Paleontologia
Pterossauros do Araripe: a crista de tecido mole de Tupandactylus, quase duas vezes o comprimento do crânio
Publicado em 06/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026
Tupandactylus, pterossauro da Formação Crato (Bacia do Araripe, Nordeste do Brasil), tinha uma crista em que o osso era só a estrutura. Num esqueleto quase completo, a crista chega a 522 mm de altura, contra um crânio de 287 mm. Por que um animal de cerca de 2,7 m de envergadura carregaria isso? A hipótese mais defendida é exibição visual, mas ela ainda não foi demonstrada.
Os tapejarídeos eram pterossauros desdentados do Cretáceo, com cristas na cabeça. Na Formação Crato, de idade aptiana, o calcário laminado preservou partes moles raras em pterossauros. O espécime GP/2E 9266, de Tupandactylus navigans, tem crânio de 286,7 mm e envergadura estimada em 2,7 m. A crista combina osso (os premaxilares estriados e um processo vertical que a sustenta na frente) com uma grande porção de tecido mole, de fibras verticais subparalelas. Sem o tecido mole, a crista pareceria bem menor. Esse tipo de estrutura raramente fossiliza, e por isso as cristas do Araripe são tão valiosas para quem estuda o assunto.
Crista que cresce com a idade
Em outro tapejarídeo brasileiro, Caiuajara, do Paraná, a crista é pequena e inclinada (cerca de 115°) nos jovens e grande e quase vertical (cerca de 90°) nos adultos. Em Tupandactylus isso não pôde ser confirmado, por falta de série de crescimento.
Osso e tecido mole
A crista de Tupandactylus não era só osso. O esqueleto dá a base: premaxilares estriados e um processo vertical na frente. O restante é tecido mole preservado, com uma parte ventral fibrosa e outra dorsal lisa. A estrutura óssea sozinha subestimaria o tamanho real do ornamento, e esse é um dos motivos de a Formação Crato ser tão importante para o estudo desses animais.
As proporções
No espécime GP/2E 9266, o crânio mede 286,7 mm de comprimento e a crista chega a 522,3 mm de altura, medida da ponta ao limite ventral do crânio. A razão é de cerca de 1,8 vez o comprimento do crânio. A envergadura estimada é de 2,7 m, calculada pela soma dos ossos da asa. Os números valem para esse indivíduo, não para a espécie inteira.
Para que servia
Hone e colegas propuseram em 2012 que cristas de pterossauros evoluíram por seleção sexual mútua, em que ambos os sexos exibem e avaliam o ornamento. Eles rejeitam funções como termorregulação e vela aerodinâmica em tapejarídeos. É uma hipótese coerente com o tamanho e com a falta de função mecânica evidente, mas ninguém observou esses animais se exibindo.
O que o crescimento revela
Em Caiuajara, um tapejarídeo do Paraná com ao menos 47 indivíduos num único depósito, a crista cresce e fica mais vertical com a idade. Isso, somado a cristas bem desenvolvidas em indivíduos pequenos e grandes, enfraquece a ideia de que presença ou ausência de crista distinguiria machos e fêmeas. Em Tupandactylus não há série de crescimento para testar isso.
Como sabemos
Medidas e anatomia vêm do artigo de descrição; a função da crista é hipótese, apresentada como tal.
Em debate: Exibição por seleção sexual é a hipótese mais defendida, mas a função não foi demonstrada, e as evidências disponíveis são anatômicas, não comportamentais.
- Fato estabelecido: O espécime GP/2E 9266 de Tupandactylus navigans vem da Formação Crato, de idade aptiana, na Bacia do Araripe, Nordeste do Brasil. [1]
- Estimativa: O crânio desse espécime mede 286,7 mm e a envergadura é estimada em 2,7 m. [1]
O comprimento do crânio é medida direta; a envergadura é calculada somando os ossos da asa. - Fato estabelecido: A altura máxima da crista, da ponta ao limite ventral do crânio, é de 522,3 mm. [1]
- Fato estabelecido: A crista combina elementos ósseos (premaxilares estriados e um processo supra-premaxilar vertical) com uma grande porção de tecido mole. [1]
- Fato estabelecido: O tecido mole da crista tem uma porção ventral fibrosa e uma dorsal lisa, com padrão de fibras verticais subparalelas. [1]
- Fato estabelecido: Bainhas de ramfoteca cobrem as bordas anteriores e ventrais dos premaxilares e parte do dentário. [1]
- Fato estabelecido: Em Caiuajara dobruskii, a crista é pequena e inclinada (cerca de 115°) nos jovens e grande e mais íngreme (cerca de 90°) nos adultos. [2]
- Fato estabelecido: Em Tupandactylus essa tendência de crescimento não pode ser confirmada, por falta de série ontogenética. [1]
- Interpretação: Em Caiuajara, uma crista desenvolvida existe nos menores e nos maiores indivíduos, o que lança dúvida sobre explicações de dimorfismo sexual baseadas em presença ou ausência de crista. [2]
Interpretação dos autores do estudo, sobre outra espécie. - Hipótese: Hone e colegas (2012) propõem que cristas de pterossauros evoluíram por seleção sexual mútua, rejeitando termorregulação e função de vela aerodinâmica em tapejarídeos. [3]
Hipótese publicada e argumentada, mas sem teste direto: não há observação de comportamento. - Incerto: A função exata das cristas dos tapejarídeos não está demonstrada. [1] [2]
Os estudos descritivos dos espécimes não propõem função definitiva.
Fontes
- PLOS ONE (PubMed Central) — Osteology of an exceptionally well-preserved tapejarid skeleton from Brazil: Revealing the anatomy of a curious pterodactyloid clade
consultada em 06/10/2026 - PLOS ONE (PubMed Central) — Discovery of a Rare Pterosaur Bone Bed in a Cretaceous Desert with Insights on Ontogeny and Behavior of Flying Reptiles
consultada em 06/10/2026 - Scientific American, Tetrapod Zoology — Did dinosaurs and pterosaurs practise mutual sexual selection? (comentário sobre Hone, Naish e Cuthill, 2012, Lethaia)
consultada em 06/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 2 · 06/10/2026 — Galeria de natureza: 5 imagem(ns) real(is) do Commons
- Versão 1 · 06/10/2026 — primeira versão