Ciências da Terra
A terra que sobe depois do gelo: o que o rebote glacial revela sobre o manto
Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026
Assuntos: Tectônica de placas
Perto dos antigos centros de gelo da Escandinávia e da América do Norte, o terreno ainda sobe, em alguns pontos mais de 10 mm por ano, cerca de 21 mil anos depois do auge da última glaciação. Esse soerguimento lento só é possível se o manto, mesmo sendo rocha sólida, escoar devagar sob a carga que o gelo deixou. A velocidade da subida mede essa fluidez: entre 10²⁰ e 10²¹ Pa·s no manto superior, segundo modelos.
Durante a última glaciação, mantos de gelo de milhares de metros de espessura cobriam a Escandinávia e o Canadá. O peso empurrou a crosta para baixo e deslocou rocha do manto, a camada sólida sob a crosta, para os lados. Quando o gelo derreteu, a carga sumiu e a terra começou a voltar: é o rebote pós-glacial, parte do que se chama ajuste isostático glacial. A rocha do manto não é líquida, mas em escalas de milhares de anos deforma-se como um fluido muito espesso. A medida dessa espessura é a viscosidade, em pascal-segundo (Pa·s): quanto maior, mais lento o escoamento. Medir quanto e com que velocidade a terra sobe permite estimar a viscosidade do manto.
Um porto que ficou longe do mar
A cidade finlandesa de Vaasa foi fundada numa ilha florestal no século XIV. A terra continuou subindo e a costa se afastou tanto que, após um incêndio em 1852, a cidade foi refundada cerca de 6 km a oeste, à beira da água.
Por que uma rocha sólida escoa
O manto é rocha sólida, mas em escalas de milhares de anos ela cede. Segundo a revisão de Whitehouse, no nível dos grãos minerais a deformação do manto é descrita por fluência por difusão e por discordâncias (defeitos nos cristais), processos medidos em laboratório. A viscosidade mede o quanto essa deformação é lenta. Os modelos tratam a Terra como corpo viscoelástico: a litosfera, camada externa rígida, responde como elástica, e a viscosidade do manto controla a velocidade.
Que números saem disso
A viscosidade média do manto superior fica entre 10²⁰ e 10²¹ Pa·s, e a do manto inferior entre 10²¹ e 10²³ Pa·s, mais incerta. Em regiões como a Islândia, o Alasca, a Patagônia e a Península Antártica, a viscosidade local é menor que 10²⁰ Pa·s, e a deformação ocorre num prazo bem mais curto. Estudos regionais indicam heterogeneidade de cerca de 10¹⁸ a 10²³ Pa·s, com respostas que vão de anos a milhares de anos.
Escandinávia e Canadá: duas janelas para o mesmo processo
No Golfo de Bótnia, o gelo chegou a 3.000 m e deprimiu a terra em mais de 500 m, segundo a NASA; já subiram pelo menos 286 m e faltariam cerca de 100 m, projeção de modelo. No Canadá, o manto Laurentide era maior que o atual da Antártida no auge da glaciação, e a faixa de crosta levantada ao seu redor deixou marca no leito do Mississippi. Em ambos os lugares, o GPS acompanha o movimento atual.
O que os modelos ainda não resolvem
Dois desconhecidos entram juntos no cálculo: quanto gelo houve e quão viscoso é o manto. Os dois se compensam, e um mesmo soerguimento observado pode vir de pouco gelo e manto rígido ou de muito gelo e manto fluido. Além disso, a viscosidade varia de lugar para lugar, e ignorá-lo enviesa a história do gelo. Mapas tridimensionais da viscosidade começam a ser testados, mas a maioria dos estudos ainda usa modelos só com variação em profundidade.
Como sabemos
O mecanismo e os números centrais vêm de uma revisão e de três artigos abertos; as taxas de GPS e várias fontes originais chegam por segunda mão, e os números do Báltico vêm de página de divulgação da NASA.
Em debate: A viscosidade do manto inferior é maior que a do superior, mas o tamanho do salto na fronteira entre eles segue em discussão entre estudos que usam rebote glacial sozinho ou combinado com outros dados da dinâmica do manto.
