História da Ásia
Os qanats persas levam água por túneis subterrâneos, uma técnica dominada no Irã há mais de 2 mil anos
Publicado em 05/10/2026 · Última alteração em 05/10/2026
Sem bomba e sem motor, o qanat tira água do subsolo e a leva até os campos só pela gravidade. Cava-se um poço-mãe até o lençol de água no alto de um leque aluvial; dali parte um túnel quase horizontal, com declive de poucos metros por quilômetro, até a saída perto da aldeia. Uma fila de poços verticais serve para tirar a terra escavada e ventilar a galeria. A técnica já era dominada na Pérsia há mais de 2 mil anos e ainda irriga aldeias no Irã.
Visto do alto, um qanat é uma fila de crateras que atravessa o deserto: são as bocas dos poços, que no Irã costumam ficar a 20 ou 30 metros uma da outra. A maioria não passa de 50 metros de profundidade, mas em Gonabad, no Khorasan, há poços de até 300 metros, e o qanat de lá tem cerca de 35 km. Os mais longos do país, na região de Yazd, chegam a uns 50 km. Em 2016 a UNESCO inscreveu O Qanat Persa como Patrimônio Mundial: onze qanats em várias províncias, todos ainda ativos, com abrigos para os trabalhadores, reservatórios e moinhos d'água. A UNESCO lembra que o planalto desértico do Irã é chamado de "Civilização do Qanat", porque a distribuição das aldeias acompanha a dos túneis, e que a água ainda é repartida por conselhos comunitários tradicionais.
Água por cinco gerações
O historiador grego Políbio conta que, quando os persas governavam a Ásia, quem levasse água a uma terra antes seca ganhava o direito de cultivá-la por cinco gerações. No mesmo trecho, Arsaces, rei dos partos, tenta deter o exército do rei Antíoco entupindo as bocas dos poços desses canais subterrâneos.
Como se constrói
O trabalho é do moqanni, o cavador de qanats. Primeiro se abre o poço-mãe até achar o aquífero. Depois a galeria é escavada da saída para cima, com o declive calculado por métodos tradicionais passados de geração em geração. Os poços verticais, em geral a 20 ou 30 metros uns dos outros, tiram a terra e levam ar aos cavadores. As equipes têm de 3 a 5 homens, e uma obra grande pode reunir até 10 equipes. Um qanat costumava levar de 1 a 2 anos para ficar pronto.
Quantos anos têm
A data é difícil, porque um túnel cavado na terra não traz inscrição. No Irã, nenhum qanat escavado foi datado de antes do período islâmico. A melhor prova escrita é de Políbio, que descreve canais subterrâneos persas no norte do Irã. A arqueológica está no Egito: em ʿAyn Manawir, no oásis de Kharga, os qanats foram abertos durante o domínio persa, a partir de meados do século V a.C., e são os mais antigos escavados e bem datados. Para De Planhol, isso mostra que a técnica já estava dominada no Irã quando os aquemênidas chegaram ao poder.
Quem inventou
A hipótese mais citada liga o qanat aos mineiros, que precisavam drenar a água das galerias. A tese de que viria de Urartu, com base numa campanha de Sargão II em 714 a.C., caiu: os canais descritos eram de superfície. O debate vivo está na Arábia. Em Al Ain, nos Emirados, foram escavados falaj com galeria e poços da Idade do Ferro II (c. 1000–600 a.C.). De Planhol os vê como drenos rasos; Rémy Boucharlat defende que a técnica surgiu em mais de um lugar e em mais de uma época.
Para onde viajou
Sob os persas, o qanat chegou ao Egito. Depois passou à Sicília e, em escala maior, à Península Ibérica, de onde os espanhóis o levaram ao México e ao Chile. Na China, os karez de Turfan teriam chegado no fim do século XVIII com gente vinda da Pérsia, segundo as tradições locais; outros autores apontam canais da dinastia Han, e o caso segue em discussão. No Irã, os onze qanats do Patrimônio Mundial seguem irrigando, cuidados por conselhos locais que repartem a água.
Como sabemos
Funcionamento e Patrimônio Mundial vêm da UNESCO e da Encyclopaedia Iranica; a idade e a origem da técnica são debatidas e aparecem como tais, com o título limitado ao que é consenso (mais de 2 mil anos no Irã).
Em debate: Origem: a Encyclopaedia Iranica (Xavier de Planhol) sustenta que o qanat nasceu nas terras iranianas, a partir da técnica de mineiros, e lembra que a tese de Urartu (714 a.C.) foi refutada. Na Arábia oriental, porém, arqueólogos escavaram falaj com galeria subterrânea e poços em sítios da Idade do Ferro II (c. 1000–600 a.C.), mais antigos que qualquer qanat datado no Irã, onde não há exemplar escavado anterior ao período islâmico. De Planhol vê nesses canais arábicos apenas drenos rasos; Rémy Boucharlat propõe origens múltiplas, em vários centros e épocas.
Em debate: China: discute-se se os karez de Turfan descendem de canais da dinastia Han descritos por Sima Qian ou se a técnica chegou da Pérsia no fim do século XVIII, versão que a Iranica considera mais bem apoiada.
