Botânica

Roridula: as presas são comidas por um percevejo, e a planta absorve o nitrogênio que ele excreta

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

A Roridula prende insetos numa resina pegajosa, mas não produz enzimas digestivas detectáveis. Quem consome as presas é o percevejo Pameridea, que vive na planta sem se colar. Em experimentos com moscas marcadas com nitrogênio-15, as folhas ficaram bem mais enriquecidas quando os percevejos estavam presentes: o nitrogênio chega à planta, ao que tudo indica, pelas fezes deles.

Uma planta carnívora, em geral, atrai, captura, digere e absorve presas. A Roridula, arbusto de brejos de montanha do sul da África do Sul, captura, mas não digere: as folhas trazem tentáculos com uma resina pegajosa, e nenhuma enzima proteolítica foi detectada. Por isso Darwin a julgou carnívora, e outros autores mais tarde a deixaram fora do grupo. A saída está num percevejo da família Miridae, Pameridea roridulae, encontrado só nessa planta: ele anda sobre a resina, suga os fluidos das presas capturadas e deixa fezes nas folhas. Nitrogênio-15 é uma forma rara e mais pesada do elemento, usada como rótulo para seguir o caminho do nitrogênio do inseto até a planta.

Uma parceria que pode pesar demais

Na Roridula dentata, em estufa, plantas sem percevejos tiveram crescimento negativo, as de densidade intermediária cresceram, e as de densidade muito alta voltaram a crescer negativamente: o percevejo também suga a seiva da planta.

Uma armadilha que não digere

A secreção da Roridula é uma resina, composta sobretudo de triterpenoides, que não se dissolve na água e continua a aderir mesmo debaixo d'água. Os testes de 1994 mostraram o que ela não faz: o filme fotográfico de gelatina, que as enzimas da Drosera capensis desfizeram, não mostrou sinal de digestão sob as folhas da Roridula. Em oito semanas do fim do inverno, as folhas prenderam sobretudo moscas, 77% das presas maiores que 2 mm. Havia captura e não havia enzima: a conta só fechava se outro organismo fizesse a digestão.

Como sabemos que o nitrogênio passa pelo percevejo

Ellis criou moscas alimentadas com levedura marcada com nitrogênio-15 e as ofereceu a plantas em três tratamentos: com percevejos, sem percevejos (retirados à mão, com uma barreira no caule) e com moscas sem marca. Depois de 72 horas, as folhas com percevejos estavam mais enriquecidas (0,44% contra 0,08% de excesso atômico). Num teste à parte, os percevejos comeram as moscas marcadas longe da planta, e as folhas ficaram enriquecidas mesmo assim. Limites: n=4 por grupo, uma população, exclusão incompleta e o teste final com uma só planta.

Por que a folha consegue absorver

Folhas comuns são cobertas por uma cutícula que barra a entrada de substâncias dissolvidas. Na Roridula, a cutícula mede de 0 a 120 nm, e nas folhas maduras há lacunas e poros. Em dois minutos, as folhas maduras absorveram o vermelho-neutro, ao passo que as imaturas e as de plantas vizinhas não carnívoras não o fizeram. É um indício coerente com a absorção do que o percevejo deposita na folha, mas não a mede: o autor trata a adaptação como hipótese.

Uma parceria com custos

O arranjo não é de mão única. Em Roridula dentata, a digestão indireta respondeu por cerca de 70% do nitrogênio da planta quando as aranhas eram poucas; as aranhas, que se aproveitam das presas sem dar nada em troca, reduzem os percevejos e a eficiência da via em até 30%. Em estufa, o crescimento foi negativo sem percevejos e também com densidade muito alta, pois o percevejo suga a seiva. Os dados quantitativos mais recentes vêm da R. dentata, não da R. gorgonias.

Como sabemos

O experimento central vem de uma tese de graduação de 1994 (n=4 por tratamento, teste da via das fezes com n=1); os estudos de 2002, 2007 e 2008 foram lidos só no resumo, e os de 2002 e 2007 tratam de Roridula dentata.

Fontes

  1. University of Cape Town (Botany Honours) — Indirect carnivory in Roridula gorgonias (Roridulaceae); a carnivorous plant dependent on hemipterans for prey nutrient uptake
    Ellis, A. G. · 1994 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  2. Annals of Botany — Adaptations to foliar absorption of faeces: a pathway in plant carnivory
    Anderson, B. · 2005 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1093/aob/mci082
  3. Oecologia — It takes two to tango but three is a tangle: mutualists and cheaters on the carnivorous plant Roridula
    Anderson, B.; Midgley, J. · 2002 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1007/s00442-002-0998-1
  4. Oecologia — Density-dependent outcomes in a digestive mutualism between carnivorous Roridula plants and their associated hemipterans
    Anderson, B.; Midgley, J. J. · 2007 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1007/s00442-006-0640-8
  5. Journal of Experimental Biology — An insect trap as habitat: cohesion-failure mechanism prevents adhesion of Pameridea roridulae bugs to the sticky surface of the plant Roridula gorgonias
    Voigt, D.; Gorb, S. · 2008 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1242/jeb.019273
  6. Interface Focus — A universal glue: underwater adhesion of the secretion of the carnivorous flypaper plant Roridula gorgonias
    Voigt, D.; Konrad, W.; Gorb, S. · 2015 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rsfs.2014.0053
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 10; conferência de trechos automatizada)

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