Ciências da Terra

Quando começou a tectônica de placas? Estimativas do Hadeano ao Neoproterozoico e quem defende cada uma

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

Assuntos: Tectônica de placas

A data segue em disputa. As estimativas publicadas vão do Hadeano (mais de 4 bilhões de anos atrás) ao Neoproterozoico (menos de 1 bilhão). Turner e colegas leem zircões de Jack Hills como cristalizados em magmas de tipo andesito de subducção; Tarduno e colegas, pelo magnetismo dos zircões, veem tampa estagnada até cerca de 3,4 bilhões; Cawood e colegas, uma transição entre 3,2 e 2,5; Stern, o Neoproterozoico. Nenhum indício isolado convence a todos.

Uma placa tectônica é um fragmento rígido da litosfera, a camada externa da Terra, que se move em relação às vizinhas; em algumas fronteiras, uma placa oceânica afunda no manto, a subducção. Antes de existir um sistema de placas ligadas entre si, a Terra pode ter tido uma única tampa rígida (regime de tampa estagnada ou tampa única), com subducção só local e passageira. O Hadeano é o intervalo anterior a 4 bilhões de anos atrás. O problema é o registro: o fundo oceânico preservado recua só cerca de 200 milhões de anos, e por isso se procuram rastros nos continentes, em bacias sedimentares, granitos, rochas metamórficas, zircões e magnetismo antigo.

Os mesmos zircões, duas leituras

Os zircões de Jack Hills aparecem nos dois lados. Turner e colegas veem neles magmas de tipo arco; Tarduno e colegas, medindo o magnetismo de grãos de 3,9 a 3,4 bilhões de anos, concluem que a litosfera não se movia em larga escala e que a reciclagem de crosta foi localizada.

Como se procura o começo quando o fundo do mar antigo sumiu

Sem fundo oceânico antigo, a tectônica de placas do passado é inferida por conjuntos de indícios. Cawood e colegas reúnem margens passivas, bacias de antepaís, estruturas de deformação, pares de cinturões metamórficos e paleomagnetismo. A transição de rifte para margem passiva mais antiga fica entre 2750 e 2500 milhões de anos; no Pilbara, estruturas de domo e quilha dão lugar a padrões lineares por volta de 3,1 bilhões. Os autores avisam que marcadores geoquímicos de subducção, como Th/Nb, têm aplicação menos certa na Terra primitiva, mais quente.

Zircões: o que dizem do Hadeano e o que não dizem

Turner e colegas calcularam, com elementos-traço de zircões de Jack Hills de 4,3 a 3,3 bilhões de anos, magmas de tipo arco; eles mesmos escrevem que uma assinatura de subducção não prova tectônica de placas, e citam leituras que não a exigem. Tarduno e colegas usaram o magnetismo de zircões de Barberton e de Jack Hills: intensidades quase constantes de 3,9 a 3,4 bilhões de anos sugerem latitudes estáveis e tampa estagnada. Como se data esse tipo de cristal está explicado em outro artigo do WikiMundi.

Profundidade: o que eclogitos e granitos TTG contam

Eclogito é crosta oceânica metamorfizada sob alta pressão. Ning e colegas dizem tê-lo achado com 2,52 a 2,53 bilhões de anos na China, o que indicaria subducção a 65–70 km; Zou e colegas respondem que a pressão foi superestimada em pelo menos 7 a 11 kbar. Já Smithies e colegas mostram que os TTG "de alta pressão" vieram do manto, não da fusão de crosta muito profunda, e não veem evidência de fusão bem abaixo dos cerca de 40 km de espessura da crosta continental moderna.

Quem defende o quê, e o que ainda não se sabe

Turner e colegas acham o Hadeano compatível; Korenaga propõe, como hipótese, um início precoce; Tarduno e colegas apontam tampa estagnada até cerca de 3,4 bilhões; Cawood e colegas, transição entre 3,2 e 2,5; Ning e colegas, subducção profunda já no fim do Arqueano (contestada); Stern, o Neoproterozoico. Os crátons brasileiros entram nessa história com tempos próprios: Cawood e colegas situam a estabilização do cráton Amazônico em cerca de 2,9 bilhões de anos.

Como sabemos

As posições de cada grupo estão em artigos abertos lidos, com trechos conferidos; faltam as revisões de Palin e Santosh e a resposta de Ning et al., e o resumo de Stern é a única parte lida da sua revisão.

Em debate: As estimativas vão do Hadeano ao Neoproterozoico, em parte porque grupos diferentes definem o início de modos diferentes (subducção local, placas ligadas em escala global, estilo moderno).

Em debate: Os mesmos zircões servem a leituras opostas: magmas de tipo subducção (Turner et al.), fontes que não exigem placas (alternativas citadas por Turner et al.) e latitudes constantes que sugerem tampa estagnada até cerca de 3,4 bilhões de anos (Tarduno et al.).

Em debate: Ning et al. descrevem eclogito de 2,52 a 2,53 bilhões de anos; Zou et al. dizem que a pressão foi superestimada. Sem eclogitos mais antigos que 2,1 bilhões de anos, parte dos pesquisadores situa o início depois disso.

Em debate: Stern defende o Neoproterozoico para o episódio moderno; Cawood et al. veem transição entre 3,2 e 2,5 bilhões de anos a partir de indícios de crátons.

Fontes

  1. Philosophical Transactions of the Royal Society A — Geological archive of the onset of plate tectonics
    Cawood, P. A.; Hawkesworth, C. J.; Pisarevsky, S. A.; Dhuime, B.; Capitanio, F. A.; Nebel, O. · 2018 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1098/rsta.2017.0405
  2. Philosophical Transactions of the Royal Society A — Crustal evolution and mantle dynamics through Earth history
    Korenaga, J. · 2018 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1098/rsta.2017.0408
  3. Philosophical Transactions of the Royal Society A — The evolution of plate tectonics
    Stern, R. J. · 2018 · Revisão ou síntese científica · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1098/rsta.2017.0406
  4. Nature Communications — An andesitic source for Jack Hills zircon supports onset of plate tectonics in the Hadean
    Turner, S.; Wilde, S.; Wörner, G.; Schaefer, B.; Lai, Y.-J. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/s41467-020-14857-1
  5. Nature — Hadaean to Palaeoarchaean stagnant-lid tectonics revealed by zircon magnetism
    Tarduno, J. A.; Cottrell, R. D.; Bono, R. K.; Rayner, N.; Davis, W. J.; Zhou, T.; Nimmo, F.; Hofmann, A.; Jodder, J.; Ibañez-Mejia, M.; Watkeys, M. K.; Oda, H.; Mitra, G. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/s41586-023-06024-5
  6. Nature Communications — No evidence for high-pressure melting of Earth's crust in the Archean
    Smithies, R. H.; Lu, Y.; Johnson, T. E.; Kirkland, C. L.; Cassidy, K. F.; Champion, D. C.; Mole, D. R.; Zibra, I.; Gessner, K.; Sapkota, J.; De Paoli, M. C.; Poujol, M. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/s41467-019-13547-x
  7. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) — Archean eclogite-facies oceanic crust indicates modern-style plate tectonics
    Ning, W.; Kusky, T.; Wang, L.; Huang, B. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1073/pnas.2117529119
  8. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) — No evidence for Archean eclogite-facies metamorphism (comentário sobre Ning et al., 2022)
    Zou, Y.; Chu, X.; Wu, J.; Zhao, L. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1073/pnas.2208090119
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 18; conferência de trechos automatizada)

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