- Fato estabelecido: A resposta da Terra sólida ao colapso dos mantos de gelo do Hemisfério Norte depois do Último Máximo Glacial, há cerca de 21 mil anos, continua hoje a uma taxa superior a 10 mm por ano, o que a torna observável na escala de vida humana. [1] 1 Introduction
Contexto: Valor máximo, citado pela revisão a partir de medições por GPS na Fennoscandia (Lidberg et al., 2010) e na América do Norte (Sella et al., 2007); não é a taxa em todo lugar. · Limitações: Fonte de segunda mão para os números de GPS: o valor vem da revisão de Whitehouse (2018), que cita Lidberg et al. e Sella et al.; esses dois estudos não foram abertos por nós. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Os estudos regionais e globais de ajuste isostático glacial indicam que a viscosidade média do manto superior fica entre 10²⁰ e 10²¹ Pa·s. [1] 2.5.1 Mantle viscosity
Contexto: Média sobre o manto superior, inferida pelo encaixe entre modelos de rebote e dados de nível do mar e de GPS. · Limitações: É faixa inferida de modelos, não medida direta; regiões tectonicamente ativas têm valores mais baixos. · Faixa de estimativas de modelagem, que dependem da história do gelo assumida. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: A viscosidade do manto inferior é menos bem determinada: fica numa faixa de 10²¹ a 10²³ Pa·s. [1] 2.5.1 Mantle viscosity
Contexto: O rebote é sensível sobretudo às camadas mais rasas do manto; as camadas profundas pesam menos nos dados. · Limitações: A faixa cobre duas ordens de grandeza. · Faixa ampla de estimativas; o limite inferior e o superior diferem por um fator de 100. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Em debate: Há consenso de que o manto inferior é mais viscoso que o superior, mas o tamanho desse aumento na fronteira entre os dois continua em discussão. [1] 2.5.1 Mantle viscosity
Contexto: Debate entre estudos que combinam rebote glacial com outros dados de dinâmica do manto. · Limitações: A revisão resume o debate sem detalhar as posições. · Divergência real publicada na literatura; a revisão cita Mitrovica e Forte (2004), Lau et al. (2016) e Caron et al. (2017) como exemplos. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A primeira estimativa de viscosidade do manto, feita por Haskell em 1935, deu cerca de 10²¹ Pa·s para o manto superior; ela só foi possível depois que se aprendeu a datar as mudanças ambientais do fim da glaciação. [1] 2.1 Historical perspective
Contexto: A datação das camadas anuais de sedimento de lagos glaciais (De Geer, 1912), citada pela revisão, deu o tempo decorrido desde o degelo. · Limitações: Fonte de segunda mão para Haskell (1935), que não foi aberto por nós. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O soerguimento da terra era notado havia séculos na Suécia: em 1491 o antigo porto de Östhammar já não podia ser alcançado de barco e a cidade teve de ser mudada para perto do mar; em 1743 Celsius calculou que o nível do mar no Golfo de Bótnia caía 1,4 cm por ano em relação à terra. [1] 2.1 Historical perspective
Contexto: Celsius estendeu o registro até 1563 com documentos históricos. · Limitações: Celsius atribuiu a mudança à queda do mar; só mais tarde se aceitou que a terra sobe. A taxa é relativa (mar contra terra) e não coincide com as taxas atuais de GPS. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A ideia de que o peso de um manto de gelo poderia deprimir a terra foi proposta por Jamieson em 1865, a partir de depósitos marinhos acima do nível do mar perto da costa da Escócia e ausentes no interior mais baixo. [1] 2.1 Historical perspective
Contexto: Jamieson conhecia as marcas geomorfológicas de gelo na Escócia. · Limitações: Fonte de segunda mão para Jamieson (1865). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: Em modelos de rebote, a litosfera (camada externa e rígida) é tratada como elástica na escala de um ciclo glacial, e é a viscosidade do manto que controla a velocidade da deformação; por isso a propriedade do manto pode ser inferida de observações de soerguimento ou subsidência. [1] 2.3.1 Representation of the solid Earth
Contexto: Descrição do modelo padrão, em que a Terra é um corpo viscoelástico de Maxwell. · Limitações: O texto lembra que, na prática, dados escassos e incertezas na história do gelo limitam a inferência. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Na escala do grão mineral, o manto se deforma por fluência por difusão e por discordâncias; no primeiro mecanismo a resposta é linear, no segundo a velocidade de deformação cresce com a tensão elevada a uma potência de cerca de 3,5. [1] 2.3.1 Representation of the solid Earth
Contexto: O expoente vem de experimentos de laboratório (Hirth e Kohlstedt, 2003), citados pela revisão. · Limitações: Fonte de segunda mão para os experimentos de laboratório. A importância relativa de cada mecanismo no manto real não é estabelecida no texto lido. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Há cerca de 20 mil anos, o gelo sobre o Mar Báltico chegava a 3.000 m de espessura e, segundo estimativas citadas pela NASA, deprimiu a terra em mais de 500 m. [2] texto da legenda da imagem
