Ciências da Terra

Rochas que atravessam o Atlântico: como uma zona de cisalhamento de 6.000 km liga o Brasil à África

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Tectônica de placas

Uma zona de cisalhamento de cerca de 6.000 km, o sistema Transbrasiliano–Kandi, cruza o Brasil do Nordeste ao Paraguai e reaparece no oeste da África quando os continentes são recolocados na posição anterior ao Atlântico. Anomalias magnéticas medidas por satélite e por aeronaves seguem a mesma linha. É essa continuidade de rochas e estruturas, e não só o encaixe das costas, que indica que os dois continentes formavam um bloco.

Zona de cisalhamento é uma faixa profunda da crosta em que blocos deslizam lateralmente e as rochas se deformam sem quebrar, como massa esticada. O Transbrasiliano–Kandi está ligado à orogenia Brasiliana–Pan-Africana (configuração final há cerca de 625 a 510 milhões de anos), que ajudou a montar o Gondwana Ocidental. Isso é muito anterior à abertura do Atlântico Sul, que cortou a estrutura ao meio e é tratada em outro post. Por isso a prova é de montagem de peças: com as costas recolocadas lado a lado, cinturões, falhas, idades e anomalias de campo magnético e de gravidade coincidem. O que o mesossauro mostra para os seres vivos, essas rochas mostram para a própria crosta.

O nome é brasileiro, o trecho africano veio depois

Schobbenhaus batizou o lineamento Transbrasiliano em 1975, ao compilar o mapa tectônico do Brasil. Que ele prossegue na África, de Togo à Argélia, foi mostrado por trabalhos de outros autores sobre a geologia africana, citados na revisão de 2013.

Como sabemos: idade, não só forma

O encaixe das costas sugere união, mas é só geometria. As rochas permitem um teste independente: se Brasil e África eram um bloco, regiões de mesma idade e história devem cair em frente uma da outra na reconstrução. Segundo Caxito e colegas, Hurley e colegas fizeram essa comparação em 1967 e viram províncias de idade equivalentes. A força do argumento vem de várias linhas somadas (idades, estruturas e geofísica) apontando para o mesmo arranjo.

Como sabemos: seguir uma falha sob cobertura

Parte do lineamento está sob rochas sedimentares, como as da bacia do Parnaíba, e só aparece em medições indiretas. O satélite CHAMP e os mosaicos aeromagnéticos registram faixas lineares de anomalia magnética; a gravimetria acrescenta anomalias alongadas na mesma direção. Segundo Cordani e colegas, esses dados marcam a coerência do lineamento. O limite é que anomalia mostra onde há contraste de rocha, não a idade nem a origem do contraste.

Um segundo traço, no norte do cráton São Francisco

Além do corredor oeste, o norte do cráton São Francisco tem cinturões que se prolongam na África (descritos no post sobre os crátons). Aqui entra a prova de oceano: restos de litosfera oceânica foram achados em Riacho do Pontal e Yaoundé. Um estudo de 2021 propõe que o São Francisco foi afastado de sua outra metade, o escudo Benino-Nigeriano, por extensão no Neoproterozoico, antes de a colisão juntar tudo de novo.

O que ainda se discute

As margens estão bem amarradas; o interior, não. Na Borborema, no escudo Benino-Nigeriano e em Camarões as rochas foram muito retrabalhadas e a correlação exige mais trabalho. Há também a hipótese de a Borborema ser o retrabalho de um único bloco estável desde cerca de 2,0 bilhões de anos. E a configuração final do corredor (625 a 510 Ma) é bem anterior ao rifte que abriu o Atlântico, há cerca de 140 Ma, que apenas o cortou.

Como sabemos

A existência do corredor e a coincidência dos cinturões vêm de revisões abertas e lidas por inteiro; o estudo de 1967 e o de Fairhead e Maus (2003) só entram por citação, e o interior das províncias segue em debate.

Em debate: Origem e correlação do interior da Borborema

Fontes

  1. Brazilian Journal of Geology (Sociedade Brasileira de Geologia) — The significance of the Transbrasiliano-Kandi tectonic corridor for the amalgamation of West Gondwana
    Cordani, U. G.; Pimentel, M. M.; Araújo, C. E. G.; Fuck, R. A. · 2013 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.5327/Z2317-48892013000300012
  2. Brazilian Journal of Geology (Sociedade Brasileira de Geologia) — Toward an integrated model of geological evolution for NE Brazil-NW Africa: The Borborema Province and its connections to the Trans-Saharan (Benino-Nigerian and Tuareg shields) and Central African orogens
    Caxito, F. A.; Santos, L. C. M. L.; Ganade, C. E.; Bendaoud, A.; Fettous, E.-H.; Bouyo, M. H. · 2020 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1590/2317-4889202020190122
  3. Scientific Reports (Springer Nature) — Decratonization by rifting enables orogenic reworking and transcurrent dispersal of old terranes in NE Brazil
    Ganade, C. E.; Weinberg, R. F.; Caxito, F. A.; Lopes, L. B. L.; Tesser, L. R.; Costa, I. S. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41598-021-84703-x
  4. Scientific Reports (Springer Nature) — The role of V-shaped oceans and ribbon continents in the Brasiliano/PanAfrican assembly of western Gondwana
    Caxito, F. A.; Alkmim, F. F. · 2023 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41598-023-28717-7
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 10; conferência de trechos automatizada)

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