Zoologia
A rã Hylodes asper acena com a pata ao cantar; a hipótese é que o riacho barulhento favoreceu o sinal visual
Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026
Assuntos: Comunicação animal
Machos de Hylodes asper, rã diurna de riachos da Mata Atlântica, erguem uma pata traseira enquanto cantam e abrem os dedos de brilho prateado: é o foot-flagging, o sinal visual mais marcante da espécie. O canto agudo se separa do ruído da água, que fica sobretudo entre 0 e 2 kHz, mas os autores do estudo de 1999 sugerem que o barulho, junto da luz do dia, favoreceu cores contrastantes e a comunicação visual.
Foot-flagging é um gesto em que a rã levanta uma pata traseira e a estende para cima e para trás, mostrando os dedos abertos. Em H. asper, só os machos o fazem, em geral junto com o canto, e eles defendem rochas e troncos no meio de corredeiras e cachoeiras. A explicação mais intuitiva seria que o ruído da água abafa o canto, e o gesto cobre a falha. Nesta espécie a história é mais fina: o canto é agudo e ocupa uma faixa diferente da do ruído. O que o estudo de campo propõe é que ruído e luz do dia, somados, favoreceram um repertório visual, pois a rã fica à vista e os dedos prateados contrastam com o corpo escuro e a rocha.
O espelho no território
Haddad e Giaretta puseram um espelho de 15 × 10 cm junto a machos que cantavam. De oito, só dois seguiram cantando; um deles parou, encarou o próprio reflexo e emitiu cantos territoriais.
O canto está fora da faixa do ruído
Os autores gravaram cantos e mediram o ruído nos pontos onde os machos cantam. A pressão sonora do ruído era parecida com a do canto, mas a energia do canto fica entre cerca de 5 e 6,5 kHz, e a da água, sobretudo entre 0 e 2 kHz. Por isso concluíram que o ruído talvez não interfira de modo significativo na comunicação acústica. O gesto, então, não parece só um remendo para um canto abafado.
Como sabemos o que o gesto faz
O trabalho foi de observação em campo: 45 dias em 18 visitas a dois riachos paulistas, com filmagem e gravação. Machos territoriais aumentavam os cantos e o foot-flagging ao perceber um intruso, e no teste do espelho, em oito territórios, só dois machos seguiram cantando. Faltou um experimento com modelo de rã ou playback, que isolaria o efeito de cada sinal; isso foi feito em outras espécies, não nesta.
Outras rãs, a mesma pergunta
Em Staurois parvus, de Bornéu, o canto também superou o ruído em 8 dB, e o canto antecede o foot-flagging, como se alertasse o receptor para olhar. Já Micrixalus saxicola, que também vive em riacho ruidoso, respondeu a estímulos sobretudo com canto e nunca fez o gesto. Na rã-de-vidro Sachatamia orejuela, sinais visuais aparecem à noite junto a cachoeiras. Viver perto de água barulhenta, portanto, não basta para prever o gesto.
O que continua em aberto
A ideia de que ruído e luz favoreceram o sinal visual em H. asper é uma hipótese dos autores, escrita com "provavelmente". Rãs de famílias e continentes diferentes têm comunicação visual além do canto, o que os autores chamam de convergência, isto é, origem independente em linhagens separadas; os estudos citados descrevem o comportamento e não reconstroem sua origem. Uma resposta pediria testar a eficácia de cada sinal sob o ruído de cada riacho.
Como sabemos
A descrição do comportamento vem do estudo de 1999, lido por inteiro; a explicação pelo ruído é hipótese dos autores e os estudos comparativos foram lidos só no resumo.
Em debate: O ruído da água explica o gesto? Haddad e Giaretta indicam que ruído e luz provavelmente favoreceram a comunicação visual, mas também concluem que o canto agudo talvez seja pouco mascarado. Em outras rãs, o canto resiste ao ruído e o gesto pode ter função de alerta; o motivo evolutivo em H. asper segue como hipótese.
