Astronomia

Pulsares de milissegundo: por que são tão regulares e o que a ciência faz com eles

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Estrelas

Pulsares de milissegundo são estrelas de nêutrons que giram dezenas a centenas de vezes por segundo. São regulares porque o corpo girante tem inércia enorme, perde energia muito devagar e, sendo antigo, mostra pouco ruído: ao longo de uma década, alguns rivalizam com relógios atômicos. Isso permite pesar estrelas de nêutrons, achar planetas e procurar ondas gravitacionais.

Um pulsar é uma estrela de nêutrons em rotação, com campo magnético intenso: o feixe de radiação varre a Terra uma vez por volta, e o intervalo entre pulsos é o período de rotação. Os pulsares comuns giram uma vez a cada cerca de 0,5 s; os de milissegundo, em 1,4 a 30 ms, e desaceleram muito mais devagar. Medir o instante de chegada de cada pulso com precisão faz do pulsar um relógio: qualquer coisa que o altere (a órbita de um companheiro, a curvatura do espaço-tempo, uma onda gravitacional) aparece como atraso. O primeiro pulsar de milissegundo foi publicado em 1982. A descoberta dos pulsares, em 1967, tem post próprio; aqui o foco é a regularidade e o uso científico.

Planetas em volta de um pulsar

O primeiro sistema planetário fora do Sistema Solar citado na revisão de Lorimer (2008) orbita um pulsar de milissegundo: PSR B1257+12, de 6,2 ms, acompanhado de ao menos três corpos de massa terrestre. A estrela central, nesse caso, é uma estrela de nêutrons.

Por que a rotação é tão regular

Uma estrela de nêutrons é um volante gigantesco, com momento de inércia da ordem de 10^38 kg·m². O período aumenta quando a estrela irradia energia, mas nos pulsares de milissegundo esse aumento é mínimo: no máximo cerca de 10^-19 s por segundo, contra cerca de 10^-15 nos pulsares comuns, quatro ordens de grandeza a menos (conta nossa). Além disso, o ruído de cronometragem é menor nos pulsares velhos, e a revisão de Lorimer conclui que, para eles, a precisão depende sobretudo do equipamento. A origem do ruído que resta não é bem compreendida.

De onde vêm os pulsares de milissegundo

Pelo modelo de reciclagem, uma estrela de nêutrons velha, já desacelerada, volta a girar depressa quando a companheira incha e lhe transfere matéria e momento angular; o período cai a poucos milissegundos. A companheira perde as camadas externas e vira uma anã branca. Estimativas a partir de período e variação de período dão a esses pulsares campo de cerca de 10^8 G e idade característica de cerca de 10^9 anos. Há casos mal explicados: em 2008, 16 dos 72 pulsares de milissegundo da Galáxia eram isolados, sem companheira.

Como sabemos que são relógios

Registra-se o instante de chegada de cada pulso, com carimbo de um padrão de césio ou maser de hidrogênio, e ajusta-se um modelo que conta cada rotação da estrela, com posição, movimento próprio, órbita e efeitos relativísticos. O que sobra entre modelo e medida são os resíduos. Para o B1937+21, o período foi medido a 1 parte em 10^13 ou melhor, e a estabilidade em décadas é comparável à dos relógios atômicos. O limite: isso vale para escalas de alguns anos, e a revisão é de 2008, quando só o J0437−4715 parecia superar o relógio atômico.

Pesar e medir estrelas de nêutrons

Num pulsar binário visto quase de lado, o sinal sofre o atraso de Shapiro, efeito da relatividade geral que revela a massa da companheira e, daí, a do pulsar. No PSR J1614−2230 o resultado de 2010 foi 1,97 ± 0,04 massa solar, depois revisado para 1,908 ± 0,016; mesmo assim, estrelas de quase 2 massas solares limitam a matéria em seu interior. O raio vem de outra via: a missão NICER observa raios X do pulsar, e a combinação de dados dá 12,45 ± 0,65 km para 1,4 massa solar, valor de modelagem, não medida direta.

Um detector do tamanho da Galáxia

A existência das ondas gravitacionais já fora confirmada no fim dos anos 1970 pela órbita do pulsar binário de Hulse e Taylor (tema de outro post). Os pulsares agora servem de detector: uma onda de período de anos altera os tempos de chegada de vários pulsares de forma correlacionada, no padrão de Hellings e Downs. Em 2023, a colaboração NANOGrav relatou evidências desse padrão em 67 pulsares, com significância de cerca de 3 a 4 sigma. A origem segue em aberto: binárias de buracos negros supermassivos são a hipótese mais estudada.

Como sabemos

Os mecanismos e a estabilidade vêm de uma revisão de 2008 e três artigos de 2010 a 2023; a evidência de ondas gravitacionais de nanohertz é de significância moderada e de origem em aberto.

Fontes

  1. Living Reviews in Relativity — Binary and Millisecond Pulsars
    Lorimer, D. R. · 2008 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.12942/lrr-2008-8
  2. The Astrophysical Journal Letters — The NANOGrav 15-year Data Set: Evidence for a Gravitational-Wave Background
    Agazie, G. et al. (NANOGrav Collaboration) · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3847/2041-8213/acdac6
  3. Nature — Shapiro delay measurement of a two solar mass neutron star
    Demorest, P. B.; Pennucci, T.; Ransom, S. M.; Roberts, M. S. E.; Hessels, J. W. T. · 2010 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/nature09466
  4. The Astrophysical Journal Letters — The Radius of PSR J0740+6620 from NICER and XMM-Newton Data
    Miller, M. C. et al. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3847/2041-8213/ac089b
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 13; conferência de trechos automatizada)

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