Evolução

Rainha Vermelha: o parasita acompanha o hospedeiro, em sedimento de lago e em vermes de laboratório

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Evolução biológica

A hipótese de Van Valen (1973) diz que espécies precisam evoluir sem parar porque as que interagem com elas também evoluem, e a aptidão relativa média fica constante. Em pulgas-d'água, o parasita se adaptou ao hospedeiro em poucos anos, registro guardado no sedimento. Em vermes, uma bactéria em coevolução manteve o cruzamento alto e extinguiu as populações que só se autofecundavam.

Van Valen formulou a hipótese em 1973 para explicar por que grupos de organismos parecem ter a mesma chance de extinção qualquer que seja a idade. A ideia central é que o ambiente de uma espécie inclui outras espécies que também evoluem, e por isso a seleção não cessa quando o clima se estabiliza. Interações entre parasita e hospedeiro são o caso mais estudado, porque a força de seleção é parecida nos dois lados. Nesse caso, o parasita tende a acompanhar o genótipo mais comum do hospedeiro, e os genótipos raros escapam. Daí vem a versão sobre o sexo: reprodução com troca de genes gera filhos com combinações raras, o que seria vantajoso apesar do custo de produzir machos.

Um arquivo vivo no fundo do lago

Os estágios de repouso de Daphnia afundam e podem sobreviver muitos anos no sedimento. Cientistas fatiam o testemunho em camadas, datam cada uma e chocam os embriões para comparar hospedeiros e parasitas de épocas diferentes.

A proposta de 1973 e a parte dela que segue em disputa

Segundo uma revisão de 2014, Van Valen propôs que cada adaptação de uma espécie é respondida por adaptações de outra, de modo que a evolução contínua é necessária só para persistir e a aptidão relativa média fica constante. Ele a apresentou para explicar uma observação em fósseis, a extinção independente da idade, chamada Lei da Extinção Constante. Essa lei é controversa e as evidências fósseis foram questionadas, mas a ideia de que conflitos entre espécies sustentam a mudança teve grande influência.

Por que o parasita é o caso modelo: ele acompanha o genótipo comum

Na versão flutuante da Rainha Vermelha, o parasita acompanha o genótipo mais comum do hospedeiro, e os raros escapam, o que mantém variação genética. A revisão classifica Daphnia e seus microparasitas nesse modo e o tritão e a cobra no modo escalatório, em que a disputa vira corrida de intensidade crescente. Quem quiser esse segundo modo pode ver a corrida do tritão e da cobra e a do chupim e seus hospedeiros, já tratadas aqui.

Como sabemos (1): o arquivo de ovos dormentes no sedimento

Estágios dormentes de Daphnia e de seus microparasitas ficam em sedimento de lagos e funcionam como arquivo de conjuntos de genes do passado. Decaestecker e colegas usaram esse arquivo e mostraram que o parasita se adapta ao hospedeiro em poucos anos, com virulência crescente e infectividade quase estável. O limite é que a eclosão de estágios antigos costuma ser baixa, e o estudo de 2007 foi lido só no resumo.

Como sabemos (2): vermes e bactérias em 30 gerações

Morran e colegas passaram vermes por 30 gerações com uma bactéria que evoluía por seleção de infectividade. Nos vermes selvagens, o cruzamento subiu de 20% para mais de 70% e, com a bactéria em coevolução, ficou alto; com a cepa fixa voltou ao nível do controle. Os vermes só autofecundados se extinguiram em até 20 gerações. Os autores falam em resultado consistente com a hipótese, e outro estudo com a espécie não viu o cruzamento subir.

Como sabemos

Os resultados dos vermes e a revisão foram lidos no texto integral, mas o estudo central do sedimento (Decaestecker 2007) foi lido só no resumo e o artigo de 1973 não foi lido.

Em debate: A revisão de 2014 diz que a lei é controversa e que a força das evidências fósseis que a sustentam foi posta em dúvida, embora a ideia mais ampla de conflito biótico perpétuo tenha sido muito influente.

Fontes

  1. Nature — Host-parasite 'Red Queen' dynamics archived in pond sediment
    Decaestecker, E.; Gaba, S.; Raeymaekers, J. A. M.; Stoks, R.; Van Kerckhoven, L.; Ebert, D.; De Meester, L. · 2007 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/nature06291
  2. Science — Running with the Red Queen: Host-parasite coevolution selects for biparental sex
    Morran, L. T.; Schmidt, O. G.; Gelarden, I. A.; Parrish, R. C.; Lively, C. M. · 2011 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1126/science.1206360
  3. Proceedings of the Royal Society B — Running with the Red Queen: the role of biotic conflicts in evolution
    Brockhurst, M. A.; Chapman, T.; King, K. C.; Mank, J. E.; Paterson, S.; Hurst, G. D. D. · 2014 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1098/rspb.2014.1382
  4. EvoDevo — Daphnia as a versatile model system in ecology and evolution
    Ebert, D. · 2022 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  5. Understanding Evolution, University of California, Berkeley — Coevolution (Understanding Evolution)
    University of California Museum of Paleontology · s.d. · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 15; conferência de trechos automatizada)

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