Matemática

Ramanujan, autodidata indiano, deixou cadernos de fórmulas que ainda alimentam a pesquisa

Publicado em 05/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026

Em janeiro de 1913, um escriturário do Porto de Madras que largara duas vezes a faculdade mandou a G. H. Hardy, em Cambridge, páginas de fórmulas sem demonstração. Hardy respondeu. Srinivasa Ramanujan chegou à Inglaterra em 1914 e morreu em 1920, aos 32 anos. Deixou quase 3.900 resultados em cadernos e uma última carta sobre as funções mock theta, que hoje aparecem até na física de buracos negros.

Ramanujan nasceu em 22 de dezembro de 1887, em Erode, e cresceu em Kumbakonam, no sul da Índia colonial. No Town High School, a partir de 1898, achou o Synopsis of Elementary Results in Pure Mathematics, de G. S. Carr, que virou seu manual de autodidata. Perdeu a bolsa da faculdade por negligenciar as outras matérias e, em 1906, passou em matemática, mas foi reprovado nas demais no exame de First Arts. Em 1912 virou escriturário no Porto de Madras. Antes de Hardy, escreveu a E. W. Hobson e H. F. Baker, que não responderam. Para ir à Inglaterra, teve de superar a proibição que sua religião, a de um brâmane ortodoxo, fazia de atravessar o oceano. Em Cambridge, o próprio Trinity College cita o racismo entre os desafios que enfrentou, ao lado da guerra e da dieta vegetariana estrita.

O táxi 1729

Hardy contou que, ao visitar Ramanujan doente, comentou que o táxi tinha um número sem graça, 1729. Ramanujan respondeu que era o menor número que é soma de dois cubos de duas maneiras: 1³ + 12³ = 9³ + 10³. A conta está certa; a cena chegou até nós pelo relato de Hardy.

Um livro e muita obstinação

Em Kumbakonam, no Town High School, Ramanujan encontrou o Synopsis, de G. S. Carr, uma coletânea de resultados de matemática elementar. Foi seu principal modelo e o que o ensinou a escrever fórmulas. Perdeu a bolsa da faculdade por só estudar matemática e, em 1906, foi reprovado nas outras disciplinas do First Arts. Sem diploma, em 1912 virou escriturário no Porto de Madras, na Índia colonial britânica, e continuou a anotar resultados nos cadernos.

A carta de janeiro de 1913

Antes de Hardy, Ramanujan escreveu a E. W. Hobson e H. F. Baker, em Cambridge, e não teve resposta. Em janeiro de 1913 escreveu a Hardy, que respondeu em 8 de fevereiro. Hardy escreveu que os limites do conhecimento de Ramanujan eram tão surpreendentes quanto sua profundidade. Em maio de 1913 a Universidade de Madras lhe deu uma bolsa de dois anos. Faltava vencer a proibição religiosa de cruzar o oceano, superada em parte com a ajuda de E. H. Neville.

Cambridge, 1914 a 1919

Ramanujan chegou a Londres em 14 de abril de 1914. Com Hardy e Littlewood, publicou, entre outros, uma fórmula para o número de partições p(n). Foi eleito Fellow da Royal Society e, em outubro de 1918, do Trinity College, o primeiro indiano a sê-lo. O Trinity lembra que ele enfrentou racismo, a guerra e uma dieta que a escassez tornava quase impossível; a saúde piorou, e ele voltou à Índia em 1919. Morreu em 26 de abril de 1920.

O que os cadernos ainda rendem

Em 12 de janeiro de 1920, Ramanujan mandou a Hardy 17 séries, as mock theta, sem provas. Em 1976 George Andrews achou o caderno perdido, entre papéis de Watson no Trinity. Em 2002, Sander Zwegers, aluno de Don Zagier, mostrou que as mock theta são parte de formas modulares reais. Em 2012, Dabholkar, Murthy e Zagier usaram formas mock modulares para descrever buracos negros quânticos na teoria das cordas.

Como sabemos

Cronologia e conteúdo matemático vêm da MacTutor (St Andrews), do artigo de Ken Ono nas Notices da AMS, do Trinity College e do artigo de Dabholkar, Murthy e Zagier; as partes incertas (diagnóstico, anedota, racismo) estão marcadas.

Em debate: Causa da doença e da morte. Na época falou-se em tuberculose; D. A. B. Young reexaminou as evidências e concluiu por amebíase hepática, hipótese que as fontes mais recentes adotam como a mais provável, mas diagnóstico retrospectivo nunca é definitivo.

Em debate: A anedota do táxi 1729 vem do relato de Hardy. A matemática é exata, mas o diálogo não tem testemunho independente.

Fontes

  1. MacTutor History of Mathematics, Universidade de St Andrews — Srinivasa Ramanujan (1887–1920), biografia
    consultada em 05/10/2026
  2. Notices of the American Mathematical Society, v. 57, n. 11 (dezembro de 2010) — The Last Words of a Genius
    consultada em 05/10/2026
  3. Trinity College, Universidade de Cambridge — The Man Who Knew Infinity
    consultada em 05/10/2026
  4. arXiv (Universidade Cornell) — Quantum Black Holes, Wall Crossing, and Mock Modular Forms (arXiv:1208.4074)
    consultada em 05/10/2026
  5. Science Museum Group (Londres) — Ramanujan: divining the origins of genius
    consultada em 05/10/2026
  6. Explore Trinity, Trinity College, Universidade de Cambridge — Ramanujan
    consultada em 05/10/2026
  7. Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) — Almost a century of answering the question: what is a mock theta function?
    consultada em 05/10/2026
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