Zoologia

Riftia, o verme-tubo de até 1,5 m sem boca nem sistema digestivo que vive do sulfeto e de bactérias

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Mar profundo

Riftia pachyptila, verme-tubo das fontes hidrotermais do Pacífico Leste, não tem boca nem sistema digestivo. No trofossomo, órgão que ocupa a maior parte do corpo, vivem bactérias que oxidam sulfeto de hidrogênio e usam a energia para fixar carbono. O verme leva sulfeto e oxigênio a elas pelo sangue, com hemoglobinas que ligam os dois gases, e se nutre dos simbiontes, que em parte digere.

Em fontes hidrotermais, onde a luz do Sol não chega, a base da cadeia alimentar é a quimiossíntese: bactérias obtêm energia de reações químicas, como a oxidação do sulfeto de hidrogênio, e a usam para transformar CO2 em matéria orgânica (o processo geral tem artigo próprio). Riftia pachyptila é um verme-tubo do grupo dos vestimentíferos que vive em águas ricas em sulfeto. Simbiose, aqui, é a vida em associação de um animal com microrganismos; endossimbionte é o que vive dentro das células do hospedeiro. Em Riftia a associação é obrigatória para o adulto: sem o sistema digestivo, o animal não come, e a comida vem de bactérias hospedadas no trofossomo. A comunidade em que o verme foi achado, em 1977, já tem artigo no WikiMundi; aqui o assunto é como ele se alimenta.

A cor do trofossomo conta como está a simbiose

Trofossomo com muito enxofre estocado é amarelo-claro. Quando falta sulfeto no ambiente, o enxofre guardado é consumido e o tecido escurece. Por isso a cor do órgão serve de indicador do estado energético da simbiose.

O que ocupa o lugar do intestino

O trofossomo é um órgão especializado que ocupa a maior parte da cavidade do corpo, e suas células, os bacteriócitos, abrigam densamente a bactéria 'Candidatus Endoriftia persephone'. A bactéria oxida compostos reduzidos, sobretudo sulfeto de hidrogênio, e usa a energia para fixar carbono. O verme, sem boca, não captura alimento: fornece à bactéria o que ela precisa e se nutre dela. Uma das vias é a digestão de parte dos próprios simbiontes pelas células do hospedeiro.

Como o sulfeto e o oxigênio chegam às bactérias

As bactérias vivem dentro do corpo e não têm contato com a água; tudo o que consomem e eliminam passa pelo hospedeiro. A pluma vermelha, rica em vasos, faz as trocas gasosas, e o sangue leva o que ela capta. As hemoglobinas extracelulares do verme ligam sulfeto e oxigênio de forma reversível. Segundo os autores do estudo de 2019, isso entrega os dois às bactérias e, ao mesmo tempo, evita a oxidação espontânea do sulfeto e protege simbiontes sensíveis a oxigênio em excesso. Esta última parte é interpretação deles, não medida direta.

Como sabemos que o verme vive das bactérias

Em 1981, dois trabalhos na revista Science deram as primeiras evidências: Cavanaugh e colegas, por histologia e enzimas, sugeriram que o verme abriga procariontes quimioautotróficos; Felbeck mostrou que o trofossomo, e não o músculo, tem enzimas de ganho de energia a partir de enxofre e de fixação de CO2. Em 2019, a metaproteômica (identificação em massa das proteínas de hospedeiro e bactéria) mostrou que globinas somam cerca de um terço das proteínas do hospedeiro no trofossomo. O limite: essas medidas indicam o que o verme investe, e não quantificam o fluxo de nutrientes.

Crescimento e ciclo de vida

Segundo o artigo de Hinzke e colegas, que cita estudos anteriores, Riftia cresce mais de 85 cm de tubo por ano e chega a 1,5 m de corpo. A larva não nasce com simbiontes e, em vermes-tubo vestimentíferos, tem um sistema digestivo transitório que desaparece no desenvolvimento. Segundo um modelo de 2006, as bactérias colonizam o tubo da larva fixada e entram pela pele, e o trofossomo se forma a partir de tecido mesodérmico. Cada geração, portanto, adquire seus simbiontes do ambiente.

Como sabemos

O núcleo (sem sistema digestivo, simbiose quimioautotrófica, transporte por hemoglobinas) está em texto integral; ciclo de vida e artigos de 1981-83 foram lidos só pelo resumo.

Fontes

  1. mBio — Host-Microbe Interactions in the Chemosynthetic Riftia pachyptila Symbiosis
    Hinzke, T. et al. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1128/mBio.02243-19
  2. eLife — Bacterial symbiont subpopulations have different roles in a deep-sea symbiosis
    Hinzke, T. et al. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.7554/eLife.58371
  3. Science — Chemoautotrophic Potential of the Hydrothermal Vent Tube Worm, Riftia pachyptila Jones (Vestimentifera)
    Felbeck, H. · 1981 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026
  4. Science — Prokaryotic Cells in the Hydrothermal Vent Tube Worm Riftia pachyptila Jones: Possible Chemoautotrophic Symbionts
    Cavanaugh, C. M. et al. · 1981 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/science.213.4505.340
  5. Science — Sulfide Binding by the Blood of the Hydrothermal Vent Tube Worm Riftia pachyptila
    Arp, A. J.; Childress, J. J. · 1983 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026
  6. Nature — Horizontal endosymbiont transmission in hydrothermal vent tubeworms
    Nussbaumer, A. D.; Fisher, C. R.; Bright, M. · 2006 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/nature04793
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 4; conferência de trechos automatizada)

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