Zoologia

Renas veem ultravioleta: uma hipótese sobre o que isso ajudaria a achar na neve

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Renas do Ártico têm córnea e cristalino que deixam passar UV, e a retina responde a esses comprimentos de onda. Por que isso serviria a um mamífero diurno é uma pergunta aberta. A hipótese mais discutida é que líquens e plantas escuros em UV se destaquem contra a neve clara, sobretudo no crepúsculo longo do inverno. Ela ainda não foi testada no comportamento do animal.

Luz ultravioleta (UV) é a faixa logo abaixo do violeta, entre cerca de 300 e 400 nm. Na maioria dos mamíferos diurnos a córnea e o cristalino a filtram, em parte para proteger a retina. Na rena (Rangifer tarandus) o filtro é parcial: o UV chega à retina e é detectado por bastonetes e cones comuns, sem um cone específico para UV. A neve reflete muito UV, e quase tudo que é orgânico o absorve, por isso aparece escuro contra ela. No inverno de latitudes altas, o crepúsculo ocupa horas do dia, com luz fraca e azulada.

Um olho que muda de cor com a estação

O tapetum lucidum, camada refletora atrás da retina, aparece dourado-turquesa no verão e azul-profundo no inverno na rena. A mudança foi associada ao azul do crepúsculo ártico, e a causa física do azul seria o ozônio.

O que foi medido no olho

Hogg e colegas mostraram em 2011 que córnea e cristalino da rena não bloqueiam todo o UV e que a retina responde a ele (a1). O UV é detectado por bastonetes e cones comuns, sem pigmento específico para UV (a2). Uma revisão de 2024 resume: com pouca luz o sinal vem dos bastonetes, e com muita luz provavelmente dos cones S, os de comprimento de onda curto (a14). Um ensaio de 2023 cita transmissão de até 60% do UV pelos meios oculares (a3).

Como sabemos o que se vê na neve

Tyler e colegas fotografaram plantas na neve no norte da Noruega, em março, em três faixas: só UV (350–390 nm), sem UV (400–750 nm) e a faixa inteira. No UV, as plantas apareceram em alto contraste contra a neve, mais do que sem UV (a6). Dominy e colegas mediram o espectro de líquens de solo, que a rena come, e apontam diferença para a neve entre 330 e 370 nm (a7). Essas medidas descrevem a luz, não a percepção do animal. Nenhum teste de comportamento mostrou que a rena acha comida melhor com UV.

O que o UV poderia ajudar a achar

A hipótese de forragem diz que líquens e plantas, que absorvem UV, destacam-se contra a neve que o reflete (a8). Os próprios autores escrevem que o UV "could improve" a detecção. A hipótese do predador diz que lobos de pelagem que absorve UV ficariam visíveis (a10). Uma revisão de cervídeos levanta ainda a possibilidade de a urina ser um sinal visível em UV, sem dado espectral de urina de rena (a11). As três continuam sem teste de comportamento.

O olho que muda de cor no inverno

No inverno a rena passa horas por dia sob crepúsculo azulado (a5), e seu tapetum muda de cor com a estação, uma adaptação que não se conhece em outro mamífero (a12). Fosbury e Jeffery propõem que a mudança vem de fibrilas de colágeno que se aproximam, e que o reflexo vai até cerca de 350 nm (a13). Isso é um modelo físico, testado em amostras, sobre a luz que a retina recebe. Como a rena usa esse sinal, ninguém mediu.

Como sabemos

A fisiologia (UV chega à retina) está bem apoiada; a função ecológica é hipótese, e dois dos cinco textos foram lidos só no resumo.

Em debate: Há duas hipóteses não testadas no comportamento: achar alimento (líquens e plantas escuros em UV contra a neve) e achar predadores (lobos de pelagem absorvente em UV). Os autores do ensaio de 2023 notam que outros ungulados de lobos não parecem compartilhar essa visão.

Fontes

  1. The Journal of Experimental Biology — Arctic reindeer extend their visual range into the ultraviolet
    Hogg, C.; Neveu, M.; Stokkan, K.-A.; Folkow, L.; Cottrill, P.; Douglas, R.; Hunt, D. M.; Jeffery, G. · 2011 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1242/jeb.053553
  2. Arctic (Arctic Institute of North America) — Ultraviolet Vision May Enhance the Ability of Reindeer to Discriminate Plants in Snow
    Tyler, N. J. C.; Jeffery, G.; Hogg, C. R.; Stokkan, K.-A. · 2014 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.14430/arctic4381
  3. Proceedings of the Royal Society B — Reindeer eyes seasonally adapt to ozone-blue Arctic twilight by tuning a photonic tapetum lucidum
    Fosbury, R. A. E.; Jeffery, G. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rspb.2022.1002
  4. i-Perception — Reindeer and the quest for Scottish enlichenment
    Dominy, N. J.; Hobaiter, C.; Harris, J. M. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1177/20416695231218520
  5. Animals (MDPI) — A Review of Cervidae Visual Ecology
    Newman, B. A.; D’Angelo, G. J. · 2024 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3390/ani14030420
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 2; conferência de trechos automatizada)

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