Zoologia

Raias de água doce: descendem de raias marinhas, mas como chegaram aos rios sul-americanos ainda se discute

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

As raias de água doce sul-americanas (Potamotrygonidae) vêm de uma linhagem marinha. A hipótese mais citada liga a entrada nos rios às incursões marinhas do Oligoceno e do Mioceno no oeste da Amazônia. As datas, porém, variam: dentes fósseis do Peru já indicam uma raia da família em água doce há cerca de 41 milhões de anos, e se o mar chegou mesmo à região é debatido.

Quase todas as raias vivem no mar. Os potamotrigonídeos formam a família endêmica da América do Sul e reúnem todas as raias de água doce do continente. Estudos de fisiologia as descrevem como restritas a águas de salinidade abaixo de 3, o que as separa das espécies marinhas que só entram de passagem em rios. Sinais dessa origem antiga estariam na redução ou perda aparente da capacidade de reter ureia e na atrofia da glândula retal que secreta sal. Isso leva à pergunta do artigo: por onde uma linhagem marinha chegou aos rios? A resposta mais citada vem de filogenias datadas, que a ligam ao sistema de áreas alagadas do Pebas, no oeste amazônico. Ela depende de um mar que invadiu o interior do continente, algo que a geologia ainda discute.

Dentes de cerca de 41 milhões de anos

Em 2014, pesquisadores descreveram 67 dentes isolados da Formação Yahuarango, perto de Contamana, na Amazônia peruana, atribuídos a uma espécie nova de Potamotrygon. Para eles, o ancestral marinho da família teria entrado nos rios ainda antes.

A hipótese: o Pebas como porta de entrada

Segundo Pereira e colegas, Fontenelle e colegas (2021) propõem que invasões marinhas do Oligoceno e do Mioceno deram origem às raias de água doce da Amazônia superior, nos sistemas alagados do Pebas. Rossi e colegas citam a faixa de 32 a 21 milhões de anos para essa divergência. Kolmann e colegas situam a invasão entre o final do Oligoceno e o início do Mioceno. É hipótese, não fato: as datas vêm de filogenias moleculares, e o que sabemos do Pebas está nos artigos relacionados.

Como sabemos: árvores genealógicas datadas e sedimentos

Duas linhas de evidência se encontram aqui. A primeira é a filogenia: Kolmann e colegas montaram uma árvore multigênica calibrada no tempo para as raias neotropicais de água doce, o que permite estimar quando os ramos se separaram. A segunda é o sedimento: Jaramillo e colegas analisaram pólen, microfósseis e rochas de dois testemunhos, na Colômbia e no Brasil, para ver se houve mar. Os dois métodos têm limites: a árvore dá datas com incerteza, e os testemunhos cobrem pontos específicos, não a bacia inteira.

O que tensiona a hipótese: fósseis do Eoceno e dúvidas sobre o mar

Adnet e colegas descreveram dentes de uma raia de água doce de cerca de 41 milhões de anos, no Peru, e concluíram que o ancestral marinho entrou nos rios antes disso. Jaramillo e colegas lembram que há controvérsia sobre se o mar cobriu o oeste da Amazônia. Eles registraram dois intervalos marinhos na Colômbia, de 18,1 a 17,2 e de 16,1 a 12,4 milhões de anos atrás, mais recentes que a faixa de 32 a 21 milhões de anos. As datas e a rota continuam em aberto.

Dos rios amazônicos ao Paraná

Segundo Pereira e colegas, Fontenelle e colegas (2021) apontam Potamotrygon brachyura como a linhagem mais antiga dos sistemas Paraná-Paraguai, com cerca de 12 milhões de anos e colonização a partir da Amazônia. A descrição combina com a ideia de que a Amazônia superior foi o ponto de partida, mas é um resultado citado de segunda mão. Por isso os rios do Paraná aparecem aqui como parte da hipótese, não como prova dela.

Como sabemos

A origem marinha é bem estabelecida; a rota e a data da entrada nos rios são hipóteses com evidências em tensão, e parte delas veio de segunda mão.

Em debate: A hipótese mais citada liga a origem das raias de água doce a incursões marinhas do Oligoceno e do Mioceno no oeste amazônico (a5, a6, a7). Fósseis do Peru recuam a família ao Eoceno médio, há cerca de 41 milhões de anos, e sugerem entrada ainda mais antiga (a8, a9). A própria existência de mar cobrindo o oeste da Amazônia no Mioceno é discutida entre geólogos (a10), embora sedimentos da Colômbia registrem dois intervalos marinhos (a11).

Fontes

  1. Journal of Fish Biology — Branchial localization of acid (A-type) and base (B-type) excreting ionocytes in Amazonian stenohaline freshwater Potamotrygon ray
    Rossi, M. W.; Wood, C. M.; Val, A. L.; Wilson, J. M. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1111/jfb.70060
  2. Journal of Fish Biology — Distribution modelling for Neotropical freshwater stingrays Potamotrygon brachyura and Potamotrygon motoro (Myliobatiformes, Potamotrygonidae) in the Uruguay River basin
    Pereira, D. A. S.; Reis, R. E.; Fontoura, N. F. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1111/jfb.70219
  3. Integrative and Comparative Biology — Ecological and Phenotypic Diversification after a Continental Invasion in Neotropical Freshwater Stingrays
    Kolmann, M. A.; Marques, F. P. L.; Weaver, J. C.; Dean, M. N.; Fontenelle, J. P.; Lovejoy, N. R. · 2022 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1093/icb/icac019
  4. Naturwissenschaften — Comparisons of dental morphology in river stingrays (Chondrichthyes: Potamotrygonidae) with new fossils from the middle Eocene of Peruvian Amazonia rekindle debate on their evolution
    Adnet, S.; Salas Gismondi, R.; Antoine, P.-O. · 2014 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1007/s00114-013-1127-1
  5. Science Advances (Smithsonian Tropical Research Institute e outras instituições) — Miocene flooding events of western Amazonia
    Jaramillo, C.; Romero, I.; D'Apolito, C.; et al. · 2017 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1126/sciadv.1601693
  6. Proceedings of the National Academy of Sciences — Landscape dynamics and diversification of the megadiverse South American freshwater fish fauna
    Cassemiro, F. A. S.; Albert, J. S.; Antonelli, A.; et al. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 20; conferência de trechos automatizada)

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