Zoologia

O quebra-nozes-americano esconde dezenas de milhares de sementes por outono: o que se sabe de sua memória

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Inteligência animal

O quebra-nozes-americano (Nucifraga columbiana) esconde, segundo estimativas, de 20.000 a mais de 100.000 sementes a cada outono e depende delas no inverno. Testes de laboratório indicam que ele as reencontra por memória espacial apoiada em marcos do ambiente; aves cativas ainda pareciam lembrar os locais após 285 dias, com algum prejuízo no intervalo mais longo.

Esconder comida em muitos pontos espalhados só compensa se a ave reencontra boa parte deles. Para saber se isso se deve à memória, os experimentos usam areia limpa e salas com objetos que servem de marcos, de modo que sobre só a lembrança do lugar. Memória espacial, aqui, é a lembrança da posição de um local em relação a esses marcos. O hipocampo é uma região do cérebro associada, em vertebrados, à memória de lugares, e por isso o tamanho dele é comparado entre espécies que estocam muito e pouco. O número de sementes é uma estimativa para a espécie toda; quantos esconderijos separados isso dá depende de quantas sementes vão em cada um, o que as fontes lidas não informam para esta ave.

Um mesmo bico, duas taxas de acerto

Em copos com areia, os quebra-nozes acertaram 89% das vezes ao enfiar o bico direto no meio e só 21% ao varrer o bico sobre o copo. Para os autores, parte dos erros de laboratório não era esquecimento, e sim outra forma de sondar o ambiente.

Como sabemos: do campo ao tanque de areia

Estudos de campo com o parente euroasiático, o Nucifraga caryocatactes, achavam cascas quebradas em quase 90% dos buracos cavados sob a neve, o que sugere precisão alta. Em laboratório, Vander Wall (1982) deixou quebra-nozes-americanos guardarem comida numa arena com areia e, antes da recuperação, deslocou os marcos de uma ponta: as aves erraram nessa ponta pela mesma distância. Segundo Brodin (2010), isso mostra que marcos são cruciais.

Por quanto tempo a lembrança dura

Em aves cativas, Balda e Kamil (1992) testaram a recuperação após intervalos longos. Pelo resumo de Brodin (2010), houve algum prejuízo após o intervalo mais longo, 285 dias (cerca de 9,4 meses, cálculo nosso), mas em geral as aves ainda pareciam lembrar com precisão. O artigo original não foi aberto, por isso os detalhes de amostra e de taxa de acerto ficam fora deste texto.

O que atrapalha: interferência e o método do agrupamento

Para testar a memória de várias posições, Lewis e Kamil usaram o método do agrupamento: a ave escolhe entre a posição correta e outras cinco. Aves testadas com duas listas no mesmo dia erraram mais na segunda, sinal de interferência proativa. No estudo de 2013, o efeito foi maior quando as duas listas usavam o mesmo conjunto de marcos. A lembrança de um lugar pode, portanto, ser confundida com a de outro parecido.

O laboratório pode subestimar a ave

Em 1997, Bednekoff e Balda notaram que os quebra-nozes acertavam 89% das vezes ao enfiar o bico no meio do copo de areia e só 21% ao varrê-lo, e que erravam menos quando sondar custava mais. Concluíram que parte dos erros não é esquecimento e que estudos anteriores subestimam a memória da espécie. É interpretação dos autores, não medida direta.

O hipocampo: o que se mediu e o que está em disputa

Basil et al. (1996) mediram hipocampo maior no quebra-nozes-americano que em três outros corvídeos, e a espécie também se saiu melhor que o gaio Aphelocoma coerulescens em testes de memória. Em 2013, Gould et al. refizeram as medidas com outro preparo e quatro quebra-nozes: só um par de espécies diferiu, e não envolvia o quebra-nozes. Já a lesão do hipocampo, testada por Krushinskaya em 1966, foi feita no quebra-nozes-euroasiático.

Como sabemos

A memória espacial e o papel dos marcos estão bem apoiados, mas a duração máxima vem de segunda mão, o número de sementes é estimativa e a ligação com o tamanho do hipocampo é disputada.

Em debate:

Fontes

  1. Philosophical Transactions of the Royal Society B — The history of scatter hoarding studies
    Brodin, A. · 2010 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rstb.2009.0217
  2. Brain, Behavior and Evolution — Differences in hippocampal volume among food storing corvids
    Basil, J. A.; Kamil, A. C.; Balda, R. P.; Fite, K. V. · 1996 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1159/000113235
  3. Brain, Behavior and Evolution — Differences in relative hippocampus volume and number of hippocampus neurons among five corvid species
    Gould, K. L.; Gilbertson, K. E.; Hrvol, A. J.; Nelson, J. C.; Seyfer, A. L.; Brantner, R. M.; Kamil, A. C. · 2013 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1159/000345560
  4. Animal Behaviour — Clark's nutcracker spatial memory: many errors might not be due to forgetting
    Bednekoff, P. A.; Balda, R. P. · 1997 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1006/anbe.1997.0473
  5. Journal of Experimental Psychology: Animal Behavior Processes — Changing room cues reduces the effects of proactive interference in Clark's Nutcrackers, Nucifraga columbiana
    Lewis, J. L.; Kamil, A. C.; Webbink, K. E. · 2013 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1037/a0031979
  6. Animal Cognition — Evolutionary drivers of caching behaviour in corvids
    Daw, F.; Beheim, B. A.; Wascher, C. A. F. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1007/s10071-025-01938-1
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 4; conferência de trechos automatizada)

Encontrou um erro? Avise o WikiMundi · Como verificamos