Genética

Por que “raça” não é uma categoria genética, apesar de existirem diferenças entre populações

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

Assuntos: Genética

As populações humanas diferem geneticamente, e isso pode ser medido: com muitos marcadores, os indivíduos se agrupam em conjuntos que acompanham grandes regiões do mundo. Mas a variação é, em boa parte, gradual e compartilhada, e os agrupamentos mudam conforme quem entra na análise. As categorias raciais são classificações sociais, e não correspondem a esses padrões.

Um alelo é uma versão de um gene ou de um trecho de DNA; entre populações, o que muda é sobretudo a frequência de cada alelo, não a presença de uns e a ausência de outros. Cline é a mudança gradual dessas frequências ao longo do espaço. Agrupamento (cluster) é um conjunto de indivíduos que um algoritmo reúne por semelhança genética, sem rótulos prévios. Ancestralidade genética descreve de quais antepassados uma pessoa herdou DNA. Raça, no sentido usado em censos e na vida social, é um sistema de classificação criado por sociedades. São três coisas distintas, e o erro comum é tratar uma como se fosse a outra.

Uma lista que nunca ficou parada

Segundo o relatório da NASEM, a lista de grupos raciais do censo dos EUA mudou quase a cada década desde 1790, com categorias como “mulatto”, “Mexican” e “Hindu” aparecendo e sumindo. Um sistema que muda assim ao longo do tempo não acompanha uma divisão fixa do genoma.

Como sabemos que há estrutura entre populações

Em 2002, Rosenberg e colegas analisaram 377 marcadores (microssatélites) em 1.056 pessoas de 52 populações. Sem informar a origem de ninguém ao programa, a análise apontou seis agrupamentos principais, cinco ligados a grandes regiões. Em 2005, o grupo repetiu o teste com 993 marcadores e checou se o resultado vinha de amostragem desigual: a dispersão geográfica da amostra pesou pouco. Limite: o número de agrupamentos (K) é uma escolha da análise.

Gradiente com saltos: o que a variação contínua permite dizer

As frequências dos alelos tendem a variar de forma contínua com a distância, com diferenças um pouco maiores entre barreiras como oceanos e montanhas (NASEM, 2023). Rosenberg e colegas (2005) leem seus agrupamentos como pequenos saltos entre populações separadas por barreiras, e indivíduos de regiões intermediárias aparecem com pertencimento misto. Agrupar por semelhança é possível, mas onde se traça a fronteira depende de quem entra na análise.

Diferenças reais, sem raças

Algumas diferenças entre populações são reais e vêm de adaptação local, como o alelo nulo Duffy, ligado à suscetibilidade a infecções. A NASEM nota, porém, que há muito poucos casos assim, e que a diversidade humana é baixa: cerca de 1 sítio em 1.000 difere entre dois cromossomos. A cor da pele envolve mais de 37 loci, ambiente e fluxo gênico, e se distribui em gradiente (AABA, 2019).

Ancestralidade genética não é raça social

Ancestralidade genética diz de quais antepassados uma pessoa herdou DNA. Em pesquisa, forma-se um grupo reunindo indivíduos geneticamente semelhantes e só depois se dá a ele um rótulo não genético, como região ou etnia (NASEM, 2023). Raça, na definição desse relatório, é um sistema sociopolítico de classificação e hierarquização. Tratar o rótulo social como medida genética supõe uma correspondência que os dados não mostram.

No Brasil, cor declarada e ancestralidade não andam juntas

Pena e colegas (2011) estimaram a ancestralidade europeia, africana e ameríndia de 934 brasileiros que se declararam brancos, pardos ou pretos. As categorias de cor do Norte diferiam das do Sul em proporção de ancestralidade, o que os autores atribuem a usos regionais diferentes dos termos. Ponderando pelo censo, a ancestralidade europeia predominava em todas as regiões, de 60,6% no Nordeste a 77,7% no Sul.

Como sabemos

Os pontos centrais vêm de relatório de consenso (NASEM, 2023), declaração de associação científica (AABA, 2019) e estudos de estrutura populacional; os estudos originais foram lidos só no resumo.

Em debate: Uma crítica publicada argumentava que os agrupamentos de 2002 seriam consequência de amostragem desigual ao longo de gradientes genéticos. Rosenberg e colegas (2005) responderam que a geografia da amostra pesa pouco e que os agrupamentos refletem pequenos saltos na distância genética entre populações separadas por barreiras geográficas. As duas leituras concordam que há gradientes na variação, e divergem sobre a origem dos agrupamentos.

Fontes

  1. American Association of Biological Anthropologists — AABA Statement on Race and Racism
    American Association of Biological Anthropologists (subcomitê do Committee on Diversity) · 2019 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  2. National Academies Press — Using Population Descriptors in Genetics and Genomics Research: A New Framework for an Evolving Field, capítulo 1
    National Academies of Sciences, Engineering, and Medicine · 2023 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.17226/26902
  3. National Academies Press — Using Population Descriptors in Genetics and Genomics Research: A New Framework for an Evolving Field, capítulo 2
    National Academies of Sciences, Engineering, and Medicine · 2023 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.17226/26902
  4. Science — Genetic structure of human populations
    Rosenberg, N. A.; Pritchard, J. K.; Weber, J. L.; Cann, H. M.; Kidd, K. K.; Zhivotovsky, L. A.; Feldman, M. W. · 2002 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1126/science.1078311
  5. PLoS Genetics — Clines, clusters, and the effect of study design on the inference of human population structure
    Rosenberg, N. A.; Mahajan, S.; Ramachandran, S.; Zhao, C.; Pritchard, J. K.; Feldman, M. W. · 2005 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1371/journal.pgen.0010070
  6. PLoS ONE — The genomic ancestry of individuals from different geographical regions of Brazil is more uniform than expected
    Pena, S. D. J.; Di Pietro, G.; Fuchshuber-Moraes, M.; et al. · 2011 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0017063
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 17; conferência de trechos automatizada)

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