- Fato estabelecido: O qanat capta água de aquíferos aluviais no alto dos vales e a conduz por túneis subterrâneos, pela gravidade, muitas vezes por vários quilômetros. [1] [2]
- Fato estabelecido: Cada qanat tem um túnel quase horizontal que recolhe a água de um poço-mãe aberto até o nível do aquífero, em geral num leque aluvial; poços verticais abertos a intervalos regulares servem para retirar a terra escavada e ventilar o túnel, e vistos do alto parecem crateras em fila. [1]
- Estimativa: O declive dos túneis é pequeno: cerca de 0,5% em média no Irã segundo a Encyclopaedia Iranica, ou de 1 a 3 por mil nos qanats típicos segundo Wuttmann; ou seja, poucos metros por quilômetro. [2] [4]
As duas fontes dão valores médios diferentes (0,5% contra 0,1–0,3%); o texto diz apenas 'poucos metros por quilômetro'. - Fato estabelecido: No Irã, os poços verticais costumam ficar a 20 ou 30 metros um do outro, e a maioria não passa de 50 metros de profundidade; em Gonabad (Khorasan) chegam a 300 metros. [2]
- Estimativa: O qanat de Gonabad tem cerca de 35 km; os mais longos do Irã, na região de Yazd, chegam a cerca de 50 km. [2]
Valores aproximados dados por De Planhol na Encyclopaedia Iranica. - Fato estabelecido: O Qanat Persa foi inscrito como Patrimônio Mundial da UNESCO em 2016, com onze qanats, pelos critérios (iii) e (iv). [1]
- Fato estabelecido: Os onze qanats inscritos continuam ativos, incluem áreas de descanso para trabalhadores, reservatórios e moinhos d'água, e são geridos por conselhos comunitários tradicionais que repartem a água. [1]
- Fato estabelecido: Segundo a UNESCO, o planalto desértico do Irã é chamado de 'Civilização do Qanat', porque a distribuição dos assentamentos acompanha a dos qanats. [1]
- Fato estabelecido: Políbio relata que, no tempo em que os persas governavam a Ásia, quem levava água a terras antes não irrigadas recebia o direito de cultivá-las por cinco gerações, e que Arsaces tentou destruir as bocas dos poços dos canais subterrâneos para deter o exército de Antíoco. [6] [3]
É o que o texto antigo afirma; a Encyclopaedia Iranica o trata como a referência escrita confiável mais antiga aos qanats no Irã. - Consenso científico: A técnica do qanat já estava plenamente dominada nas terras iranianas quando o Império Aquemênida foi criado (século VI a.C.), o que faz dela uma técnica de mais de 2 mil anos no Irã. [3] [4]
De Planhol deduz isso da novidade dos qanats no Egito sob domínio persa; não há qanat escavado no Irã datado de antes do período islâmico. - Hipótese: A técnica teria nascido entre mineiros, que precisavam drenar a água de galerias que atingiam o lençol freático. [3]
Tese de H. Goblot aceita por De Planhol na Iranica. - Consenso científico: A ideia de que os qanats vêm de Urartu, a partir da campanha de Sargão II em 714 a.C., foi refutada: os canais descritos por Sargão eram canais de superfície. [3]
- Evidência forte: Os qanats mais antigos escavados e bem datados ficam em ʿAyn Manawir, no oásis de Kharga (Egito), e foram abertos no período persa, a partir de meados do século V a.C., datação apoiada em material arqueológico e óstracos demóticos. [4] [3]
- Evidência forte: Na Arábia oriental (Emirados Árabes Unidos e Omã), canais subterrâneos com poços ao longo do percurso, chamados falaj, foram escavados em sítios da Idade do Ferro II (c. 1000–600 a.C.), como Hili-15 e Bida bint Saud, em Al Ain. [5]
- Em debate: Onde a técnica nasceu é debatido: De Planhol defende a origem iraniana e considera os canais arábicos da Idade do Ferro apenas drenos rasos; arqueólogos que trabalham na Arábia veem neles verdadeiros falaj, mais antigos que qualquer qanat datado no Irã. [3] [5]
Ver controvérsias. Rémy Boucharlat (CNRS) defende uma origem em vários centros e em vários períodos. - Consenso científico: A técnica passou para a Sicília e, em escala maior, para a Península Ibérica; os colonizadores espanhóis a levaram ao México e ao Chile. [3]
- Em debate: Em Turfan (Xinjiang, China), as tradições dizem que a técnica chegou no fim do século XVIII com gente vinda da Pérsia; relatos de Sima Qian sobre canais subterrâneos da dinastia Han (c. 120 a.C.) têm interpretação disputada. [3]
A Iranica considera a introdução iraniana por volta de 1780 a hipótese mais apoiada, mas a origem chinesa ainda é defendida por alguns autores. - Estimativa: A construção de um qanat levava em geral de 1 a 2 anos, com equipes de 3 a 5 trabalhadores, e em obras grandes até 10 equipes trabalhando ao mesmo tempo. [2]
Fontes
- UNESCO World Heritage Centre (base de dados aberta da UNESCO) — The Persian Qanat (ref. 1506): descrição e Valor Universal Excepcional
consultada em 05/10/2026 - Encyclopaedia Iranica (Columbia University) — KĀRIZ ii. Technology
consultada em 05/10/2026 - Encyclopaedia Iranica (Columbia University) — KĀRIZ iv. Origin and Dissemination
consultada em 05/10/2026 - Abstracta Iranica, vol. 23 (CNRS / OpenEdition) — M. Wuttmann, "The qanats of 'Ayn-Manāwir (Kharga Oasis, Egypt)" (resenha)
consultada em 05/10/2026 - Bulletin of Archaeology, Kanazawa University, 29 (2008) — The Iron Age Culture in the United Arab Emirates, between 1100 BC and 250 BC
consultada em 05/10/2026 - LacusCurtius, Universidade de Chicago — Políbio, Histórias, livro X, 28 (trad. W. R. Paton, Loeb)
consultada em 05/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 1 · 05/10/2026 — primeira versão