Fenômenos naturais

Um raio aquece o ar a cerca de 30.000 °C, cerca de cinco vezes a temperatura da superfície do Sol

Publicado em 05/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026

Um raio aquece o ar a cerca de 30.000 °C em poucos milionésimos de segundo. A superfície do Sol fica em torno de 5.500 °C. O calor vem da descarga de retorno: quando o canal aberto pela nuvem toca o chão, uma corrente que em média chega a cerca de 30 mil ampères percorre o canal de baixo para cima a perto de um terço da velocidade da luz, num fio de ar com apenas 2,5 a 5 cm de diâmetro.

Tudo começa com um canal que o olho não vê. No raio mais comum, que leva carga negativa da nuvem ao solo, um líder escalonado desce em saltos de cerca de 50 metros, cada um com cerca de 1 microssegundo, separados por pausas de cerca de 50 microssegundos, e se ramifica pelo caminho. Perto do chão, ele faz subir descargas de carga positiva a partir de objetos altos, como árvores, casas e postes. Quando uma delas encontra o líder, em geral a 30 a 100 metros do solo, o circuito se fecha. A corrente atinge o pico em cerca de 1 microssegundo, e uma frente luminosa sobe pelo canal até a nuvem. Essa descarga de retorno responde por mais de 99% da luz do raio: o clarão que parece cair, na verdade, sobe.

Por que o raio pisca

Depois da primeira descarga, o canal continua ionizado. Se ainda houver carga disponível na nuvem, um novo líder, sem ramificações, desce pelo mesmo caminho em 20 a 50 milissegundos e provoca outra descarga de retorno. Um raio negativo pode ter de uma a cerca de 20 dessas descargas; o recorde é de 47. É essa repetição que faz o raio tremeluzir.

O caminho invisível

O raio mais comum, que leva carga negativa da nuvem ao solo, começa com o líder escalonado. Ele avança em zigue-zague, em segmentos de cerca de 50 metros, cada salto com cerca de 1 microssegundo e pausas de cerca de 50 microssegundos entre eles, e se ramifica em várias direções. É fraco demais para ser visto a olho nu e chega perto do solo em menos tempo que um piscar de olhos. Ao se aproximar, induz descargas positivas que sobem de objetos altos; a ligação se faz, em geral, a 30 a 100 metros do chão.

A descarga de retorno

Fechado o circuito, a corrente chega ao pico em cerca de 1 microssegundo; em média, esse pico fica em torno de 30 mil ampères. A frente luminosa sobe do solo para a nuvem a cerca de 97 mil km/s, perto de um terço da velocidade da luz. Uma revisão de Vladimir Rakov, da Universidade da Flórida, situa a velocidade média abaixo da base da nuvem entre um terço e metade da velocidade da luz. Essa etapa produz mais de 99% da luz do raio.

Como se mede a temperatura

Ninguém põe um termômetro num raio: a temperatura é calculada pela luz. Em 1968, Richard Orville registrou com câmeras de alta velocidade os primeiros espectros de descargas de retorno resolvidos no tempo, com linhas de hidrogênio, nitrogênio e oxigênio. A temperatura subia nos primeiros 10 microssegundos até cerca de 28.000 a 31.000 K e depois caía. Estudos posteriores com raios provocados por foguetes estimaram valores acima de 40.000 K. Nessa escala, kelvin e graus Celsius diferem pouco.

Um canal fino e cheio de golpes

O canal por onde passa a corrente tem só de 2,5 a 5 cm de diâmetro, cercado por uma região de partículas carregadas. Aquecido em milionésimos de segundo, o ar não tem tempo de se expandir, fica sob pressão muito alta e então se expande de forma violenta: é o trovão. Depois da primeira descarga, novos líderes podem descer pelo mesmo canal e repetir o processo, até cerca de 20 vezes. Raios positivos, menos comuns, costumam ter uma só descarga e mais chance de manter corrente prolongada.

Como sabemos

Os números vêm de páginas educativas da NOAA, de uma revisão sobre velocidade da descarga de retorno (Rakov, 2007), de artigo do JGR que resume as medições espectroscópicas de temperatura e da NASA; a temperatura é apresentada como valor aproximado.

Fontes

  1. NOAA, National Weather Service (JetStream) — JetStream Max: The Lightning Process: Keeping in Step
    consultada em 05/10/2026
  2. NOAA National Severe Storms Laboratory — Severe Weather 101: Lightning Types
    consultada em 05/10/2026
  3. NOAA National Severe Storms Laboratory — Severe Weather 101: Lightning FAQ
    consultada em 05/10/2026
  4. Journal of Geophysical Research: Atmospheres (AGU); Instituto de Astrofísica de Andalucía (CSIC) — High-speed spectroscopy of lightning-like discharges: evidence of molecular optical emissions
    consultada em 05/10/2026
  5. Journal of Lightning Research, v. 1, p. 80–89; University of Florida — Lightning Return Stroke Speed
    consultada em 05/10/2026
  6. NASA Science — Sun: Facts
    consultada em 05/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 2 · 06/10/2026 — Galeria de natureza: 4 imagem(ns) real(is) do Commons
  • Versão 1 · 05/10/2026 — primeira versão

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