Neurociência
Ratos libertam um companheiro de gaiola preso: o que o estudo de 2011 mostrou e a disputa sobre empatia
Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026
Assuntos: Inteligência animal
Em 2011, Ben-Ami Bartal e colegas relataram que ratos livres aprendiam, em poucos dias, a abrir a porta de um tubo onde estava preso um companheiro de gaiola, mas não a de um tubo vazio ou com um boneco. Os autores leram o ato como motivado por empatia. Silberberg e colegas (2014) propuseram que a busca por contato social, somada ao medo do novo, explicaria os dados. Qual motivação está por trás do ato segue em discussão.
Em 2011, a equipe de Inbal Ben-Ami Bartal, Jean Decety e Peggy Mason (Universidade de Chicago) publicou na Science um teste em que um rato livre, num espaço aberto, convive com um companheiro de gaiola preso num tubo (restrainer) que só se abre por fora. Se o rato livre empurra a porta, o preso sai. Os autores chamam o ato de comportamento pró-social, uma ação que beneficia outro, e discutem se ele seria movido por empatia, entendida aqui como preocupação com o estado de outro. Empatia tem definições variadas; um denominador comum é sentir junto com o outro e responder com cuidado a seu sofrimento. O que está em debate não é se o rato abre a porta, e sim por quê: para aliviar o aflito, para acabar com a própria inquietação ou para ficar com o outro.
Chocolate ou companheiro?
Com cinco gotas de chocolate num tubo e o companheiro preso no outro, o rato livre comeu em média 3,5 gotas; com o outro tubo vazio, comeu 4,8. Em cerca de metade das tentativas, dividiu o chocolate com o libertado.
Como sabemos: o desenho e os controles de 2011
O rato livre convivia com um preso num tubo que só se abria por fora. Comparou-se com tubo vazio, tubo com boneco e um companheiro livre atrás de uma tela. Só com companheiro preso a proporção de abridores subiu: 23 de 30, contra 5 de 40 nos controles. Isso mostra que o comportamento depende da presença de um rato preso; não mostra por que o rato abre. Os grupos eram pequenos, e o experimentador abria a porta pela metade quando o rato falhava.
Três leituras possíveis do mesmo comportamento
Os autores de 2011 propõem que o rato livre age para acabar com um mal-estar ligado à situação do preso, o seu ou o do outro, e chamam isso de motivação empática; o contágio emocional seria condição necessária, não suficiente. Eles mesmos discutem duas alternativas, parar os chamados de alarme e curiosidade, que consideram improváveis. Uma terceira, de Silberberg e colegas, é a busca de contato social. As três leituras podem prever a mesma porta aberta.
A crítica de 2014 e a resposta do desenho separado
Segundo o resumo de Silberberg et al., o rato livre não aprende a abrir quando esta é a primeira condição, o preso volta ao tubo e o rato experiente continua a tocar a porta mesmo sem soltar ninguém. Eles invocam neofobia e busca de contato. O grupo original argumentou, com a condição separada, que o contato imediato não é necessário. Como só o resumo da crítica foi lido, o detalhe de como cada desenho se compara não é discutido aqui.
O que os estudos seguintes mostram e o que fica em aberto
Em 2014, o grupo original viu que ratos ajudam estranhos da própria linhagem, mas só ajudam os de outra linhagem se já conviveram com ela; criados com outra linhagem, quase não ajudam a própria. Em 2016, o ansiolítico midazolam reduziu a ajuda sem impedir a abertura de um tubo com chocolate. Tudo isso mostra influência da experiência social e do afeto, mas continua sem decidir entre empatia e contato social.
Como sabemos
O estudo original e o de 2014 foram lidos na íntegra, mas a crítica de Silberberg e o estudo de 2016 só pelo resumo.
