Astronomia
Rosetta no cometa 67P: o Philae tocou o solo três vezes, e a missão achou O2, glicina e um núcleo bilobado
Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026
Assuntos: Sistema Solar
A Rosetta, da ESA, foi a primeira nave a orbitar um cometa e a pousar um módulo nele. Em 12 de novembro de 2014 o Philae tocou o 67P três vezes antes de parar. Em dois anos, os instrumentos mediram oxigênio molecular e glicina no gás, 16 compostos orgânicos no pó e um interior pouco compactado; a forma de dois lobos seria a fusão de dois corpos.
Um cometa tem um núcleo de gelo e poeira; quando se aquece, solta gás e poeira que formam a coma, a nuvem em volta. A Rosetta chegou ao 67P/Churyumov-Gerasimenko em agosto de 2014, pôs o módulo Philae em sua superfície em novembro e acompanhou o cometa até 2016. Dois instrumentos aparecem muito aqui: o ROSINA, um espectrômetro de massa que identifica moléculas do gás pela massa, e o COSAC, que analisou o pó dentro do Philae. A razão entre deutério e hidrogênio na água do 67P, comparada à dos oceanos, já tem artigo próprio, ligado abaixo; este aqui trata da missão, dos toques do Philae e do restante da química e da estrutura.
O pouso errado teve um bônus
Como o Philae quicou, mediu em dois lugares, a mais de 1 km um do outro. Mas o local final recebia só 1,5 h de sol por dia, contra quase 7 h no local previsto, e isso encurtou a ciência.
Como se reconstituíram os três toques
Ninguém viu o Philae quicar: os toques foram deduzidos dos dados dos instrumentos. O magnetômetro ROMAP, o sensor térmico MUPUS e os sensores do trem de pouso registraram o primeiro impacto às 15:34 GMT (hora do cometa) e outros dois às 17:25 e às 17:32. Os arpões não dispararam e o módulo girava, o que mostrava que tinha saído do chão outra vez. Os números de trajetória (cerca de 1 km em 1 h 50 min) eram preliminares em 2014.
Onde o Philae parou e por que a ciência foi curta
No segundo local, Abydos, o módulo ficou inclinado junto a uma parede de gelo e poeira, com pouca luz: cerca de 1,5 h de sol por dia, contra quase 7 h no ponto previsto. A bateria principal, que garantia a ciência central, durou 64 horas até a hibernação, e cerca de 80% da primeira sequência de medidas foi cumprida. O martelo do MUPUS achou poeira com menos de 3 cm sobre uma mistura bem mais dura de poeira e gelo.
O que o gás e o pó contaram
No pó, o COSAC identificou 16 compostos orgânicos, quatro inéditos em cometas. No gás, o ROSINA mediu O2 em média de 3,80% da água e, depois, glicina, metilamina, etilamina e fósforo. Os autores do O2 sugerem origem primordial, o que contraria modelos de formação; os da glicina dizem que cometas poderiam ter contribuído para a origem da vida. São interpretações; o que as medidas provam é a presença dessas moléculas no 67P.
Como sabemos o interior e a forma do cometa
Não se escavou o núcleo: usou-se o rádio. O CONSERT enviou ondas entre o Philae e a Rosetta através do lobo menor, e o modo como se propagaram indica material muito pouco compactado e homogêneo em dezenas de metros. A forma de pato vem de imagens: camadas de até 650 m envolvem cada lobo de modo independente, o que levou Massironi e colegas a propor a fusão de dois corpos. A alternativa, escavação por gás, foi considerada no mesmo estudo.
Como sabemos
Datas, toques e medidas vêm de páginas da ESA e de resumos de artigos revisados; a origem do O2 e da forma bilobada são interpretações dos autores.
- Fato estabelecido: A Rosetta, da Agência Espacial Europeia, foi a primeira nave a orbitar um cometa e a pousar um módulo na superfície dele. [3] Mission facts
Contexto: Missão ESA ao cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko. · Limitações: Afirmação da própria agência; vale como registro de pioneirismo, não como comparação com missões futuras. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Fato estabelecido: A Rosetta foi lançada em 2 de março de 2004, chegou ao cometa em 6 de agosto de 2014, entregou o Philae em 12 de novembro de 2014 e desceu ao cometa em 30 de setembro de 2016, encerrando a missão. [3] Marcos da jornada
Contexto: Cronologia oficial da ESA. · Limitações: Datas da ESA. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Fato estabelecido: Em 12 de novembro de 2014 o Philae tocou a superfície do cometa três vezes (15:34, 17:25 e 17:32 GMT, hora do cometa), e não uma, como se esperava; vários instrumentos registraram os toques. [1] Texto principal
Contexto: Análise preliminar publicada pela ESA dois dias depois do pouso. · Limitações: Dados preliminares de 14/11/2014; análises posteriores refinaram a trajetória. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Fato estabelecido: Os arpões que deveriam fixar o Philae não dispararam, e o módulo girava depois do primeiro toque, sinal de que tinha deixado a superfície de novo. [1] Texto principal
Contexto: Primeiro toque no sítio Agilkia. · Limitações: Descrição preliminar da ESA. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Fato estabelecido: Segundo a análise preliminar de 2014, o Philae ficou 1 h 50 min no ar depois do primeiro toque, percorreu cerca de 1 km a 38 cm/s e fez um salto menor, a cerca de 3 cm/s, até parar sete minutos depois. [1] Texto principal
Contexto: Estimativa inicial de trajetória. · Limitações: Números preliminares; a ESA descreveu em 2015 o voo adicional como de cerca de duas horas, a cerca de 100 m do cometa (a6), grandeza diferente (altura, não distância percorrida; leitura nossa). · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Fato estabelecido: Em 2015, a ESA resumiu que o Philae voou mais cerca de duas horas, a uns 100 m acima do cometa, antes de pousar em Abydos, um segundo local de medidas. [2] Texto principal
