Geografia

O rio Congo passa de 200 metros de profundidade, considerada a maior já medida num rio

Publicado em 04/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026

Em julho de 2008, uma equipe do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) mediu com sonar e perfiladores acústicos o baixo Congo, abaixo do Pool Malebo, e encontrou profundidades acima de 200 metros e correntes de mais de 4 m/s. É o trecho em que toda a água de uma bacia de cerca de 3,8 milhões de km², um oitavo da África, passa espremida por um canal rochoso, estreito e cheio de corredeiras, rumo ao Atlântico.

O Congo é o segundo rio do mundo em vazão, atrás só do Amazonas: despeja no Atlântico, em média, cerca de 40 mil m³ de água por segundo. Sua bacia se estende por nove países, a maior parte na República Democrática do Congo. Antes de chegar ao trecho das corredeiras, o rio se alarga no Pool Malebo, um lago fluvial de cerca de 30 km de diâmetro em cujas margens opostas ficam Kinshasa e Brazzaville. Logo abaixo, o leito se estreita. Da primeira corredeira, perto de Kinshasa, até a última, acima de Matadi, são cerca de 350 km. Nesse percurso, a água desce em degraus sobre rocha, e o fundo se abre em cânions submersos. Os pesquisadores do USGS mediram, perto de Luozi, uma vazão de 35.800 m³/s e notaram que a rocha do leito controla a forma do fluxo mesmo onde não há cachoeiras visíveis.

Um peixe cego no fundo do rio

A bacia do Congo tem a maior riqueza de peixes de todos os rios africanos, com cerca de 700 espécies descritas. No baixo Congo vive Lamprologus lethops, o único ciclídeo conhecido sem olhos visíveis e sem pigmentação, características típicas de peixes de caverna. Acredita-se que ele habite as partes mais fundas do rio.

Medir um rio que não se deixa medir

O baixo Congo é um trecho difícil de navegar, com correntes fortes e corredeiras. Até 2008, não havia medições diretas da vazão abaixo do Pool Malebo. Naquele julho, pesquisadores do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) percorreram o rio com perfiladores acústicos Doppler, que medem a velocidade da água em toda a coluna, ecobatímetros, que medem a profundidade pelo eco do som, e GPS diferencial para posicionar cada medida. O resultado foi o primeiro retrato detalhado do leito: profundidades acima de 200 metros e velocidades de mais de 4 m/s. Perto de Luozi, a vazão medida foi de 35.800 m³/s.

Um canal de rocha

O baixo Congo não é um rio de planície. Da primeira corredeira, perto de Kinshasa, até a última, acima de Matadi, são cerca de 350 km de um trecho geologicamente jovem, em que a água desce sobre rocha. Segundo o USGS, o rio desce cerca de 270 metros ao longo de 498 km antes de chegar ao Atlântico. A rocha do leito comanda o fluxo mesmo onde não há cachoeiras visíveis, e no trecho de Bulu as estruturas turbulentas podem ocupar toda a coluna de água, de até 165 m. Num canal estreito, a mesma vazão que se espalharia numa planície precisa passar por uma seção menor, e por isso a água corre rápido e escava fundo.

A segunda maior vazão do planeta

Em volume de água, o Congo só perde para o Amazonas. A vazão média é estimada em cerca de 40 mil m³/s, e a NASA descreve uma descarga de 35 mil a 40 mil m³/s na altura do Pool Malebo. Essa água vem de uma bacia de cerca de 3,8 milhões de km², o equivalente a um oitavo da África, que se estende por nove países, a maior parte na República Democrática do Congo. No Pool Malebo, um alargamento de uns 30 km de diâmetro, o rio separa duas capitais: Kinshasa, na margem sul, e Brazzaville, na margem norte. Logo depois, o rio se estreita e entra nas corredeiras.

Um laboratório de evolução

A bacia do Congo tem a maior diversidade de peixes de todos os rios africanos, com cerca de 700 espécies descritas. As corredeiras do baixo Congo funcionam como barreiras: populações separadas por trechos de água violenta deixam de se cruzar e podem se diferenciar. Estudos genéticos sugerem que os ciclídeos desse trecho se diversificaram em cerca de 5 milhões de anos, e várias espécies só existem ali. O caso mais estranho é Lamprologus lethops, um ciclídeo sem olhos visíveis e sem pigmento, como os peixes de caverna, num rio que não tem cavernas. Os pesquisadores presumem que ele viva nas partes mais fundas do canal, onde a luz não chega.

O que o recorde significa

Chamar o Congo de rio mais profundo do mundo é uma conclusão apoiada nas medições de 2008, mas com uma ressalva: poucos grandes rios foram sondados com o mesmo detalhe, e um recorde só vale para o que foi medido. As profundidades citadas também variam. O USGS registra 'acima de 200 m'; a reportagem da Smithsonian de 2009 descreve um ponto de cerca de 195 m (640 pés); outras fontes falam em 220 m. Em qualquer dessas versões, o fundo do baixo Congo está muito abaixo do da maioria dos grandes rios e mais perto da escala dos cânions submarinos.

Como sabemos

As medidas de profundidade, velocidade e vazão vêm de publicações do próprio USGS e de periódicos científicos; o único ponto de cautela é o recorde mundial, que depende de comparações com rios menos estudados.

Em debate: O título de 'rio mais profundo do mundo' depende das medições disponíveis: o baixo Congo foi sondado em detalhe em 2008, mas poucos outros grandes rios receberam levantamento equivalente. Os valores citados para a profundidade máxima variam entre fontes (de cerca de 195 m a 220 m); o USGS registra 'acima de 200 m'.

Em debate: A área da bacia do Congo aparece entre 3,7 e 3,8 milhões de km² conforme a fonte e o método de delimitação, e a vazão média também varia conforme o período e o ponto de medição.

Fontes

  1. U.S. Geological Survey — Discharge and other hydraulic measurements for characterizing the hydraulics of Lower Congo River, July 2008
    consultada em 03/10/2026
  2. U.S. Geological Survey (Publications Warehouse) — Velocity mapping in the Lower Congo River: A first look at the unique bathymetry and hydrodynamics of Bulu Reach
    consultada em 03/10/2026
  3. PLOS ONE — Time and origin of cichlid colonization of the Lower Congo rapids
    consultada em 03/10/2026
  4. Copernicus Marine Service (União Europeia) — Monitoring the Congo river discharge – Africa continent
    consultada em 03/10/2026
  5. Ocean Science (European Geosciences Union) — River discharge impacts coastal southeastern tropical Atlantic sea surface temperature and circulation: a model-based analysis
    consultada em 03/10/2026
  6. NASA Earth Observatory — Kinshasa and Brazzaville
    consultada em 03/10/2026
  7. Smithsonian Magazine (Smithsonian Institution) — Evolution in the Deepest River in the World
    consultada em 03/10/2026
  8. Mitochondrial DNA Part B (via PubMed Central) — Novel complete mitochondrial genomes of eight riverine Lamprologus species (Actinopterygii, Cichlidae) suggest in-situ speciation of the blind cichlid L. lethops in the lower Congo River
    consultada em 03/10/2026
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