Zoologia
O fungo que derrubou centenas de espécies de anfíbios
Publicado em 06/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026
Um fungo que vive na pele dos anfíbios, o Batrachochytrium dendrobatidis (Bd), contribuiu para o declínio de pelo menos 501 espécies nas últimas cinco décadas, segundo um levantamento global publicado na Science em 2019. Noventa delas estão extintas ou presumidamente extintas na natureza. Os autores o descrevem como a maior perda de biodiversidade já documentada atribuída a uma doença.
O Bd causa a quitridiomicose, doença de pele. Como o anfíbio regula água e sais pela pele, a infecção atinge o equilíbrio do corpo: em rãs-arborícolas-verdes (Litoria caerulea) doentes, o transporte de eletrólitos pela epiderme caiu mais de 50%, o sódio no plasma caiu cerca de 20% e o potássio cerca de 50%, e os animais morreram de parada cardíaca. O fungo foi descrito em 1998. Os 501 casos equivalem a 6,5% das espécies de anfíbios descritas: 90 estão extintas ou presumidamente extintas e outras 124 perderam mais de 90% da abundância. As perdas pesaram sobre anuros de distribuição restrita, em climas úmidos e grandes altitudes nas Américas e na Austrália.
De onde veio, e onde quase não matou
Os dois fungos do gênero Batrachochytrium provavelmente se originaram na Ásia, e o homem facilitou sua dispersão. O estudo de 2019 não registra declínios na Ásia, embora o Bd ocorra lá. Uma hipótese é que linhagens menos virulentas ou animais mais adaptados ao fungo expliquem a diferença.
Como o fungo mata
A pele de um anfíbio não é só revestimento: ela troca água, gases e sais com o ambiente. O experimento de Voyles e colegas, publicado na Science em 2009, mostrou o que a infecção faz. Em rãs-arborícolas-verdes doentes, o transporte de eletrólitos pela epiderme caiu mais de 50%, o sódio no plasma caiu cerca de 20% e o potássio cerca de 50%. Os animais morreram de parada cardíaca. Os autores propõem que a falha da pele explique a mortalidade em muitos grupos de anfíbios, de linhagens distantes.
O tamanho do estrago
O levantamento de Scheele e dezenas de coautores reuniu dados da Lista Vermelha da IUCN, da literatura científica e de consultas a especialistas. Concluiu que o Bd contribuiu para o declínio de pelo menos 501 espécies, 6,5% das descritas. Noventa estão extintas ou presumidamente extintas, e 124 perderam mais de 90% da abundância. Os autores consideram o número conservador e dizem que a maior parte da evidência é retrospectiva, porque muitas espécies declinaram antes de o fungo ser descrito, em 1998.
Quando, onde e quem
Os declínios globais atingiram o auge nos anos 1980, e um segundo pico menor veio no início dos anos 2000, com o avanço no oeste da América do Sul. Os efeitos foram maiores em anuros de distribuição restrita, em climas úmidos e grandes altitudes nas Américas e na Austrália. Só 12% das espécies afetadas dão sinais de recuperação, em geral pequenos aumentos de populações isoladas, e 39% seguem em declínio. Há ainda risco de surtos em áreas onde o fungo não chegou.
O ângulo brasileiro
A Mata Atlântica tem os registros de infecção por Bd mais antigos conhecidos, do fim do século XIX, e várias linhagens genéticas do fungo infectam seus anfíbios há mais de um século. Mesmo assim, segundo um estudo no Parque Estadual da Serra do Mar (SP), os declínios da região não foram associados especificamente a surtos de Bd. Em quatro anos de monitoramento, três espécies de rãs de riacho tiveram infecção frequente e intensa sem queda populacional dramática. O estudo de 2019 trata o Brasil como região à parte, com 50 espécies afetadas, e reúne coautores brasileiros.
Como sabemos
Os números centrais vêm do próprio artigo da Science e o mecanismo, de estudo experimental revisado por pares, mas a contagem de 501 espécies foi contestada em comentário.
Em debate: A estimativa de 501 espécies foi alvo de um comentário publicado na Science, que questionou dados e métodos do levantamento; os autores responderam mantendo a conclusão. O número depende de critérios de atribuição, e boa parte da evidência é retrospectiva.
