Genética

Rosalind Franklin e a Foto 51: o que ela de fato contribuiu para a dupla hélice do DNA

Publicado em 04/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026

Rosalind Franklin, físico-química do King's College de Londres, fez com o aluno Raymond Gosling a Foto 51, imagem de difração de raios X da forma B do DNA, tirada em 1952. Em abril de 1953, a Nature publicou, lado a lado, o artigo de Watson e Crick sobre a dupla hélice e o dela com Gosling. Franklin morreu em 1958, aos 37 anos, quatro anos antes do Nobel de Crick, Watson e Wilkins. Historiadores ainda discutem o peso exato de sua contribuição e do uso de seus dados.

Franklin chegou ao King's College em 1951, vinda de Paris, onde estudava carvão por difração de raios X. Na equipe de John Randall, que tinha Maurice Wilkins como adjunto, ficou com o DNA mais puro. Mostrou que ele existe em duas formas, a A, cristalina, e a B, paracristalina, e que uma se converte na outra conforme a umidade. A Foto 51 é da forma B. No início de 1953, Wilkins a mostrou a Watson. Pouco depois, um relatório do grupo, com dados dela, chegou a Watson e Crick por meio de Max Perutz. A versão popular diz que ela foi vítima de um roubo e não entendeu o que tinha. Uma análise de 2023 na Nature, baseada nos arquivos dela, concluiu que Franklin foi uma contribuidora igual, embora seus dados tenham sido usados sem permissão.

Depois do DNA, os vírus

Em 1953 Franklin foi para o Birkbeck College, onde, em cinco anos, obteve padrões de difração do vírus do mosaico do tabaco com detalhe e nitidez inéditos e avançou na determinação de sua estrutura. Nesse período, trocou cartas com Watson e Crick, que também estudavam estruturas de vírus.

Do carvão ao DNA

Franklin usava difração de raios X para estudar carvão em Paris quando, em 1951, entrou no grupo de John Randall, no King's College. Wilkins, adjunto de Randall, e ela entraram em conflito de temperamento e de método, e Randall dividiu o trabalho: ela ficou com o DNA muito puro. Com ele, separou as formas A e B, mostrou que uma vira a outra com a umidade e concentrou-se na A, de padrões nítidos, por ser a mais adequada a um físico-químico.

O que a Foto 51 mostrava

A Foto 51, da forma B, foi tirada por Franklin e Gosling cerca de oito meses antes do início de 1953. Na versão de Watson, em A Dupla Hélice, ao vê-la ele entendeu de imediato que o DNA era uma hélice. A análise de 2023 observa que ninguém duvidava que a forma B fosse algum tipo de hélice, e que uma única imagem não permite deduzir a estrutura exata. O que impressionou Watson foi o momento: poucos dias antes, o grupo de Cambridge recebera um manuscrito de Linus Pauling, que alegava ter resolvido o DNA mas tinha erros elementares.

Os dados que contaram

Mais importante, segundo Cobb e Comfort, foi um relatório do grupo do King's College para o Conselho de Pesquisa Médica, que Perutz passou a Watson e Crick e que trazia dados de Franklin: a repetição de 34 ångströms da forma B e a simetria C2 da forma A, que implica um número par de fitas em sentidos opostos. Watson e Crick montaram o modelo por tentativa e erro e depois usaram esses dados para confirmá-lo. Em 1954, reconheceram que, sem eles, sua estrutura teria sido muito improvável.

O que ela viu e o que ficou de fora

Em fevereiro de 1953, as anotações de Franklin mostram que ela aceitava que a forma A era provavelmente helicoidal, de duas fitas, e percebera que qualquer sequência de bases era possível, ideia que Watson e Crick também alcançaram. Ela não chegou ao emparelhamento A-T e C-G, nem à orientação oposta das fitas, e não teve tempo: foi para o Birkbeck e, nos anos seguintes, estudou vírus, até morrer, em 1958, aos 37 anos. O Nobel de 1962 foi para Crick, Watson e Wilkins.

Como sabemos

Os fatos básicos (datas, artigos, Nobel) são bem documentados, mas o peso da contribuição de Franklin e do uso de seus dados ainda é tema de debate entre historiadores, e a análise principal é de 2023.

Em debate: Duas narrativas populares disputam a história: a de que Watson e Crick roubaram os dados de Franklin e ela não entendia o que tinha, e a de que ela foi apenas uma vítima. A análise de Cobb e Comfort (Nature, 2023) argumenta que Franklin foi uma contribuidora igual, que seus dados foram usados sem permissão apenas para confirmar um modelo obtido pela dupla por tentativa e erro, e que a Foto 51 teve pouco peso na construção do modelo. Outros historiadores atribuem mais peso aos dados dela.

Em debate: Se Franklin sabia que Gosling entregara a Foto 51 a Wilkins é contestado: a versão de Watson sugere que não, e Gosling afirma que sim.

Em debate: A Foto 51 é tratada como símbolo da injustiça com Franklin, mas, segundo a mesma análise, a imagem mostrava que a forma B era provavelmente uma hélice, algo que ninguém duvidava; dados como a repetição de 34 ångströms e a simetria C2 eram mais relevantes.

Fontes

  1. Nature — What Rosalind Franklin truly contributed to the discovery of DNA's structure
    consultada em 04/10/2026
  2. Isis, The University of Chicago Press — After the double helix: Rosalind Franklin's research on Tobacco mosaic virus
    consultada em 04/10/2026
  3. Nobel Foundation — The Nobel Prize in Physiology or Medicine 1962
    consultada em 04/10/2026
  4. Nature — Molecular configuration in sodium thymonucleate
    consultada em 04/10/2026
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