Química

Pão, carne e café escurecem pela reação de Maillard, descrita em 1912 por Louis Camille Maillard

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Ciência do cotidiano

A reação de Maillard une grupos carbonila de açúcares e grupos amino de aminoácidos. Em geral acima de 120 °C, ela escurece o alimento, cria aromas e termina em pigmentos marrons chamados melanoidinas. Não é caramelização, que é a transformação de açúcares sozinhos pelo calor. Louis Camille Maillard a descreveu em 1912, ao aquecer glicina e glicose.

Quando um alimento é aquecido, certas moléculas passam a reagir entre si. Na reação de Maillard, o grupo carbonila (C=O) de um açúcar redutor, isto é, um açúcar capaz de reagir por esse grupo, une-se ao grupo amino (–NH2) de um aminoácido ou proteína. A partir daí, uma cascata de reações gera muitos compostos: alguns voláteis, que dão aroma, outros coloridos, que escurecem a superfície. A fase inicial é incolor; a cor aparece depois. Por isso a crosta do pão, o exterior da carne grelhada e o grão de café torrado ganham tom e cheiro que a matéria-prima crua não tem.

Escurece até sem forno

A reação de Maillard não exige forno. Em macarrão fresco de trigo integral guardado a 25 °C, pesquisadores detectaram furosina e HMF, marcadores das etapas inicial e intermediária. É um escurecimento lento, e difícil de estudar nessa temperatura.

Três etapas, do incolor ao marrom

Segundo a revisão de Qi e colegas, a reação começa quando o grupo carbonila de um açúcar se une ao grupo amino de um aminoácido ou proteína. Os primeiros produtos são incolores e inodoros. Na etapa intermediária surgem compostos que reagem com aminoácidos na degradação de Strecker, ligada ao escurecimento e ao sabor. Na etapa final, esses compostos se polimerizam com aminoácidos e formam as melanoidinas, pigmentos marrons de alto peso molecular.

Maillard não é caramelização

Caramelização é a transformação de açúcares pelo calor; o caramelo vem do aquecimento de mono e dissacarídeos. Maillard exige também o grupo amino. As duas são formas de escurecimento não enzimático e podem ocorrer juntas. A revisão de Qi e colegas relata que, com atividade de água alta, o escurecimento tende à caramelização, que compete com Maillard pelos açúcares redutores. Os dois processos dividem produtos intermediários, como o HMF.

Como sabemos: cor e marcadores

Pesquisadores acompanham a reação por medidas. Uma é a absorbância a 420 nm, comprimento de onda de máxima absorção do produto final: no estudo de pão citado por Qi e colegas, o extrato do pão assado a 225 °C por 50 min absorveu quatro vezes mais que o de 220 °C por 60 min. Outra são marcadores químicos: a furosina indica a etapa inicial e o HMF, a intermediária. Limite: cada medida cobre só um ponto da reação, e os números vêm de produtos de farinha.

O que ainda é incerto

O mecanismo básico é conhecido, mas as rotas da etapa final seguem incompletamente esclarecidas. A estrutura das melanoidinas continua sem definição, porque são polímeros complexos e heterogêneos que variam com o alimento. Já pigmentos menores, de baixo peso molecular, tiveram a estrutura identificada, segundo Murata (2021). Por isso Maillard é, ao mesmo tempo, uma reação cotidiana e um problema aberto da química dos alimentos.

Como sabemos

Descrição geral, datas e distinção para caramelização repousam em revisões abertas; a estrutura final das melanoidinas é dita incerta nas fontes.

Fontes

  1. Foods (MDPI) — Maillard Reaction in Flour Product Processing: Mechanism, Impact on Quality, and Mitigation Strategies of Harmful Products
    Qi, Y.; Wang, W.; Yang, T.; Ding, W.; Xu, B. · 2025 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3390/foods14152721
  2. Glycoconjugate Journal — Browning and pigmentation in food through the Maillard reaction
    Murata, M. · 2021 · Revisão ou síntese científica · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1007/s10719-020-09943-x
  3. Journal of Food Science and Technology — A systematic review on the determination and analytical methods for furanic compounds in caramel models
    Chan, A. C. et al. · 2025 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1007/s13197-025-06419-4
  4. Frontiers in Nutrition — Dietary melanoidins as emerging functional components: interactions with gut microbiota and implications for nutritional modulation of intestinal health
    Chen, J. et al. · 2025 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3389/fnut.2025.1672681
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 4; conferência de trechos automatizada)

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