Em debate: A pouca mortalidade na Mata Atlântica e na Ásia costuma ser explicada por linhagens menos virulentas ou hospedeiros adaptados, mas o mecanismo ainda é objeto de pesquisa.
- Evidência forte: O Bd contribuiu para o declínio de pelo menos 501 espécies de anfíbios nas últimas cinco décadas, inclusive 90 extinções confirmadas ou presumidas. [1]
Estimativa conservadora dos autores, com base na Lista Vermelha da IUCN, literatura e consulta a especialistas; a maior parte da evidência é retrospectiva. - Evidência forte: Os 501 casos correspondem a 6,5% das espécies de anfíbios descritas; 90 (18%) estão extintas ou presumidamente extintas na natureza e 124 (25%) tiveram redução de abundância acima de 90%. [1]
- Evidência forte: Todos os declínios, exceto um (Salamandra salamandra, afetada por B. salamandrivorans), foram atribuídos ao B. dendrobatidis. [1]
- Interpretação: Os autores afirmam que se trata da maior perda de biodiversidade atribuível a uma doença registrada. [1]
Conclusão dos autores do estudo, contestada em parte por um comentário publicado na Science. - Fato estabelecido: A infecção por Bd em rãs-arborícolas-verdes (Litoria caerulea) reduziu o transporte de eletrólitos pela epiderme em mais de 50%, o sódio plasmático em cerca de 20% e o potássio em cerca de 50%, e a morte ocorreu por parada cardíaca (assistolia). [2]
Resultado obtido em uma espécie; os autores propõem que a falha da função da pele seja o mecanismo de mortalidade em muitos grupos de anfíbios. - Fato estabelecido: O Bd foi descrito em 1998; o B. salamandrivorans, em 2013. [1]
- Evidência forte: Os efeitos foram maiores em anuros de distribuição restrita, em climas úmidos e grandes altitudes nas Américas e na Austrália. [1]
- Evidência forte: Os declínios associados à quitridiomicose atingiram o pico nos anos 1980, uma a duas décadas antes da descoberta da doença. [1]
- Evidência forte: Entre as espécies que declinaram, só 12% mostram sinais de recuperação e 39% seguem em declínio; as recuperações costumam ser aumentos pequenos em populações isoladas, não recuperação da espécie. [1]
- Evidência forte: Os dois fungos Batrachochytrium provavelmente se originaram na Ásia, e a dispersão recente foi facilitada por humanos. [1]
Hipótese sustentada pelo padrão geográfico dos declínios; os autores usam a palavra 'likely'. - Evidência forte: O estudo não registra declínios atribuídos à doença na Ásia, apesar da ocorrência do Bd. [1]
- Evidência forte: Os mapas do estudo tratam o Brasil à parte, com 50 espécies brasileiras entre as que declinaram. [1]
Número lido no gráfico da Fig. 1 do artigo (Brasil, n = 50). - Evidência forte: A Mata Atlântica tem os registros de infecção por Bd mais antigos (fim do século XIX), e várias linhagens genéticas do fungo infectam anfíbios ali há mais de um século. [3]
- Evidência forte: Na Mata Atlântica, os declínios não foram associados especificamente a surtos de Bd. [3]
Afirmação dos autores sobre a região, não sobre todo o Brasil. - Fato estabelecido: Em quatro anos de monitoramento (2007 a 2011) no Parque Estadual da Serra do Mar (SP), três espécies de rãs de riacho (Hylodes asper, Hylodes phyllodes e Cycloramphus boraceiensis) tiveram infecção frequente e intensa sem declínio populacional dramático. [3]
Fontes
- Science (cópia do National Environmental Science Programme, Austrália) — Amphibian fungal panzootic causes catastrophic and ongoing loss of biodiversity
consultada em 05/10/2026 - Science (resumo no PubMed/Europe PMC) — Pathogenesis of chytridiomycosis, a cause of catastrophic amphibian declines
consultada em 05/10/2026 - PLOS ONE (PubMed Central) — Seasonal Variation in Population Abundance and Chytrid Infection in Stream-Dwelling Frogs of the Brazilian Atlantic Forest
consultada em 05/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 2 · 06/10/2026 — Galeria de natureza: 4 imagem(ns) real(is) do Commons
- Versão 1 · 06/10/2026 — primeira versão