História da África

Em cerca de cem dias de 1994, Ruanda viveu o genocídio contra os tutsis

Publicado em 05/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026

Entre abril e julho de 1994, em cerca de cem dias, mais de um milhão de pessoas foram assassinadas em Ruanda, segundo estimativa da ONU: em grande maioria tutsis, mas também hutus e outros que se opuseram ao genocídio. Nas barreiras erguidas pelas milícias, a menção étnica na carteira de identidade, criada sob a administração colonial belga nos anos 1930, separava quem seria morto. A matança só parou quando a Frente Patriótica Ruandesa tomou o país, em julho.

Ruanda foi colônia alemã e, depois da Primeira Guerra Mundial, passou à administração da Bélgica. Os belgas favoreceram a minoria tutsi e, nos anos 1930, obrigaram todos os ruandeses a portar carteira de identidade com a etnia: hutu, tutsi ou twa. Em 1959, uma revolta hutu apoiada pelos belgas matou centenas de tutsis e empurrou milhares para o exílio; no fim dos anos 1980, cerca de 480 mil ruandeses viviam como refugiados. Exilados tutsis em Uganda fundaram em 1988 a Frente Patriótica Ruandesa (FPR), que atacou em outubro de 1990. Os acordos de Arusha, de 1993, prometiam paz, mas extremistas hutus preparavam o extermínio. Em 6 de abril de 1994, o avião dos presidentes de Ruanda e do Burundi foi abatido sobre Kigali. Em menos de meia hora havia barreiras para identificar tutsis.

O tribunal que chamou o estupro de arma de genocídio

O Tribunal Penal Internacional para Ruanda, criado pela ONU em novembro de 1994 em Arusha, na Tanzânia, foi o primeiro tribunal internacional a dar sentenças por genocídio e o primeiro a reconhecer o estupro como meio de cometer genocídio. A ONU estima que entre 150 mil e 250 mil mulheres foram estupradas em 1994.

A etnia no papel

Sob a administração belga, a distinção entre hutus, tutsis e twas virou documento. Nos anos 1930, cada ruandês passou a carregar uma carteira com a etnia escrita, e a administração colonial favoreceu a minoria tutsi. O relatório Duclert registra que, depois da independência, regimes autoritários mantiveram as carteiras com menção étnica e criaram cotas na educação e no serviço público. Em 1994, as milícias usaram essa menção nas barreiras para deter tutsis e, quase sempre, matá-los ali mesmo.

Os cem dias

Na noite de 6 de abril de 1994, o avião do presidente Juvénal Habyarimana foi abatido sobre Kigali. A guarda presidencial começou a matar civis tutsis perto do aeroporto. No dia 7, soldados do governo mataram a primeira-ministra Agathe Uwilingiyimana e os dez capacetes azuis belgas que a protegiam, e a rádio RTLM chamou os tutsis de 'baratas' a eliminar. As matanças, que também atingiram hutus contrários ao genocídio, só cessaram quando a FPR tomou o país, em 4 de julho.

A ONU sai de cena

A missão da ONU, a UNAMIR, existia desde outubro de 1993. Depois da morte dos dez soldados, a Bélgica retirou suas tropas; em 21 de abril, a pedido de outros países, a força foi reduzida de 2.165 para 270 soldados. Segundo a própria ONU, os países-membros não quiseram reforçar o mandato nem mandar mais tropas. Em 22 de junho, o Conselho de Segurança autorizou a operação Turquoise, liderada pela França, que salvou civis no sudoeste, mas é apontada como rota de fuga de autoridades e milicianos do genocídio. Em 1999, a ONU admitiu ter falhado.

Justiça e memória

Em 8 de novembro de 1994, a ONU criou o Tribunal Penal Internacional para Ruanda, em Arusha. Ele indiciou 93 pessoas e condenou à prisão perpétua o primeiro-ministro do governo genocida, Jean Kambanda. Em Ruanda, com mais de 100 mil suspeitos à espera de julgamento em 2000, o país criou em 2001 os tribunais comunitários gacaca. Em 2021, a comissão Duclert apontou 'responsabilidades pesadas e esmagadoras' da França, sem cumplicidade demonstrada; o relatório Muse, encomendado por Ruanda, respondeu que o genocídio era previsível e que Paris não estava cega.

Como sabemos

Datas e fatos vêm da ONU, do tribunal e dos dois relatórios oficiais sobre a França (Duclert e Muse), lidos no original; os números de mortos estão marcados como estimativa, com a divergência explicada.

Em debate: Número de mortos: a ONU fala em mais de um milhão de mortos em cerca de cem dias; o recenseamento do governo de Ruanda (2000) contou 1.074.017 mortos entre outubro de 1990 e dezembro de 1994, 93,67% tutsis. Estimativas acadêmicas restritas aos tutsis mortos entre abril e julho de 1994 ficam em torno de 500 mil (Human Rights Watch, 507 mil; Omar McDoom, LSE, 491 mil a 522 mil). As diferenças vêm do período coberto, da população tutsi estimada antes de 1994 e do método.

Em debate: Papel da França: a comissão Duclert (2021), criada pelo governo francês, concluiu por responsabilidades 'pesadas e esmagadoras', descreve as autoridades francesas como 'cegas' à preparação do genocídio e diz que os arquivos não demonstram vontade de se associar a ele. O relatório Muse (2021), encomendado pelo governo de Ruanda, sustenta que o genocídio era previsível, que o governo francês não estava cego e que tem responsabilidade significativa por tê-lo possibilitado.

Em debate: Data exata das carteiras étnicas: o relatório Duclert diz 'anos 1930'; o relatório Muse, citando Stephen Kinzer, dá 1933.

Fontes

  1. Nações Unidas, Programa de Divulgação sobre o Genocídio contra os Tutsis em Ruanda — Background Information on the Genocide against the Tutsi in Rwanda (Historical Background)
    consultada em 05/10/2026
  2. Nações Unidas — Outreach Programme on the 1994 Genocide against the Tutsi in Rwanda and the United Nations
    consultada em 05/10/2026
  3. Tribunal Penal Internacional para Ruanda / Mecanismo Residual Internacional para Tribunais Penais (ONU) — The ICTR in Brief
    consultada em 05/10/2026
  4. Commission de recherche sur les archives françaises relatives au Rwanda et au génocide des Tutsi (publicado em vie-publique.fr, governo da França) — La France, le Rwanda et le génocide des Tutsi (1990-1994). Rapport remis au Président de la République le 26 mars 2021
    consultada em 05/10/2026
  5. Governo de Ruanda (relatório encomendado à Levy Firestone Muse LLP) — A Foreseeable Genocide: The Role of the French Government in Connection with the Genocide Against the Tutsi in Rwanda
    consultada em 05/10/2026
  6. United States Holocaust Memorial Museum — Rwanda: Divided by Ethnicity
    consultada em 05/10/2026
  7. Musée de l'Holocauste Montréal — The Genocide Against the Tutsi in Rwanda
    consultada em 05/10/2026
  8. London School of Economics (versão aceita do artigo) — Contested Counting: Toward a Rigorous Estimate of the Death Toll in the Rwandan Genocide (Journal of Genocide Research, 22(1), 2020)
    consultada em 05/10/2026
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