Evolução

Como se enraíza a árvore da vida sem grupo externo: genes duplicados, modelos e um debate aberto

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Origem da vida

Uma árvore de genes mostra quem é parente de quem, mas não qual ramo é o mais antigo: a raiz vem de fora. Para toda a vida celular não há grupo externo, e se recorre a genes duplicados antes do último ancestral comum e a modelos que detectam direção. Esses métodos apontam, em geral, uma raiz junto às bactérias, mas usam poucos genes e dependem do modelo: há quem a ponha dentro delas.

Uma árvore filogenética sem raiz mostra só o grau de parentesco; a raiz indica o ancestral comum e dá direção ao tempo. O modo clássico de enraizar é um grupo externo (outgroup): uma linhagem sabidamente separada do conjunto estudado. Para a árvore de toda a vida celular, que reúne Bacteria, Archaea e eucariotos, isso não existe. A raiz "canônica" fica entre Bacteria e o ramo que leva a Archaea e eucariotos. Outras propostas a põem dentro das bactérias. É uma questão distinta de saber se os eucariotos formam um domínio próprio ou nascem de dentro das Archaea, embora as duas dependam de modelos e de genes escolhidos.

Os genes que servem de grupo externo uns aos outros

Um gene duplicado antes de LUCA gerou duas famílias. Cada uma carrega, nos seus ramos, a história das mesmas espécies; por isso uma pode enraizar a outra. A datação de LUCA de 2024 usou cinco desses pares, como as subunidades da ATP sintase.

Por que a árvore chega sem raiz

Os modelos de substituição mais usados são reversíveis e estacionários: a probabilidade da árvore é a mesma em qualquer posição da raiz. Por isso as árvores de genes conservados saem sem raiz, e se pede ajuda externa. Em geral, essa ajuda é um grupo externo, um conjunto de táxons sabidamente fora do grupo estudado. Mas o grupo externo pode atrapalhar: se for muito distante, a atração de ramos longos puxa sequências de evolução rápida para perto dele e as faz parecer antigas.

Como sabemos: genes duplicados antes de LUCA

Sem grupo externo, a saída é uma duplicação antiga: se um gene já existia em duas cópias em LUCA, cada cópia enraíza a outra. Análises assim apoiaram uma raiz no ramo das Bacteria. O limite é prático: poucas duplicações podem ser traçadas até LUCA, e os ramos basais longos das árvores são sensíveis a erro. Esse enraizamento por parálogos é tratado aqui pelos artigos de 2015 e 2023; os originais de 1989 não foram lidos.

Modelos que detectam direção e a raiz dentro das bactérias

Modelos não reversíveis fazem a raiz entrar na própria análise. Em 2015, três conjuntos de dados excluíram a raiz das Archaea e dos eucariotos e a puseram no ramo das bactérias ou dentro delas. A hipótese de raiz dentro das bactérias gram-positivas, de Gupta, deriva as arqueias de firmicutos, mas segundo Valas e Bourne ela é rejeitada em geral por não ter raiz única e pela distância que separa os dois grupos. Os defensores dela são os autores da fonte lida.

O que a raiz muda, e o que fica em aberto

A raiz decide o que é antigo e o que é derivado. Valas e Bourne observam que a ideia de um LUCA acelular depende da raiz entre Archaea e Bacteria. Um método de 2023 testa hipóteses de raiz com todas as famílias de genes, sem árvore de espécies, mas só foi demonstrado em Opisthokonta e Proteobacteria. Já a posição dos eucariotos é outra questão: Williams e colegas (2020) os põem dentro das Archaea, e a ideia é contestada.

Como sabemos

Mecanismos e posições de raiz apoiados em cinco artigos abertos lidos por inteiro; os trabalhos de 1989 sobre parálogos e as críticas de Philippe e Forterre foram conhecidos só por citação.

Em debate: Onde está a raiz: entre Bacteria e Archaea ou dentro das bactérias?

Em debate: Dois ou três domínios

Fontes

  1. Philosophical Transactions of the Royal Society B — New substitution models for rooting phylogenetic trees
    Williams, T. A.; Heaps, S. E.; Cherlin, S.; Nye, T. M. W.; Boys, R. J.; Embley, T. M. · 2015 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rstb.2014.0336
  2. Biology Direct — The origin of a derived superkingdom: how a gram-positive bacterium crossed the desert to become an archaeon
    Valas, R. E.; Bourne, P. E. · 2011 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1186/1745-6150-6-16
  3. Nature Ecology & Evolution — Phylogenomics provides robust support for a two-domains tree of life
    Williams, T. A.; Cox, C. J.; Foster, P. G.; Szöllősi, G. J.; Embley, T. M. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41559-019-1040-x
  4. Genome Biology and Evolution — Phylogenomic Testing of Root Hypotheses
    Tria, F. D. K.; Landan, G.; Romero Picazo, D.; Dagan, T. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1093/gbe/evad096
  5. Nature Ecology & Evolution — The nature of the last universal common ancestor and its impact on the early Earth system
    Moody, E. R. R. et al. · 2024 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 9; conferência de trechos automatizada)

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