- Fato estabelecido: Hylodes asper é uma rã diurna, e o foot-flagging (erguer e estender uma pata traseira) é o display mais distintivo do seu repertório de sinais visuais. [1] Resumo
Contexto: Populações de Paranapiacaba (Santo André) e Picinguaba (Ubatuba), São Paulo, observadas de 1988 a 1994. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: No gesto, o macho abre os dedos da pata estendida e deixa à mostra a cor prateada da face de cima dos dedos e das franjas. [1] Resultados, comunicação visual de machos isolados
Contexto: Descrição de machos observados em campo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: As fêmeas não têm esse padrão de cor contrastante nos pés e não foram vistas fazendo foot-flagging. [1] Resultados, comunicação visual de machos isolados
Contexto: Vale para os indivíduos observados no estudo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O canto de anúncio tem a energia concentrada na terceira harmônica, entre cerca de 5 e 6,5 kHz, e o ruído produzido pelas corredeiras fica sobretudo entre 0 e 2 kHz. [1] Fig. 3, legenda
Contexto: Medido em Picinguaba (Ubatuba) e Paranapiacaba (Santo André), com ar a 24–25 °C. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Os níveis de pressão sonora do ruído, medidos nos pontos de canto, são parecidos com os do canto, mas, como o canto é agudo e o ruído é grave, os autores concluem que a água talvez não interfira de modo significativo na comunicação acústica. [1] Resumo
Contexto: Conclusão dos autores para H. asper. · Limitações: O estudo não mediu a resposta dos receptores ao canto sob ruído (sem experimento de playback nesse trabalho). · Os autores usam "may not": é inferência a partir do espectro, não teste direto. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: Os autores propõem, como hipótese, que o ruído das corredeiras, junto da luz disponível, provavelmente favoreceu a evolução de cores contrastantes e da comunicação visual em H. asper. [1] Resumo
Contexto: Hipótese de Haddad e Giaretta (1999) para a espécie. · Limitações: Não foi testada contra explicações alternativas nesse trabalho. · Escrita pelos autores com "probably"; não é resultado de experimento. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Machos territoriais sobem em rochas e troncos perto de cachoeiras e das corredeiras mais rápidas, e cantam, portanto, das partes mais ruidosas do riacho. [1] Resultados, territorialidade
Contexto: Observações em campo no estudo de 1999. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Quando um macho territorial percebe um intruso, por visão ou ao ouvir o canto de anúncio, aumenta a taxa de cantos e de foot-flagging. [1] Resultados, territorialidade
Contexto: Observação descritiva, sem manipulação experimental dessa resposta. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Num teste com espelho em oito territórios, só dois machos continuaram cantando; um deles parou os cantos de anúncio, encarou o espelho e emitiu cantos territoriais. [1] Resultados, comunicação visual e territorialidade
Contexto: Oito machos, sem grupo controle descrito; indica que a visão importa na interação territorial. · Limitações: Amostra pequena e não controlada. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Em Staurois parvus, rã de riachos de Bornéu, a comunicação vocal não foi prejudicada pelo ruído da água: no canto, a pressão sonora ficou 8 dB acima do ruído na frequência dominante de 5578 Hz. [2] Resumo
Contexto: Outra espécie, Bornéu (Brunei); serve de comparação, não de prova para H. asper. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Evidência forte: Em S. parvus, o canto vem antes do foot-flagging, o que sustenta a hipótese de que o som alerta o receptor para olhar o sinal visual seguinte. [2] Resumo
Contexto: S. parvus em Bornéu; não foi testado em H. asper. · Limitações: A hipótese do sinal de alerta é uma entre outras hipóteses de função de sinais multimodais. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Fato estabelecido: Na rã Micrixalus saxicola, de riacho barulhento, os machos respondiam aos estímulos sobretudo com canto e nunca fizeram foot-flagging, ao contrário de S. parvus. [3] Resumo
Contexto: Experimento de campo com modelo de rã e playbacks; mostra que viver em riacho ruidoso não implica sempre o gesto. · Limitações: Resultado de um estudo com duas espécies. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Interpretação: Algumas espécies de rãs ao redor do mundo, de famílias e continentes diferentes, desenvolveram comunicação visual além do canto, o que Brunner e Guayasamin tratam como exemplo claro de evolução convergente. [4] Resumo
Contexto: Convergente = surgiu de modo independente em linhagens distintas. Haddad e Giaretta (1999) já apontavam Staurois, Taudactylus e Hylodes como casos de sinais de pata. · Limitações: Só o resumo foi lido; a lista completa de espécies não foi conferida. · Conferida em parte (resumo), conferência automatizada - Fato estabelecido: Em 2020, Brunner e Guayasamin descreveram, na rã-de-vidro Sachatamia orejuela, que vive na zona de respingo de cachoeiras, uma sequência de sinais visuais noturnos (foot-flagging, hand-waving e head-bobbing). [4] Resumo
Contexto: Espécie do Equador; só o resumo foi lido (texto completo atrás de paywall). · Limitações: Só o resumo foi lido. · Conferida em parte (resumo), conferência automatizada
Fontes
- Herpetologica (Herpetologists' League); cópia no Repositório Institucional da Unesp — Visual and Acoustic Communication in the Brazilian Torrent Frog, Hylodes asper (Anura: Leptodactylidae)
Haddad, C. F. B.; Giaretta, A. A. · 1999 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 - PLoS ONE — Multimodal communication in a noisy environment: a case study of the Bornean rock frog Staurois parvus
Grafe, T. U.; Preininger, D.; Sztatecsny, M.; Kasah, R.; Dehling, J. M.; Proksch, S.; Hödl, W. · 2012 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0037965 - PLoS ONE — Divergent receiver responses to components of multimodal signals in two foot-flagging frog species
Preininger, D.; Boeckle, M.; Freudmann, A.; Starnberger, I.; Sztatecsny, M.; Hödl, W. · 2013 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0055367 - Behaviour (Brill) — Nocturnal visual displays and call description of the cascade specialist glassfrog Sachatamia orejuela
Brunner, R. M.; Guayasamin, J. M. · 2020 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1163/1568539x-bja10048
Histórico de alterações
- Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 6; conferência de trechos automatizada)