaminam; as amostras de Ryugu não passaram por isso, e por isso servem de referência para a água desse tipo de material.

Menos água que os meteoritos, mas talvez só na aparência

Segundo Piani e colegas, as amostras de Ryugu têm 6,84% de água equivalente, contra 12,73% em Ivuna. Para eles, parte da diferença pode ser água terrestre absorvida pelo meteorito: uma reavaliação de Orgueil dá cerca de 8,5%.

Por que uma amostra intacta muda a conta

Os condritos CI que caem na Terra se contaminam com hidrogênio terrestre, o que distorce o teor de água e dificulta saber qual era o D/H original. As partículas de Ryugu foram mantidas sem solventes nem polimento e analisadas em vácuo, e o D/H dos minerais hidratados ficou semelhante ao de Orgueil, mesmo com condições de armazenamento diferentes. Para Piani e colegas, isso mostra que a técnica é pouco afetada por contaminação e faz de Ryugu a melhor referência para a água do material tipo CI.

Como sabemos: a conta do intercepto

A matéria orgânica também carrega hidrogênio, e muito rico em deutério, o que atrapalha uma medida direta da água. O grupo usou um feixe de íons de césio em áreas de 12 × 12 μm e mediu D/H e C/H em 95 pontos. Os pontos formam uma reta; onde ela cruza o C/H igual a zero estaria o hidrogênio sem carbono, o dos silicatos hidratados. Esse valor, corrigido por padrões de referência, dá (165 ± 19) × 10⁻⁶. Cinco pontos muito ricos em deutério ficaram fora do ajuste; com todos, o resultado muda pouco (δD +50‰ ± 135‰).

De 165 × 10⁻⁶ a 3%: o que a conta supõe

O D/H de Ryugu, parecido com o dos oceanos, não basta sozinho: a estimativa de cerca de 3% usa também o teor de hidrogênio e o δD da rocha inteira e parte da ideia de que a Terra veio de material tipo enstatite, com um acréscimo tipo CI na superfície. Se a base da Terra for outra, a conta muda. O erro de ±121‰ no δD é grande, e o artigo não dá barra de erro para os 3%. Duas formulações (3% e cerca de 30% da água dos oceanos) aparecem no texto sem a relação explicada.

O que a medida não decide

Um modelo de 2025 estima que mais de 98% do hidrogênio da Terra pode estar no núcleo; assim, o D/H de manto e oceanos descreve só a parte acessível, e o mesmo estudo exige contribuição carbonácea. O próprio artigo de Ryugu nota um enigma: corpos CI teriam se formado longe do Sol, onde se esperaria água muito mais rica em deutério. A hipótese de herança da nuvem molecular com reequilíbrio no disco ainda não foi testada diretamente. O panorama completo está no post sobre o debate da origem da água.

Como sabemos

A medida e o método estão no artigo lido por inteiro, mas a conta dos 3% depende de dados de terceiros, sem barra de erro, e o artigo usa duas formulações.

Em debate: Piani e colegas (2023) estimam cerca de 3% para os reservatórios superficiais, partindo de enstatite como base da Terra. Tsutsumi e colegas (2025), por modelagem, exigem contribuição carbonácea, mas admitem que até 53% da água venha de material não carbonáceo. O debate geral está em outro post.

Fontes

  1. The Astrophysical Journal Letters 946:L43 — Hydrogen Isotopic Composition of Hydrous Minerals in Asteroid Ryugu
    Piani, L. et al. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3847/2041-8213/acc393
  2. Science 379:eabn7850 — Samples returned from the asteroid Ryugu are similar to Ivuna-type carbonaceous meteorites
    Yokoyama, T. et al. · 2023 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/science.abn7850
  3. Science 337:721-723 — The provenances of asteroids, and their contributions to the volatile inventories of the terrestrial planets
    Alexander, C. M. O'D. et al. · 2012 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/science.1223474
  4. Science 369:1110-1113 — Earth's water may have been inherited from material similar to enstatite chondrite meteorites
    Piani, L. et al. · 2020 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/science.aba1948
  5. Nature Communications 16:10038 — Origin of Earth's hydrogen and carbon constrained by their core-mantle partitioning and bulk Earth abundance
    Tsutsumi, Y. et al. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41467-025-65729-5
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 2; conferência de trechos automatizada)

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