História da África

Njinga Mbande, rainha de Ndongo e Matamba, enfrentou e negociou com Portugal por quase quatro décadas

Publicado em 04/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026

Njinga Mbande nasceu por volta de 1582 na família governante de Ndongo, reino mbundu no atual território de Angola. Em 1622, foi a Luanda negociar a paz com os portugueses em nome do irmão. Assumiu o poder em 1624 e, dali até morrer, em 17 de dezembro de 1663, combinou guerra, alianças e diplomacia: uniu-se aos guerreiros imbangalas, conquistou Matamba, aliou-se aos holandeses e, em 1656, obteve de Portugal o reconhecimento como rainha de Matamba.

Quase tudo o que se sabe sobre Njinga vem de fontes escritas por portugueses e por missionários capuchinhos italianos, como Giovanni Antonio Cavazzi, muitas vezes de segunda mão ou décadas depois dos fatos. Essas fontes a descreveram com preconceito racial e de gênero e destacaram histórias de crueldade para justificar a colonização. A exceção são as cartas que ela própria escreveu em português a reis e governadores. Os historiadores leem esse material com cuidado: a morte do irmão, em 1624, por exemplo, é atribuída ora a suicídio, ora a envenenamento ordenado por ela. Também é preciso dizer que Njinga participou do comércio de escravizados; o tratado de 1656 incluía a retomada desse comércio com os portugueses. Em Angola, ela foi adotada como heroína pelo movimento de independência e é lembrada como figura fundadora da nação.

Rainha Ginga no Brasil

A memória de Njinga atravessou o Atlântico com os africanos escravizados levados de Angola. No Brasil, ela aparece como a Rainha Ginga nas congadas, festas em que se coroam um rei do Congo e uma rainha, e inspirou a figura de Matamba no candomblé. No Rio de Janeiro, foi tema do carnaval de 2010.

Uma família no poder em Ndongo

Njinga nasceu por volta de 1582 na linhagem governante de Ndongo, reino dos mbundu no interior da atual Angola. O título do soberano, ngola, acabou dando nome a Angola. Os portugueses haviam fundado Luanda no fim da década de 1570 e avançavam para o interior em busca de cativos para o tráfico atlântico. O pai de Njinga lutou contra eles durante anos e morreu em 1617. O irmão dela, Ngola Mbande, tomou o poder eliminando possíveis rivais, entre eles o filho pequeno de Njinga, segundo as fontes coloniais. Pressionado pelos portugueses, ele recorreu à irmã para negociar.

A embaixada de 1622

Em 1622, Njinga chegou a Luanda como enviada do irmão para negociar com o governador João Correia de Sousa. O padre Cavazzi registrou, décadas depois, a cena que a tornou célebre: como não lhe ofereceram cadeira, ela mandou uma criada se curvar e se sentou sobre ela, ficando no mesmo nível do governador. Njinga obteve um acordo de paz e, durante a estada, foi batizada como Ana de Sousa. O acordo durou pouco. Os portugueses retomaram a guerra, e o irmão de Njinga morreu em 1624, em circunstâncias até hoje discutidas.

Rainha sem trono garantido

Ao assumir o poder em 1624, Njinga enfrentou dois obstáculos: os portugueses e a falta de tradição de rainhas em Ndongo. Portugal apoiou outro pretendente, Ngola a Hari, e em 1626 expulsou Njinga da maior parte do reino. Ela respondeu com uma aliança com os imbangalas, guerreiros do planalto central angolano, e, no início da década de 1630, completou os rituais que a tornaram uma de suas líderes. Na mesma época conquistou Matamba, reino com longa tradição de governantes mulheres. Dali em diante passou a se apresentar como rainha dos dois reinos.

Guerra, alianças e os holandeses

Durante cerca de três décadas, Njinga comandou pessoalmente tropas e fez guerra de guerrilha contra os portugueses. Na década de 1640, aliou-se aos holandeses, que ocupavam Luanda. Em 1640, atacou o forte de Massangano; suas irmãs Kambu e Funji caíram prisioneiras dos portugueses, e Funji foi executada. Na mesma década, segundo fontes portuguesas, Njinga passou a viver como homem para reforçar sua autoridade, prática com precedentes entre governantes da região. Os holandeses, porém, acabaram fazendo paz em separado com Portugal e romperam a aliança.

A paz de 1656 e os últimos anos

Depois de longas negociações, Njinga firmou a paz com Portugal em 1656. O tratado a reconhecia como rainha de Matamba, fixava o rio Lucala como fronteira e devolvia sua irmã Kambu, após o pagamento de um resgate. Em troca, ela se comprometia a apoiar Portugal militarmente, a retomar o comércio de escravizados com os portugueses e a receber missionários. Em 1657, os portugueses a reconheceram também como governante de Ndongo. Nos últimos anos, Njinga recebeu capuchinhos na corte e trocou cartas com o papa Alexandre VII. Morreu em 17 de dezembro de 1663, e Kambu a sucedeu.

Como sabemos, e o que não sabemos

A vida de Njinga é conhecida sobretudo por documentos portugueses e pelos relatos de dois missionários capuchinhos italianos que viveram em sua corte, Antonio da Gaeta e Giovanni Antonio Cavazzi. Esses autores a viam com preconceito racial e de gênero e enfatizaram episódios de crueldade, em parte para justificar a colonização e a missão. Por isso, histórias como a morte do irmão e do sobrinho são tratadas com cautela. As cartas que ela própria escreveu em português são a principal exceção. A memória de Njinga seguiu viva em Angola e entre os descendentes de africanos levados ao Brasil.

Como sabemos

As datas centrais (1622, 1624, 1656, 1663) concordam em Britannica, UNESCO e Revista USP; pontos que dependem só de fontes coloniais hostis estão marcados.

Em debate: O ano de nascimento varia entre 1581 e 1583 conforme o autor.

Em debate: A morte do irmão Ngola Mbande em 1624 (suicídio ou envenenamento) e a de seu sobrinho são narradas por fontes coloniais hostis a Njinga; não há como confirmá-las de modo independente.

Em debate: A data do tratado de paz com Portugal aparece como 1656 (Serrano, Britannica) ou 1657 (UNESCO, que se refere à ratificação).

Em debate: A cena da criada transformada em assento vem do relato de Cavazzi, escrito décadas depois; é aceita como tradição da época, mas seus detalhes não são verificáveis.

Fontes

  1. Encyclopaedia Britannica — Nzinga
    consultada em 03/10/2026
  2. UNESCO (2014), PDF disponibilizado pela UNESCO no Wikimedia Commons — Nzinga Mbandi, Queen of Ndongo and Matamba (série Mulheres na História da África)
    consultada em 03/10/2026
  3. Revista USP, n. 28 (1995/1996), Universidade de São Paulo — Ginga, a rainha quilombola de Matamba e Angola
    consultada em 03/10/2026
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