Oceanografia

Ressurgência de Cabo Frio: como o vento de nordeste e a costa trazem água fria e rica à superfície

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Em Cabo Frio (RJ), a costa tem orientação nordeste-sudoeste, e o vento de nordeste sopra paralelo a ela. Pelo transporte de Ekman, a água rasa é levada para o mar aberto e, para repô-la, sobe a Água Central do Atlântico Sul, mais fria e rica em nutrientes. Segundo uma revisão, é a ressurgência mais intensa do litoral brasileiro.

Ressurgência (upwelling, em inglês) é a subida de água profunda e fria até a superfície. Na costa, ela é favorecida quando o vento sopra ao longo do litoral: o vento arrasta a camada superficial e, como a rotação da Terra desvia o movimento para a esquerda no Hemisfério Sul (efeito de Coriolis), o transporte líquido da água de superfície se afasta da costa, o chamado transporte de Ekman. Em Arraial do Cabo há três massas de água até 500 m: a Água Tropical, quente e salgada, na superfície; a Água Costeira, mistura de águas do continente com as demais; e a Água Central do Atlântico Sul (ACAS), fria, que a ressurgência traz para cima.

18,2 °C perto da costa, até 25,7 °C mar adentro

Na travessia de 20 de janeiro de 2016, a superfície da estação mais próxima da costa estava a 18,2 °C; nas duas estações mais afastadas (cerca de 9 e 14 km), a superfície variou de 22,2 a 25,7 °C. É um retrato de um único dia.

O que há embaixo: a Água Central do Atlântico Sul

A ACAS ocupa de 142 a 567 m de profundidade na região, com 13,33 a 15,59 °C e salinidade de 35,41 a 35,78 psu (unidade prática de salinidade). A Água Tropical que cobre a plataforma externa nos primeiros 200 m é bem mais quente, entre 27,37 e 28,26 °C. A diferença entre as faixas é de pelo menos cerca de 12 °C, por isso a ressurgência aparece no termômetro: onde a ACAS chega à superfície, a água fica fria. Segundo a revisão de 2012, meandros e vórtices da Corrente do Brasil e a topografia também contribuem para a subida.

Como sabemos: uma travessia e dez anos de vento

Em 20 de janeiro de 2016, o navio Diadorim coletou água em quatro estações, de 0,13 a 14,29 km da costa, na superfície, no meio e perto do fundo. Os autores também usaram séries diárias de vento (2006 a 2016) e de temperatura da superfície (1994 a 2016). Nas séries, temperatura baixa coincidiu com vento forte. Os limites: um só dia de coleta em campo, uma associação estatística que não prova causa por si e lacunas de temperatura preenchidas por interpolação.

Estações do ano e El Niño

A ressurgência é mais frequente e intensa na primavera e no verão, com ventos de nordeste; no outono e no inverno, as frentes frias são mais comuns e formam um período de subsidência. Em 2015 e 2016, um El Niño forte coincidiu com superfície mais quente (de cerca de 20 para 22 °C) e vento mais fraco (de 10 para 8 m/s). Os autores ligam os dois, mas dizem que o papel de El Niño e La Niña na região ainda não é plenamente compreendido.

Nutrientes e carbonato

Segundo a literatura citada, a ACAS é rica em nutrientes. No estudo de 2016, o estado de saturação da calcita (4,80 a 5,48), o da aragonita (3,10 a 3,63) e o carbonato (189 a 216 µmol/kg) foram maiores na superfície de cada estação. Os autores sugerem como explicação a mistura de massas de água, mas é uma hipótese. Esses números descrevem um dia de verão em quatro pontos, não a média anual, e não mostram por si como os organismos calcificam.

Como sabemos

O mecanismo e as medições de 2016 vêm de artigo aberto lido por inteiro; a revisão de 2012 foi lida só no resumo e o efeito sobre nutrientes vem da literatura citada, não de medição do estudo.

Fontes

  1. NOAA National Ocean Service — What is upwelling?
    NOAA National Ocean Service · 2026 · Divulgação científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  2. NOAA National Ocean Service — The Coriolis Effect (Currents tutorial)
    NOAA National Ocean Service · s.d. · Divulgação científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  3. Scientific Reports — Carbonate system in the Cabo Frio upwelling
    Senez-Mello, T. M. et al. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41598-023-31479-x
  4. Brazilian Journal of Oceanography — Biophysical interactions in the Cabo Frio upwelling system, southeastern Brazil
    Coelho-Souza, S. A.; López, M. S.; Guimarães, J. R. D.; Coutinho, R.; Candella, R. N. · 2012 · Revisão ou síntese científica · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1590/S1679-87592012000300008
  5. Brazilian Journal of Microbiology — Yearly variation of bacterial production in the Arraial do Cabo protection area (Cabo Frio upwelling region)
    Brazilian Journal of Microbiology · 2013 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1590/s1517-83822013000400046
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 5; conferência de trechos automatizada)

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