Em debate:
- Fato estabelecido: No estudo de Ben-Ami Bartal e colegas (2011), um rato livre foi colocado numa arena com um companheiro de gaiola preso num tubo, e os ratos nessa condição aprenderam, em poucos dias, a abrir a porta e libertar o preso. [1] Texto principal, parágrafo sobre a Fig. 1
Contexto: Ratos de laboratório, em sessões repetidas por 12 dias. · Limitações: Só o artigo principal foi lido; o material suplementar (métodos detalhados, figuras S1 a S2) não foi aberto. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Os controles pesaram a favor da leitura social: apenas 5 de 40 ratos nas condições-controle (tubo vazio, tubo com boneco e companheiro livre atrás de uma tela) se tornaram abridores, contra 23 de 30 ratos com companheiro preso. [1] Legenda da Fig. 1
Contexto: O grupo '2+empty' tinha um companheiro livre separado por tela perfurada, para testar a mera presença de outro rato. · Limitações: Grupos pequenos (8 a 30 ratos); os grupos-controle eram de tamanhos e composições de sexo diferentes dos do grupo principal. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Quando o rato livre não abria a porta a tempo, o experimentador a abria pela metade para soltar o preso; só contou como abertura a que ocorreu antes disso. [1] Texto principal, parágrafo de métodos
Contexto: Procedimento adotado para evitar desamparo aprendido em ratos que falhavam nos primeiros dias, segundo os autores. · Limitações: Significa que mesmo os ratos que nunca abriam sozinhos acabavam vendo o preso sair, o que pode influenciar o comportamento seguinte. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Os ratos presos emitiram mais chamados ultrassônicos de alarme (22 a 23 kHz) do que nos controles, mas esses chamados foram relativamente raros; por isso os autores julgaram improvável que o rato livre agisse só para fazê-los cessar. [1] Texto principal, parágrafo sobre a Fig. 2F
Contexto: Os 15% são a proporção de arquivos de áudio amostrados com chamados de alarme. · Limitações: A conclusão sobre a improbabilidade é dos próprios autores; a hipótese de que o rato livre quer acabar com o som não foi testada diretamente. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Num teste com o preso saindo para uma arena separada, de modo que não haveria contato depois da abertura, ratos continuaram a abrir a porta para o companheiro e deixaram de abrir a de um tubo vazio; os autores concluíram que a expectativa de contato imediato não é necessária. [1] Texto principal, parágrafo sobre a Fig. 4A
Contexto: Nove ratos, testados em ordem balanceada com tubo vazio e tubo com companheiro, ao longo de 29 e 27 dias em duas etapas. · Limitações: Amostra de 9 ratos, escolhidos entre os que já abriam a porta na condição inicial. A crítica de Silberberg e colegas questiona justamente se o contato social deixou de ser um fator. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Com um tubo de chocolate e outro com o companheiro, ratos abriram os dois com latências semelhantes e dividiram o chocolate com o libertado em cerca de metade das tentativas; os autores leram isso como valor da libertação equivalente ao do chocolate. [1] Texto principal, parágrafo sobre o chocolate
Contexto: Nove ratos na condição chocolate com companheiro; cinco gotas de chocolate por tubo. · Limitações: Amostra pequena. 'Valor equivalente' é uma leitura dos autores a partir da latência, não uma medida direta de preferência. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Os próprios autores de 2011 reconheceram que é impossível provar com certeza a motivação interior de um animal que não fala, e discutiram explicações rivais: o rato livre poderia querer fazer cessar os chamados de alarme ou ter sido atraído por curiosidade. [1] Discussão
Contexto: Trecho de discussão do artigo; os autores descartam as duas explicações por argumentos, não por experimentos separados. · Limitações: A curiosidade foi descartada com base na persistência por mais de um mês na condição separada, o que é um argumento indireto. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Em debate: Os autores consideraram a explicação mais parcimoniosa que os ratos libertam o companheiro para acabar com um sofrimento, o deles ou o do preso. Distinguiram contágio emocional, que seria condição necessária, de motivação empática, e reconheceram que a existência de empatia em não humanos continua muito controversa. [1] Discussão
Contexto: Interpretação dos autores do estudo original. 'Contágio emocional' é a emoção de um animal despertada pela emoção expressa por outro. · Limitações: A explicação 'acabar com o próprio mal-estar' é mais simples do que 'preocupação com o outro' e é compatível com a crítica de Silberberg e colegas só em parte. · Há divergência publicada sobre se o comportamento indica empatia, contato social ou outra motivação. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Silberberg e colegas (2014) relataram, em dois experimentos, que um rato livre não aprende a tocar a porta da frente para abrir a de trás quando essa é a primeira condição do teste, que o rato preso frequentemente volta ao tubo e que o rato experiente continua tocando a porta mesmo quando isso não solta o preso. [3] Resumo
