Ciências da Terra

Como minerais magnetizados em rochas revelam a posição de um continente no passado

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Tectônica de placas

Ao esfriar, minerais como a magnetita fixam a direção do campo magnético da época. Como num dipolo a inclinação depende só da latitude (tan I = 2 tan λ), a rocha informa a latitude em que se formou. Polos calculados de rochas de idades diferentes desenham uma trajetória; se as de continentes distintos divergem, foram os continentes que se moveram.

Algumas rochas, sobretudo lavas, guardam uma magnetização remanente: ao esfriar, grãos de minerais magnéticos como a magnetita travam a direção do campo da Terra naquele momento. Medida a direção (declinação e inclinação), calcula-se o polo geomagnético virtual, o polo que um ímã central produziria. A média de muitos desses polos, que elimina oscilações de curto prazo, é o polo paleomagnético. Em escalas acima de cerca de 10 mil anos o campo equivale a um dipolo alinhado ao eixo de rotação, e a inclinação mede a latitude. Isso dá a cada continente uma trajetória própria de polos ao longo do tempo.

A rocha dá a latitude, não a longitude

A inclinação mede a distância até o polo, não o lado do globo: um bloco pode estar na mesma latitude em longitudes diferentes. Por isso o paleomagnetismo sozinho deixa a paleolongitude ambígua e precisa de outros dados.

O que a rocha guarda

Uma lava recém-derramada está quente demais para ter magnetização. Ao esfriar abaixo da temperatura de Curie, seus minerais magnéticos passam a ser ferromagnéticos, mas ainda seguem o campo; só abaixo da temperatura de bloqueio os momentos magnéticos ficam fixos. Essa magnetização remanente térmica preserva a direção do campo naquele momento. O fenômeno é conhecido há muito: Delesse (1849) e Melloni (1853) mostraram que certas rochas estão magnetizadas na direção do campo terrestre.

Da inclinação à latitude

O campo médio se comporta como um dipolo no centro da Terra, alinhado ao eixo de rotação. Nele, as linhas de campo mergulham mais fortemente quanto mais perto do polo: tan I = 2 tan λ. Rochas com inclinação de 30° se formaram perto de 16° de latitude, e rochas com 63° perto de 45°. Esse é o resultado nosso da conta com a fórmula; os exemplos servem para ver o tamanho do efeito. Com a idade da rocha, tem-se onde ela estava, em latitude, em cada época.

Como sabemos que o sinal é confiável

Uma rocha sozinha pode ter registrado um desvio momentâneo do campo, ou ter sido remagnetizada depois. Para contornar isso, amostram-se muitas unidades para tirar a média da variação secular, e aplicam-se testes de campo: o teste de dobra compara a coerência das direções antes e depois de desdobrar as camadas, e o do contato cozido confere se a rocha aquecida por uma intrusão ganhou a direção desta. Compilações como a de Besse e Courtillot (2002) só aceitam polos que passam nesses testes. Sedimentos pedem cuidado extra, porque a inclinação pode ficar achatada, o que subestima a latitude.

Comparar continentes, e onde o método para

Plotados no mapa, os polos de um continente descrevem uma curva de deriva polar aparente. Sozinha, ela não distingue continente móvel de polo errante; várias placas, sim. O método tem limites: dá a latitude, mas a longitude e a polaridade podem ser ambíguas, e antes de cerca de 200 milhões de anos as reconstruções dependem dos próprios dados paleomagnéticos. Na Pangeia do Paleozoico tardio (A × B) o debate segue, e estudos como o de La Pampa, na Argentina, tentam resolvê-lo. A história da aceitação do movimento dos continentes está em outro artigo.

Como sabemos

Mecanismo e método estão bem sustentados por um livro de referência aberto e um artigo de revisão técnica, mas o caso histórico específico Europa–América do Norte não foi lido em fonte primária.

Em debate: A configuração da Pangeia no Paleozoico tardio (Pangeia A × Pangeia B) é debatida entre paleomagnetistas; o assunto central do artigo, a inferência de movimento continental a partir de polos paleomagnéticos de várias placas, não é controverso.

Fontes

  1. Scripps Institution of Oceanography (EarthRef.org / University of California Press) — Essentials of Paleomagnetism: Fifth Web Edition
    Tauxe, L.; Banerjee, S. K.; Butler, R. F.; van der Voo, R. · 2021 · Livro ou obra de referência · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  2. PLoS ONE — A Paleolatitude Calculator for Paleoclimate Studies
    van Hinsbergen, D. J. J.; de Groot, L. V.; van Schaik, S. J.; Spakman, W.; Bijl, P. K.; Sluijs, A.; Langereis, C. G.; Brinkhuis, H. · 2015 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0126946
  3. Scientific Reports — Gondwana's Apparent Polar Wander Path during the Permian-new insights from South America
    Tomezzoli, R. N.; Tickyj, H.; Rapalini, A. E.; Gallo, L. C.; Cristallini, E. O.; Arzadún, G.; Chemale Jr., F. · 2018 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41598-018-25873-z
  4. U.S. Geological Survey — This Dynamic Earth: Developing the theory
    Kious, W. J.; Tilling, R. I. · 1996 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 2 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 2; conferência de trechos automatizada)
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 2; conferência de trechos automatizada)

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