Contexto: Região do Golfo de Bótnia, norte do Báltico. · Limitações: Página de divulgação da NASA, sem referência direta ao estudo de origem; valores aproximados. · Estimativa de divulgação; a espessura e a depressão variam com o modelo de gelo adotado. · Conferida em parte (página institucional), conferência automatizada - Estimativa: Desde o recuo do gelo, a terra na região do Golfo de Bótnia já subiu pelo menos 286 m, altura da costa antiga conhecida como "a costa mais alta do mundo", em Skuleberget, na Suécia; faltariam cerca de 100 m de depressão, que deve se equilibrar ao longo dos próximos milhares de anos. [2] texto da legenda da imagem
Contexto: Alto Litoral (High Coast) da Suécia e arquipélago de Kvarken, na Finlândia, ambos sítios do Patrimônio Mundial da UNESCO. · Limitações: O valor de 100 m restantes é projeção de modelo, citada pela NASA sem detalhar a fonte. Página de divulgação. · A parte restante é estimativa de modelagem, não medição. · Conferida em parte (página institucional), conferência automatizada - Estimativa: Segundo uma estimativa citada pela NASA, cerca de 700 hectares de terra nova emergem do mar a cada ano ao longo da costa do Golfo de Bótnia. [2] texto da legenda da imagem
Contexto: Costa do Golfo de Bótnia, Finlândia e Suécia. · Limitações: A NASA diz "by one estimate" e não identifica o estudo; o número depende do relevo do fundo e do nível do mar. · Estimativa única, sem fonte primária identificada na página. · Conferida em parte (página institucional), conferência automatizada - Evidência forte: Um vale enterrado de 110 m de profundidade e 300 km de extensão sob o alto rio Mississippi foi interpretado como molde parcial da protuberância periférica (a faixa de crosta levantada ao redor do manto de gelo Laurentide); medições de GPS registram o afundamento atual dessa faixa, e a forma inferida é coerente com gelo de cerca de 1 km de espessura nas bordas. [3] Resumo
Contexto: Alto Mississippi, EUA, na região onde modelos de rebote preveem a protuberância periférica do gelo Laurentide. Os autores também lembram que, no Último Máximo Glacial, esse manto de gelo era maior que o atual da Antártida. · Limitações: É interpretação de um estudo; a protuberância não é observada diretamente, e sim inferida pela forma do leito rochoso enterrado. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: O rebote não fixa sozinho a viscosidade do manto: há compensações fortes entre a história do gelo e o comportamento do manto, e a estrutura tridimensional da Terra altera as previsões de soerguimento na Fennoscandia por mais do que a precisão do GPS atual. Na América do Norte, os modelos ICE-5G e ICE-7G diferem muito na história do gelo e, por isso, na deformação prevista no núcleo do Laurentide. [1] 3.2 Lateral variations in Earth rheology [5] Technical Validation
Contexto: O resultado de Whitehouse et al. (2006) sobre a Fennoscandia vem citado na revisão f1; f5 descreve modelos publicados da América do Norte. · Limitações: Fonte de segunda mão para Whitehouse et al. (2006). O trecho de f5 trata de diferenças entre modelos, não de medições. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Estudos regionais de rebote encontram uma heterogeneidade de viscosidade de cerca de 10¹⁸ a 10²³ Pa·s, o que implica respostas do manto que se dão em escalas de anos a milhares de anos; apesar disso, as inversões de viscosidade se limitaram por quase um século a modelos unidimensionais, só de variação com a profundidade. [4] Introduction
Contexto: Introdução do artigo de Lloyd et al., sobre mapeamento 3-D da viscosidade a partir de nível do mar passado. · Limitações: A faixa de 10¹⁸ a 10²³ Pa·s aparece no texto como resultado de estudos regionais citados, que não foram abertos por nós. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Earth Surface Dynamics, 6, 401–429 — Glacial isostatic adjustment modelling: historical perspectives, recent advances, and future directions
Whitehouse, P. L. · 2018 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.5194/esurf-6-401-2018 - NASA Earth Observatory — Uplift Underway in Finland’s Kvarken Archipelago
NASA Earth Observatory (imagens de Wanmei Liang, com dados Landsat do USGS) · 2024 · Divulgação científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 - Science Advances, 5(1), eaav2366 — The Mississippi River records glacial-isostatic deformation of North America
Wickert, A. D.; Anderson, R. S.; Mitrovica, J. X.; Naylor, S.; Carson, E. C. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/sciadv.aav2366 - Geophysical Journal International — GIA imaging of 3-D mantle viscosity based on palaeo sea level observations – Part I: Sensitivity kernels for an Earth with laterally varying viscosity
Lloyd, A. J.; Crawford, O.; Al-Attar, D.; Austermann, J.; Hoggard, M. J.; et al. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1093/gji/ggad455 - Scientific Data — 1-km resolution rebound surfaces and paleotopography of glaciated North America since the Last Glacial Maximum
Godbout, P.-M.; Brouard, E.; Roy, M.; et al. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41597-023-02566-5
Histórico de alterações
- Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 3; conferência de trechos automatizada)