Contexto: Experimentos de outro laboratório (American University), com variações do teste de ajuda. · Limitações: Só o resumo foi lido; não se sabe do resumo o tamanho das amostras nem o detalhe do procedimento. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Em debate: Silberberg e colegas explicaram esses resultados e os de 2011 por dois processos: neofobia (aversão ao que é novo) e busca de contato social. Segundo eles, no início a neofobia faz o rato preso fugir do tubo; com as sessões ela diminui, e a busca de contato passa a dominar o comportamento dos dois. [3] Resumo
Contexto: Explicação proposta por um grupo crítico, para o teste de ajuda em geral. · Limitações: É uma interpretação alternativa, não uma refutação; o grupo original mantém que o contato imediato não era necessário (a5). · Interpretação em disputa; a leitura de Silberberg et al. foi feita só pelo resumo. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Fato estabelecido: Num estudo de 2014, o grupo de Ben-Ami Bartal viu que ratos Sprague-Dawley libertavam estranhos da mesma linhagem tanto quanto companheiros de gaiola, mas em geral não libertavam estranhos de outra linhagem (Long-Evans), a menos que antes tivessem convivido com um rato dessa linhagem. [2] Results, §3
Contexto: Só machos; ratos albinos Sprague-Dawley (SD) como ajudantes e Long-Evans (LE) como presos em parte dos testes. · Limitações: Grupos de 7 a 16 ratos. O estudo mostra que a ajuda depende da experiência social; não diz se a motivação é empatia, contato social ou outra. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Ratos Sprague-Dawley criados desde o nascimento com ratos Long-Evans quase nunca libertaram estranhos da própria linhagem: só 1 de 8 virou abridor. Os autores concluíram que a ajuda depende da familiaridade e não de parentesco genético. [2] Results, §4
Contexto: Filhotes SD transferidos para ninhadas LE no dia do nascimento ou no seguinte; testados aos 2 meses. · Limitações: Amostra de 8 ratos por grupo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Num estudo de 2016, ratos tratados com midazolam, um ansiolítico, ajudaram menos o companheiro preso que ratos com salina ou sem injeção, mas abriram um tubo com chocolate; os autores leram isso como papel do afeto na ajuda. [4] Resumo
Contexto: Estudo do mesmo grupo do experimento original. · Limitações: Só o resumo foi lido. A conclusão é dos autores do próprio grupo, e o efeito de um ansiolítico não distingue por si só empatia de outras motivações sociais. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Fato estabelecido: Uma revisão de 2017 sobre empatia em roedores, com Ben-Ami Bartal entre os autores, aponta que a maioria das definições de empatia em humanos reúne duas partes: sentir e compartilhar os sentimentos do outro e responder com cuidado ao seu sofrimento. [5] Introduction, §1
Contexto: Definição de empatia em humanos adotada na introdução da revisão. · Limitações: Revisão com a autora do estudo original entre os autores; não é avaliação independente. Só trechos da introdução e da seção sobre preocupação simpática foram lidos. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Segundo a revisão de 2017, Sato e colegas (2015) replicaram e ampliaram o achado, mostrando que ratos libertam outros presos numa piscina de água. [5] Seção 6, Sympathetic concern
Contexto: Descrição de segunda mão: o artigo de Sato et al. (2015) não foi aberto. · Limitações: Segunda mão, de uma revisão que tem a autora do estudo de 2011 entre os autores. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Science — Helping a cagemate in need: empathy and pro-social behavior in rats
Ben-Ami Bartal, I.; Decety, J.; Mason, P. · 2011 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1126/science.1210789 - eLife — Pro-social behavior in rats is modulated by social experience
Ben-Ami Bartal, I.; Rodgers, D. A.; Bernardez Sarria, M. S.; Decety, J.; Mason, P. · 2014 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.7554/eLife.01385 - Animal Cognition — Desire for social contact, not empathy, may explain "rescue" behavior in rats
Silberberg, A.; Allouch, C.; Sandfort, S.; Kearns, D.; Karpel, H.; Slotnick, B. · 2014 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1007/s10071-013-0692-1 - Frontiers in Psychology — Anxiolytic Treatment Impairs Helping Behavior in Rats
Ben-Ami Bartal, I.; Shan, H.; Molasky, N. M.; Murray, T. M.; Williams, J. Z.; Decety, J.; Mason, P. · 2016 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3389/fpsyg.2016.00850 - Neuroscience & Biobehavioral Reviews — The roots of empathy: Through the lens of rodent models
Meyza, K. Z.; Ben-Ami Bartal, I.; Monfils, M. H.; Panksepp, J. B.; Knapska, E. · 2017 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1016/j.neubiorev.2016.10.028
Histórico de alterações
- Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 15; conferência de trechos automatizada)