Zoologia

Genomas de 234 isolados apontam a Península Coreana como origem do fungo quitrídio dos anfíbios

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

A comparação de 234 genomas do fungo Batrachochytrium dendrobatidis, publicada em 2018, indica a Península Coreana como origem das linhagens atuais: lá vive a BdASIA-1, a mais diversa geneticamente e com marcas de população ancestral. A linhagem pandêmica (BdGPL) teria surgido entre 120 e 50 anos antes do estudo, na época da expansão do comércio de anfíbios.

O Batrachochytrium dendrobatidis (Bd) é um fungo microscópico que infecta a pele de anfíbios e causa a quitridiomicose, descrita em 1998 em animais da Austrália e do Panamá. Um micro-organismo não deixa certidão de nascimento: para achar a origem, compara-se o DNA de muitos isolados, isto é, culturas obtidas de animais infectados. Regiões com linhagens (grupos geneticamente distintos) muito diversas e antigas são candidatas a ponto de origem. A onda de declínios é atribuída a uma só linhagem, a BdGPL (Global Panzootic Lineage), e até 2018 sua origem era apontada para África, América do Norte, América do Sul, Japão ou leste da Ásia.

Mitocôndria em três pedaços

Para datar a linhagem pandêmica, a equipe sequenciou com leitura longa o DNA mitocondrial do Bd e viu que ele vem em três segmentos lineares, com repetições invertidas nas pontas, não em um anel.

Por que a origem era disputada

Até 2018, propostas de origem incluíam África, América do Norte, América do Sul, Japão e leste da Ásia. O estudo de 2013 de Rosenblum e colegas, com 29 genomas, achou o ramo mais basal no Brasil, mas concluiu que seria prematuro indicar um local de origem, pois a amostragem se concentrava na Europa e nas Américas. O estudo de 2018 acrescentou a Ásia e mostrou que o marcador ribossomal ITS-1, muito usado antes, não distingue bem as linhagens, o que explica parte do conflito.

Como sabemos a idade: o relógio molecular

A datação depende da taxa de mutação. Estudos anteriores usaram taxas muito lentas e chegaram a 26.400 anos. O estudo de 2018 estimou a taxa com isolados de data conhecida e com DNA de animais preservados, e obteve para a BdGPL entre 50 e 120 anos. Uma calibração alternativa, com datas históricas de detecção, deu resultado próximo (1975). Os intervalos de 95% vão de 1809 a 1988, um limite real da estimativa, e só a BdGPL tinha sinal temporal suficiente.

E o Brasil?

A BdBRAZIL é endêmica na Mata Atlântica e a BdASIA-2 vem de rãs-touro invasoras na Coreia; as duas são parentes próximas, e o estudo não consegue dizer em que direção a linhagem viajou. Já o trabalho brasileiro de 2017, com mais de 30 mil girinos de museu coletados entre 1930 e 2015, conclui que o Brasil é pós-epizoótico: o fungo aparece junto dos declínios de 1979 a 1987, o que enfraquece a ideia de que anfíbios brasileiros já fossem adaptados antes da pandemia.

O que o estudo não resolve

A Coreia pode representar só uma fração da diversidade de Batrachochytrium na Ásia, e os autores dizem que outras linhagens endêmicas devem existir sem terem sido detectadas. A rota exata da dispersão da BdGPL é desconhecida. A coincidência de datas com o comércio de anfíbios é um indício, não uma prova de causa, e o texto admite que a globalização pode ter agido também de forma passiva.

Como sabemos

Estudo genômico de 2018 em Science, lido na íntegra, com limites declarados e contexto de dois estudos anteriores e um brasileiro.

Fontes

  1. Science — Recent Asian origin of chytrid fungi causing global amphibian declines
    O'Hanlon, S. J.; Rieux, A.; Farrer, R. A.; et al. · 2018 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/science.aar1965
  2. Proceedings of the National Academy of Sciences — Complex history of the amphibian-killing chytrid fungus revealed with genome resequencing data
    Rosenblum, E. B.; James, T. Y.; Zamudio, K. R.; et al. · 2013 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1073/pnas.1300130110
  3. Proceedings of the Royal Society B — Historical amphibian declines and extinctions in Brazil linked to chytridiomycosis
    Carvalho, T.; Becker, C. G.; Toledo, L. F. · 2017 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rspb.2016.2254
  4. Proceedings of the National Academy of Sciences — Chytridiomycosis causes amphibian mortality associated with population declines in the rain forests of Australia and Central America
    Berger, L.; Speare, R.; Daszak, P.; et al. · 1998 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1073/pnas.95.15.9031
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 7; conferência de trechos automatizada)

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