Contexto: Resumo dos primeiros artigos científicos do Philae (Science, 31/07/2015). · Limitações: Valor de altura aproximado. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Fato estabelecido: O local final recebia só cerca de 1,5 hora de luz solar por dia, contra quase sete horas por dia de cometa (12,4 h) no local previsto, o que limitou a energia para a ciência. [1] Texto principal
Contexto: Bateria secundária do Philae, carregada por painéis solares. · Limitações: Dado de 14/11/2014. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Fato estabelecido: Cerca de 80% da primeira sequência de ciência do Philae foi cumprida nas 64 horas depois da separação, antes de o módulo entrar em hibernação. [2] Texto principal
Contexto: Contagem da ESA em 2015. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Fato estabelecido: O instrumento COSAC, do Philae, revelou 16 compostos orgânicos no pó levantado no primeiro toque; quatro deles (isocianato de metila, acetona, propionaldeído e acetamida) nunca tinham sido detectados em cometas. [2] Texto principal
Contexto: Amostra de grãos de poeira pobres em gelo, em Agilkia. · Limitações: Medida em um único ponto e em poucos grãos; nomes dos quatro compostos conforme a mesma página. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Fato estabelecido: Em Abydos, o martelo do instrumento MUPUS indicou uma camada de poeira com menos de 3 cm sobre uma mistura compactada, e bem mais dura, de poeira e gelo. [2] Texto principal
Contexto: Resultado local, onde o módulo parou; não descreve o cometa inteiro. · Limitações: Em Agilkia a camada dura pode estar mais funda. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Evidência forte: Ondas de rádio do instrumento CONSERT, que atravessaram o núcleo entre o Philae e a Rosetta, indicaram que o lobo menor é uma mistura de poeira e gelo muito pouco compactada e razoavelmente homogênea em escala de dezenas de metros. [2] Texto principal
Contexto: Lobo menor do 67P. · Limitações: Vale para o lobo menor; o texto da ESA diz "consistente com", o que é inferência a partir da propagação das ondas. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Interpretação: O lobo maior do 67P é envolvido por camadas de até 650 m de espessura, independentes das camadas do lobo menor; os autores concluem que a forma de dois lobos vem da fusão de dois corpos já formados, em colisão lenta. [4] Resumo
Contexto: Análise de imagens da câmera OSIRIS e de vetores de gravidade (Massironi et al., 2015). · Limitações: A alternativa discutida no próprio resumo é uma escavação localizada por liberação de gás na junção dos lobos; o artigo conclui pela fusão, mas é interpretação de estudo único. · Interpretação dos autores, não consenso estabelecido. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Fato estabelecido: O espectrômetro ROSINA, da Rosetta, mediu oxigênio molecular (O2) no gás em volta do 67P, com abundância local de 1% a 10% em relação à água e média de 3,80 ± 0,85%. [5] Resumo
Contexto: Coma do 67P, medida in situ ao longo da missão (Bieler et al., 2015). · Limitações: Medida do gás da coma, não do gelo do núcleo. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Hipótese: Os autores sugerem que esse O2 foi incorporado ao núcleo quando o cometa se formou, o que os modelos de formação do Sistema Solar não previam. [5] Resumo
Contexto: Interpretação de Bieler et al. (2015) a partir da proporção constante de O2 e água. · Limitações: Hipótese dos autores; a origem do O2 em cometas continua em estudo. · Hipótese dos autores sobre a origem; a medida (a13) é firme. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Interpretação: O ROSINA também detectou glicina, o aminoácido mais simples, junto de metilamina e etilamina e de fósforo, no gás do 67P; os autores dizem que isso mostra que cometas podem ter contribuído para a origem da vida na Terra. [6] Resumo
Contexto: Detecção em fase gasosa na coma (Altwegg et al., 2016). · Limitações: A detecção é do aminoácido no gás; que cometas tenham fornecido ingredientes à Terra é possibilidade ("could have"), não demonstração de que o fizeram. · Detecção firme; implicação para a origem da vida é interpretação dos autores. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada
Fontes
- ESA — Three touchdowns for Rosetta's lander
Agência Espacial Europeia (ESA) · 2014-11-14 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 - ESA — Science on the surface of a comet
Agência Espacial Europeia (ESA) · 2015-07-30 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 - ESA — Rosetta factsheet
Agência Espacial Europeia (ESA) · sem data · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 - Nature — Two independent and primitive envelopes of the bilobate nucleus of comet 67P
Massironi, M.; Simioni, E.; Marzari, F. et al. · 2015 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/nature15511 - Nature — Abundant molecular oxygen in the coma of comet 67P/Churyumov-Gerasimenko
Bieler, A.; Altwegg, K.; Balsiger, H. et al. · 2015 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/nature15707 - Science Advances — Prebiotic chemicals - amino acid and phosphorus - in the coma of comet 67P/Churyumov-Gerasimenko
Altwegg, K.; Balsiger, H.; Bar-Nun, A. et al. · 2016 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1126/sciadv.1600285
Histórico de alterações
- Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 18; conferência de trechos automatizada)