Botânica

Restinga: como plantas vivem em areia pobre e quente, e o que a liga à Mata Atlântica

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Os seis biomas do Brasil

Restingas são mosaicos de vegetação sobre planícies de areia depositadas pelo mar. Num par de áreas do norte fluminense, a 40 km uma da outra, o solo da restinga tinha 0,85% de carbono, contra 2,98% na floresta vizinha. Muitas plantas só se instalam à sombra de poucas espécies "enfermeiras", como a Clusia e as bromélias, que na Mata Atlântica costumam viver sobre outras árvores.

Restinga é o conjunto de comunidades vegetais sobre depósitos de areia paralelos à costa, com influência do mar. A vegetação forma um mosaico: ervas e arbustos mais perto da praia, árvores mais para dentro. A areia drena a chuva depressa e guarda poucos nutrientes; o sol aquece o chão, o vento é constante e o sal vem do mar. Na restinga "aberta", as plantas formam ilhas separadas por areia nua. Planta enfermeira é a que cria sombra e solo melhor sob a copa e assim permite que outras germinem. Epífita é a planta que vive sobre outra árvore, sem tirar dela o alimento.

O solo da restinga não tinha mais sódio

No par de áreas medido no norte fluminense, o sódio trocável foi de 0,08 cmolc/dm³ no solo da restinga e 0,53 na floresta. O sal que as plantas enfrentam, portanto, não aparece acumulado no solo desse sítio.

O que a lei e a ecologia chamam de restinga

A Resolução CONAMA 303/2002 define restinga como depósito arenoso paralelo à costa, produzido por sedimentação, com comunidades que dependem mais do substrato que do clima. A vegetação é um mosaico: estrato herbáceo, arbustivo e arbóreo, este último mais para dentro. No Rio de Janeiro, a revisão de Scarano inclui na restinga brejos, florestas secas e vegetação aberta em moitas. "Restinga" não é um tipo de planta, e sim um ambiente com várias fisionomias.

Como sabemos que o solo é pobre: um par de áreas a 40 km

Pireda e colegas mediram o solo de uma restinga e de uma floresta estacional semidecidual no norte fluminense, a cerca de 40 km em linha reta, com cinco amostras compostas em cada uma. Na restinga havia 0,85% de carbono e 17,2 mg/dm³ de potássio; na floresta, 2,98% e 159,6 mg/dm³. É um par só, medido em 2017: serve de ilustração, não de média do país. O sódio foi menor na restinga, então o sal não se acumulou no solo medido; o borrifo marinho não foi medido.

Plantas enfermeiras: quem abre caminho na areia nua

Na restinga aberta a areia chega a 70 °C no verão e poucas espécies germinam sozinhas; a palmeira Allagoptera arenaria é a pioneira. Cactos e bromélias precisam da sombra de arbustos, e o gênero Clusia parece ser a principal planta enfermeira. Muitas enfermeiras são epífitas na Mata Atlântica e viram plantas de solo na areia, e várias têm CAM, que reduz a perda de água. Resistir ao estresse não basta: Clusia e bromélias não germinam em areia nua, segundo Scarano.

A ligação com a Mata Atlântica e o que muda para a conservação

Cerca de 60% das espécies listadas para a restinga fluminense também vivem na Mata Atlântica, e 98% das aves da restinga ocorrem nela. Há poucos endemismos. Scarano sugere, como hipótese, que as plantas vieram da floresta com muita plasticidade e que faltou tempo para surgirem espécies novas, pois as planícies são geologicamente jovens. Como poucas enfermeiras sustentam a comunidade, a autora defende tratar a vegetação costeira como um complexo, e não só como floresta.

Como sabemos

Definição legal, dados de solo e revisão foram lidos por inteiro, mas quase tudo sobre solo, sal e plantas enfermeiras vem de sítios do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, e alguns números são de segunda mão.

Em debate: A revisão de Scarano (2002) registra debate sobre a causa da vegetação aberta e a falta de evidência paleoecológica. Ocupação humana (há cerca de 8.000 anos no litoral fluminense), fogo e gado são fatores discutidos, mas áreas aparentemente intactas também são abertas.

Fontes

  1. Annals of Botany — Structure, function and floristic relationships of plant communities in stressful habitats marginal to the Brazilian Atlantic rainforest
    Scarano, F. R. · 2002 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1093/aob/mcf189
  2. Ministério do Meio Ambiente, CONAMA — Resolução CONAMA nº 303, de 20 de março de 2002 (Áreas de Preservação Permanente)
    Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) · 2002 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  3. Data in Brief (Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro) — Data on leaf structural, physiological and nutritional characteristics of species co-occurring in restinga and semidecidual seasonal forest ecosystems
    Pireda, S. et al. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1016/j.dib.2020.105484
  4. Photosynthetica (Universidade Federal do Espírito Santo) — Photosynthetic responses and growth dynamics of Allagoptera arenaria (Gomes) Kuntze (Arecaceae) in a chronosequence in a Restinga restoration area
    Júnior, A. J. G. et al. · 2026 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.32615/ps.2026.001
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 9; conferência de trechos automatizada)

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