Oceanografia

O recife sob a pluma do Amazonas: cerca de 9.500 km² descritos em 2016 e uma extensão ainda em disputa

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

Assuntos: Mar profundo

Sob a pluma do Amazonas, entre 30 m e cerca de 120 m de fundo, há um sistema de fundos duros de carbonato descrito em 2016: cerca de 9.500 km², numa faixa de ~1.000 km por ~50 km, com bancos de rodolitos e esponjas. A pista veio de uma pesca de arrasto em 1977. A extensão (até 56.000 km² numa hipótese de 2018) e a natureza de recife vivo são contestadas por alguns cientistas.

Um recife biogênico é uma estrutura de fundo construída por animais, plantas e micróbios que fabricam carbonato; os recifes de coral de água rasa, quente e pobre em nutrientes são o exemplo mais conhecido. Rios grandes costumam impedir isso, e a foz do Amazonas era vista como uma lacuna na distribuição dos recifes do Atlântico Ocidental. A pluma do rio, uma camada de água doce e barrenta de 5 a 25 m de espessura, segue para o norte e volta para leste em setembro e outubro. O sistema descrito fica sob ela, na plataforma externa e no talude superior, em fundo de crostas e blocos de carbonato, rodolitos (nódulos de algas calcárias) e esponjas. Os autores usam a faixa de 30 a 150 m como intervalo mesofótico, de luz reduzida. Aqui “recife” tem sentido amplo: fundo duro complexo criado por organismos vivos, não necessariamente por corais.

A pista veio de uma rede de arrasto

Em 1977, pelo comportamento da rede e pelo ecobatímetro, Collette e Rützler concluíram que havia fundos duros ali e listaram 45 espécies de peixes típicos de recife entre 48 e 73 m. Só em 2016 o sistema foi mapeado com sonar.

Como sabemos: de uma rede de arrasto a sonares e dragas

A primeira pista é de 1977: numa campanha que buscava áreas de arrasto de camarão, Collette e Rützler concluíram, pelo comportamento da rede e pelo ecobatímetro, que havia fundos duros, e listaram 45 espécies de peixes de recife entre 48 e 73 m. Em 2012 a equipe de Moura obteve 800 km de dados com ecobatímetro multifeixe; em 2014, 500 km com sonar de varredura lateral, além de dragas de 150 kg. Datações por carbono-14 deram idades de cerca de 13.400 anos no norte a modernas no sul. O limite: até 2016 só havia amostragem indireta, sem imagem direta do fundo.

Por que há recife debaixo de um rio de lama

A pluma tem 5 a 25 m de espessura e flui sobre o recife, que começa a 30 m. Para Moura et al., uma cunha permanente de água do oceano junto ao fundo e a retroflexão sazonal da pluma para leste condicionam a existência do mosaico de fundo duro. Houve ainda sedimentação de carbonato com o nível do mar baixo, que continua na plataforma externa. É a interpretação dos autores, não uma medida isolada de cada fator, e o equilíbrio entre crescimento e erosão do recife ainda precisa ser medido.

O que há lá: algas, rodolitos e muitas esponjas

Os recifes são construídos sobretudo por algas calcárias crostosas, com poucas áreas de corais escleractíneos, sobretudo Madracis decactis, e há extensos bancos de rodolitos, tema de outro post. As esponjas aparecem em massa: um arrasto de 20 minutos a 55 m trouxe cerca de 30 espécies e ~900 kg. As idades variam do setor norte, com um fragmento de cerca de 13,4 a 13,7 mil anos, ao sul, com idade moderna. Mahiques et al. (2019) relatam idades modernas nos três setores.

O que está em debate: tamanho, profundidade e o próprio nome

Em 2017, um submersível e uma câmera lançada em 70–250 m geraram as primeiras imagens diretas. Os autores propõem, como hipótese, até 56.000 km² e até 220 m, com menos de 5% da área potencial amostrada. Em 2018, alguns cientistas contestaram que haja um recife vivo, por falta de grandes estruturas biogênicas; Mahiques et al. respondem com datações modernas. Também varia o sentido de “recife”: aqui é fundo duro complexo criado por organismos vivos, não só por corais. A crítica original é um resumo de congresso que não lemos.

Ameaças e o que ainda falta saber

Em 2013, 125 blocos de petróleo da plataforma do Amazonas foram oferecidos em leilão e 35 foram adquiridos; em 2016, os autores viam a base ambiental como incipiente. Francini-Filho et al. (2018), com coautores afiliados ao Greenpeace, apontam que correntes subsuperficiais poderiam espalhar rápido um derrame e pedem precaução. Os números são de 2013 a 2018: não acompanhamos licenças e decisões posteriores. Falta também medir o crescimento líquido do recife e mapear mais que os 5% da área potencial.

Como sabemos

A descoberta e a descrição de 2016 estão bem sustentadas por artigo lido na íntegra; a extensão maior e a crítica sobre o recife vivo vêm de lados com autores sobrepostos, e a crítica original não foi lida.

Em debate: Extensão e natureza do sistema: Moura et al. (2016) estimaram cerca de 9.500 km²; Francini-Filho et al. (2018) propõem, como hipótese, até 56.000 km² e até 220 m de profundidade. Em 2018 alguns cientistas contestaram que haja um recife vivo, com argumento de que não haveria grandes estruturas biogênicas construídas por organismos vivos; Mahiques et al. (2019) respondem com datações modernas. A crítica original (um resumo de congresso) não foi lida.

Fontes

  1. Science Advances — An extensive reef system at the Amazon River mouth
    Moura, R. L. et al. · 2016 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1126/sciadv.1501252
  2. Frontiers in Marine Science — Perspectives on the Great Amazon Reef: Extension, Biodiversity, and Threats
    Francini-Filho, R. B. et al. · 2018 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.3389/fmars.2018.00142
  3. Scientific Reports — Insights on the evolution of the living Great Amazon Reef System, equatorial West Atlantic
    Mahiques, M. M. et al. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/s41598-019-50245-6
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 19; conferência de trechos automatizada)

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