Biologia

Rubisco, tida como a enzima mais abundante da Terra, é mesmo ineficiente? Por que ela também captura oxigênio

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Plantas em ação

O CO₂ e o O₂ disputam o mesmo sítio ativo da Rubisco. A reação com O₂ gera uma molécula que a planta precisa reciclar na fotorrespiração, com perda de carbono. A enzima é lenta: em mais de 95% das medições, cada sítio faz de 1 a 10 reações por segundo. Mas há debate real sobre o motivo. Uma linha a vê como bem ajustada a um limite químico, outra aponta a herança evolutiva, e a engenharia quase nunca a melhorou.

Rubisco é a abreviação de ribulose-1,5-bisfosfato carboxilase/oxigenase. Na fotossíntese ela liga o CO₂ a uma molécula de cinco carbonos, a RuBP (ribulose-1,5-bisfosfato), no primeiro passo do ciclo de Calvin-Benson-Bassham, a via que produz os açúcares. O mesmo sítio ativo também pode reagir com O₂ em vez de CO₂. Essa oxigenação produz o 2-fosfoglicolato, que não faz parte do ciclo e precisa ser reciclado por uma via chamada fotorrespiração, que gasta ATP e poder redutor e libera amônia. Por isso a Rubisco virou o exemplo clássico de enzima "mal projetada". Pesquisas das últimas duas décadas questionaram essa leitura, e o debate continua.

A Rubisco mais rápida medida ainda trabalha abaixo do máximo

A Rubisco mais rápida já medida a 25 °C, a da cianobactéria Synechococcus elongatus PCC 7942, chega a 14 reações por segundo por sítio. No ar atual, com muito O₂ e pouco CO₂, ela carboxila cerca de 20 vezes abaixo desse máximo, segundo o cálculo dos autores.

Por que ela captura oxigênio

O CO₂ e o O₂ competem pelo mesmo sítio ativo, onde reagem com a RuBP. Segundo a hipótese de Tcherkez e colegas (2006), o CO₂ é uma molécula "sem traços" para se ligar, o que faz a distinção entre os dois gases ocorrer sobretudo no estado de transição. Ganhar especificidade prende o intermediário e freia a reação, ou seja, haveria um compromisso entre selecionar CO₂ e girar rápido. Isso é uma hipótese, e não um fato estabelecido.

Lenta e cara: o que se sabe

Em cerca de 300 Rubiscos, mais de 95% das taxas de carboxilação ficam entre 1 e 10 por segundo por sítio, contra cerca de 80 por segundo de enzimas típicas do metabolismo central. No ar atual, a mais rápida medida trabalha cerca de 20 vezes abaixo do seu máximo. E cada oxigenação gera 2-fosfoglicolato, que a fotorrespiração recicla gastando ATP e poder redutor e perdendo um carbono a cada dois recuperados. É o argumento a favor de chamá-la de ineficiente.

Como sabemos: o que mostram os compromissos entre parâmetros

A ideia de compromisso nasceu de correlações entre parâmetros medidos in vitro em cerca de 20 organismos. Com cerca de 300, as correlações enfraqueceram, embora a variação continue pequena. A análise de 2021 foi além: espécies aparentadas se parecem entre si, o que infla correlações, então ela corrigiu pelo parentesco e viu todos os compromissos diminuírem. Limites: os dados vêm de laboratórios diferentes e correlação não prova mecanismo.

Dá para melhorar por engenharia?

Até 2025, tentativas de alterar os parâmetros da Rubisco em geral falharam, segundo o resumo de um estudo que mapeou mais de 99% das mutações de um aminoácido em E. coli e encontrou raras mutações que melhoram a afinidade por CO₂. É um sinal de que a enzima não está totalmente travada, mas não um ganho para lavouras. A natureza já "contornou" o problema várias vezes: a via C4 apareceu em pelo menos 66 linhagens independentes.

Como sabemos

Os números e as hipóteses vêm de textos abertos lidos por inteiro (f1, f2, f3); a revisão crítica, o mapeamento de 2025 e a revisão sobre C4 foram lidos só pelo resumo.

Em debate: Há desacordo real sobre se a Rubisco é "ruim". Uma linha (Tcherkez e colegas, 2006; Bathellier e colegas, 2018) sustenta que ela está quase otimizada para o compromisso entre especificidade e velocidade, ou que é comum entre enzimas parecidas. Outra, a das análises de 2019 e 2021, mostra que os compromissos entre parâmetros são mais fracos do que se pensava e que a herança filogenética pesa mais. Por isso o debate ainda não tem resposta única sobre se o limite é químico ou evolutivo.

Fontes

  1. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) — Despite slow catalysis and confused substrate specificity, all ribulose bisphosphate carboxylases may be nearly perfectly optimized
    Tcherkez, G. G. B.; Farquhar, G. D.; Andrews, T. J. · 2006 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1073/pnas.0600605103
  2. Biochemistry — Revisiting Trade-offs between Rubisco Kinetic Parameters
    Flamholz, A. I. et al. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1021/acs.biochem.9b00237
  3. Molecular Biology and Evolution — Rubisco Adaptation Is More Limited by Phylogenetic Constraint Than by Catalytic Trade-off
    Bouvier, J. W. et al. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1093/molbev/msab079
  4. Plant, Cell & Environment — Rubisco is not really so bad
    Bathellier, C.; Tcherkez, G.; Lorimer, G. H.; Farquhar, G. D. · 2018 · Revisão ou síntese científica · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1111/pce.13149
  5. Nature — A map of the rubisco biochemical landscape
    Prywes, N. et al. · 2025 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41586-024-08455-0
  6. Annual Review of Plant Biology — Photorespiration and the evolution of C4 photosynthesis
    Sage, R. F.; Sage, T. L.; Kocacinar, F. · 2012 · Revisão ou síntese científica · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1146/annurev-arplant-042811-105511
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 2; conferência de trechos automatizada)

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