Fenômenos naturais

Richardson, 1922: a previsão feita à mão que deu 145 hPa em 6 horas e o que o erro ensinou

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Em 1922, Lewis Fry Richardson calculou à mão, com as equações da atmosfera, como a pressão mudaria em 6 horas num ponto da Europa central. Saiu um aumento de 145 hPa, quando o barômetro estava quase estável. A aritmética estava certa; o erro vinha dos dados iniciais, em que vento e pressão não estavam em equilíbrio, o que gerou ondas de gravidade espúrias. Corrigido esse desequilíbrio, a previsão numérica funcionou em 1950, no ENIAC.

No início do século XX, prever o tempo era sobretudo comparar o mapa do dia com mapas antigos parecidos. Richardson propôs outra via: tratar a atmosfera como um problema de física. Pressão, vento e outras grandezas são tabeladas em pontos de uma grade (latitude, longitude e altura), e uma regra aritmética calcula como esses números mudam num intervalo de tempo; repetindo o passo, avança-se para o futuro. É o princípio dos modelos atuais, explicado em outro artigo do WikiMundi. O exemplo trabalhado em seu livro foi só o primeiro passo desse processo: a tendência da pressão à superfície, medida em hPa (hectopascal, unidade usual de pressão atmosférica). Como o valor saiu irreal, o caso virou um dos exemplos mais estudados de por que um cálculo correto pode dar um resultado absurdo.

Uma 'fábrica de previsão' de 64.000 pessoas

Richardson imaginou um grande salão em que 'computadores' humanos, cada um responsável por uma região do mapa, calculariam o tempo em coordenação. Estimou que seriam necessárias 64.000 pessoas para acompanhar o ritmo da atmosfera.

O que Richardson calculou

Richardson começou o trabalho em 1913, no Observatório de Eskdalemuir, na Escócia, e o publicou em 1922. Com as observações mais completas que encontrou, aplicou seu método a dois pontos da Europa central e registrou tudo em 23 formulários. O resultado de interesse era a tendência da pressão à superfície nas 6 horas seguintes: 145 hPa, quando o barômetro estava quase estável. Ele chamou o resultado de 'dedução bastante correta a partir de uma distribuição inicial algo anormal'.

Por que o resultado saiu absurdo

Os dados de vento e de pressão que ele usou não estavam em equilíbrio entre si. Esse desequilíbrio gera ondas de gravidade: oscilações rápidas de pressão e vento com que a atmosfera restaura o equilíbrio. Elas fazem a pressão variar muito, mas ora para cima, ora para baixo. Richardson tomou a taxa instantânea de variação e a estendeu por 6 horas, como se fosse constante. Além disso, a pressão depende da divergência do vento, um resíduo pequeno de termos grandes que quase se cancelam, e portanto muito sensível a erro.

Como sabemos o que deu errado

A prova veio décadas depois, por reconstrução: um modelo com as equações e a grade de Richardson, rodado com os dados dele, devolveu praticamente os mesmos valores, inclusive os 145 hPa. Depois de um filtro digital sobre os dados iniciais, a tendência ficou abaixo de 1 hPa em 6 horas. O limite é que a reconstrução é de um único autor e omite processos físicos menores; o diagnóstico, porém, concorda com o que o próprio Richardson suspeitava (dados iniciais mal representados).

Do erro à primeira previsão numérica, em 1950

O grupo de Princeton conhecia o fracasso de Richardson e buscou dois caminhos: corrigir os dados (inicialização) ou simplificar as equações para eliminar as ondas de gravidade (filtragem). Charney seguiu o segundo e chegou ao sistema quase-geostrófico; o caso mais simples, a equação da vorticidade barotrópica, rodou no ENIAC em 1950. Quatro previsões de 24 horas ficaram razoavelmente próximas do observado, mas cada uma exigiu cerca de 24 horas de cálculo. Richardson viu o resultado e o chamou de enorme avanço.

Como sabemos

Cronologia e diagnóstico do erro confirmados em texto integral de Lynch (2008), na palestra de Lynch (2004), no artigo original de 1950 e em biografia institucional.

Fontes

  1. Journal of Computational Physics, 227(7), 3431-3444 — The origins of computer weather prediction and climate modeling
    Lynch, P. · 2008 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1016/j.jcp.2007.02.034
  2. Symposium on the 50th Anniversary of Operational Numerical Weather Prediction (NOAA/Universidade de Maryland), apresentação de Met Éireann — Richardson's Forecast: What Went Wrong?
    Lynch, P. · 2004 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  3. Tellus, 2(4), 237-254 (Institute for Advanced Study, Princeton) — Numerical Integration of the Barotropic Vorticity Equation
    Charney, J. G.; Fjörtoft, R.; von Neumann, J. · 1950 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3402/tellusa.v2i4.8607
  4. Universidade de St Andrews (MacTutor) — Lewis Fry Richardson (biografia)
    O'Connor, J. J.; Robertson, E. F. · MacTutor History of Mathematics · Livro ou obra de referência · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 14; conferência de trechos automatizada)

Encontrou um erro? Avise o WikiMundi · Como verificamos